Sexta-Feira, 24 de Outubro

28/02/2012 - Copyleft

A desigualdade no Brasil e no mundo

por Emir Sader em 28/02/2012 às 07:54




Emir Sader

“A desigualdade brasileira está entre as dez mais altas do mundo, apesar de estar no piso das nossas séries históricas.” Assim começa Marcelo Cörtes Neri artigo no Valor sobre o tema..

A grande novidade no mundo é que a desigualdade diminuiu, graças sobretudo à sua diminuição em países como a China, a India e o Brasil, enquanto ela aumenta nos países do centro do capitalismo. A China e a India abrigam a metade dos pobres do mundo, então os efeitos da diminuição da pobreza nesses países é determinante para sua inédita diminuição em escala mundial.

A trajetória da desigualdade de renda no Brasil, de 1970 a 2000, diz o artigo “lembra o cardiograma de um morto”, isto é, nao se moveu, nem com democracia, nem com ditadura, nem com expansão, nem com recessão. “O único sinal de vida foi dado no movimento de concentração de renda ocorrida entre 1960 e 1970, quando o Gini chega próximo a 0,6, e se estabiliza nesse patamar”. Isto, sob o feito do golpe, da repressão aos sindicatos, ao arrocho salarial, à concentração de renda e à exclusão social promovidos pela ditadura, aumentou ainda mais a desigualdade e ficou nesse patamar até os anos 2000.

A desigualdade de renda no mundo começa a cair com o crescimento chinês – ao contrario do que se propala, que teria aumentado na China a desigualdade com o crescimento – indo de 0,63 em 1990 a 0,61 em 2000. A inflexão mais acentuada se dá a partir de 2000, quando a expansão econômica se dá também na India. Na sua combinação, o Gini mundial cai para 0,54 em 2009, chegando ao piso da seria iniciada em 1950.

De forma similar e paralela, a queda brasileira se dá já nos anos 2000. Depois de 30 anos de alta desigualdade inercial, o Gini começa a cair, passando de 0,6 a 0,54 em 2009. A desigualdade continua em queda, em 2010 cruza o piso de 1960 e entra no 12. Ano de queda consecutiva. “Em janeiro de 2012 o Gini atinge 0,519, caindo no ano passado a uma taxa quase duas vezes mais acelerada que dos primeiros anos da década passada.”

O descolamento entre os emergentes e os países do centro do sistema se acentua com a crise atual, em que a aplicação de políticas recessivas e seletivamente cruéis contra os mais pobres. “Os primeiros anos do início do novo milênio será conhecidos nos futuros livros de história brasileira e de história geral , como de redução da desigualdade. Em contraste com os móvitos da ocupação de ícones de riqueza americana e europeia a começar por Wall Street”, termina ele o artigo.

Tags: Economia, Política






Luis Estenssoro - 29/02/2012
Caro Pedro Castro,

Vamos por partes:

1) A desigualdade na distribuