Quinta-Feira, 29 de Junho

14/02/2015 - Copyleft

A Espanha de volta

A cara da crise social está sempre nas ruas espanholas e o destino da Europa e da esquerda europeia depende hoje do Syriza e do Podemos.

por Emir Sader em 14/02/2015 às 12:59



Emir Sader

De volta à Espanha, quando a Espanha de volta. Ficam para trás os tempos tristes de um país aplastado pelas politicas de austeridades impostas pelo Psoe e aprofundadas pelo PP. Para trás a situação de um povo indefeso diante do consenso bipartidista que induzia para as profundezas do país as políticas da Troika.
 

Da indignação à disputa de hegemonia em um pais com uma longa e linda trajetória de esquerda, mas que ao mesmo tempo também sofreu golpes muito duros. Entre eles a passagem da resistencia dos socialistas à Otan à adesão à Otan. A mesma resistência do governo de Zapatero a aderir à política de austeridade e a vergonhosa adesão, à que não faltou sequer Obama declarando que havia telefonado no dia anterior a Zapatero, como que confessando que foi a ultima palavra de pressão, a que cedeu o governo do Psoe.
 

Até não muito tempo, as notícias que chegavam da Espanha eram ruins ou péssimas. Entre o nível imoral de desemprego, incluindo o dado escandaloso do desemprego entre os jovens, até a exclusão dos direitos elementares, antes de tudo dos mais frágeis, incluindo a grande maioria imigrantes, que haviam construído com suas mãos o boom econômico – em grande parte da construção civil – do período imediatamente anterior à recessão atual.
 

A situação social não melhorou, mesmo se o governo divulgue que, estatisticamente, o pior do momento da recessão já haveria ficado pra trás. A cara da crise social está sempre nas ruas: jovens e idosos pedindo esmola, caixões de lixo como fonte de algo útil para um monte de gente em plenas grandes cidades, comércios fechados, muita gente sem ter o que fazer vagando pelas ruas e praças.
 

Mas desta vez aflorou uma imensa crise de representação politica e os dos partidos tradicionais, reponsáveis pela crise, se enfraquecem aceleradamente. O que outras forças da esquerda não tinham conseguido, o Podemos está conseguindo: construir uma força própria da esquerda, alternativa ao PP e ao PSOE.
 

Instaurou-se o pânico nesses partidos e na mídia tradicional. Começou o festival de acusações pessoais, de tentativas de todo tipo de desqualificação do Podemos, de denúncias de “bolivarianismo”, de “populismo”, de retrocessos, no mesmo ritmo de perda de apoio dos seus partidos.  Buscam frear as perdas gerando níveis de rejeição ao Podemos nos setores conservadores, procurando colocar um dique de contenção na hemorragia dos seus partidos. É o pânico das eleições deste ano, quando os dois partidos tradicionais, que ocupavam comodamente, por rodízio, o espectro politico, podem ser radicalmente deslocados.
 

Enquanto estavam os indignados, eles até achavam certa graça, certa frescura, nas mobilizações. Mas agora vêem esse intruso do Podemos disputar-lhes a direção do pais, disparam, juntos, toda a munição, sobre a nova força politica.
 

As novidades do Syriza e do Podemos enfrentam os desafios de criar os novos caminhos da luta antineoliberal na Europa. Se deparam com os desafios cantados por Pablo Milanes em Los caminos:
 

“Los caminos que encontramos hechos

 Son desechos de viejos destinos.

 No cruzemos por estos caminos

 Porque solo son caminos muertos.”
 

De qualquer forma, o futuro da Espanha e da esquerda espanhola dependem hoje do Podemos. Como o destino da Grecia e da esquerda grega dependem hoje de Syriza. E, provavelmente, os destinos da Europa e da esquerda europeia dependem hoje do Syriza e do Podemos.
 

Tags: Internacional





roberto danunzio - 19/02/2015
Mais uma brilhante análise, professor. No ritmo em que vamos, o PT de convenientes Levys e inevitáveis Katiabreus, este Partido dos Trabalhadores que está prestes a sacrificar mais alguns direitos do trabalhador para aplacar a ira do Deus Mercado, levará cinquenta anos para alcançar a Espanha em matéria de distribuição de riquezas e universalização da educação formal e dos serviços básicos, e isto enquanto a Espanha vem no sentido contrário, se empobrecendo e precarizando estes mesmos serviços. Sem perspectiva, fica parecendo que estamos indo muito bem em relação a Espanha e Grécia, tenha dó! A tarefa do Podemos é estancar a sangria, a nossa, impedir que o corpo desfaleça. Vai começar a greve nacional unificada do servidor público federal, mais um capítulo na luta para desbancar a CUT e produtos similares. Vai ser um bom início para as pressões que virão da rua. Falamos tudo isto antes da eleição, ninguém nos escutou.


Amauri Spadari - 18/02/2015
Maria Libia, outra pergunta que não quer calar é: Porque o senhor ministro da "fazenda" dos norte americanos Sr Levy, se encontrou a portas fechadas com o governo norte americano e com "executivos" e saiu "informando" que este ano o Brasil vai encolher o PIB, "mas que isto é necessário"?

Que governo de esquerda é este que coloca a raposa cuidar do galinheiro, ou melhor, o garoto sorridente que leva e traz as ordens da raposa yank?

Emir o povo é sego, mas nem tanto.


Amauri Spadari - 18/02/2015
Emir, a uns 12 anos atrás, no início do governo Lula, eu disse que era preciso acabar com o voto obrigatório e com o Famigerado horário de verão, coisas simples, mas que refletiriam o INÍCIO das mudanças, o ROMPIMENTO com o sistema que coisas ditadas pelo imperialismo.

Passado 12 anos o PT, Lula, Dilma e seus "cientistas políticos", tudo continua com antes, ou seja,o atual governo de (16 anos) mão teve forças de mudar coisas básicas, como espera a menos de 4 anos de mandato, mudar tudo que precisa, fazer as reformas necessárias e ainda livrar-se do golpe?

O Sr. ultimamente vem criticando a POSTURA do governo e do PT, mas na verdade não seria a postura e sim a FORÇA de governar de verdade e não apenas fazer remendos em um pano neoliberal podre.

Só para te lembrar, o Sr. apoiou a manutenção do voto obrigatório e quanto ao horário de verão se omitiu, então não pode criticar a POSTURA do atual governo.

Pra finalizar acredito que os EUA ameaçaram o Brasil com bomba atômica caso o horário de verão seja extinto, pois não é possível, esse horário é extremante nocivo ao trabalhador, não economiza energia, e médicos comprovam que traz sérios riscos a saúde, e mesmo assim, um governo que SE DIZ DE ESQUERDA mantem firme, mesmo com ameaças de perder as eleições por mante-lo.


Maria Libia Faria Spina - 17/02/2015
A historia é começada por poucos, veja que o podemos e sk comecaram com poucas pessoas que sabem que tem valor, que tem força, que tem coragem. Nao vai sero poderoso sistema financeiro que vai impedir deles chegarem lá. Só que a Grécia e a Espanha chegaram ao fundo do poço para que aparecesse pessoas que deram a cara para bater. São dessas pessoas , que não são entreguistas, tipo fhc, que o Brasil precisa, antes que vejamos tudo ruir. Uma pergunta que não quer calar:DE QUE VIVE O SERRA?


Marcia Eloy - 16/02/2015
Tomara que o povo espanhol acorde e reaja, pois a pior perda não é a econômica e a da dignidade.


arquimedes andrade - 16/02/2015
Agora é a vez do PODEMOS na Espanha. E uma boa coisa a fazer quando chegar ao poder é acabar com a realeza - os parasitas da nação - e prosseguir na luta com a Grécia contra as medias neoliberais. O exemplo do Syriza e Podemos é uma luz no fim do túmulo. O túmulo onde os neoliberais jogaram a esquerda, que não aprende com as experiências da história, principalmente governar para e como o povo. E mais, sem essa imundície de corrupção. Estou em campanha permanente: Xô meleca neoliberal.

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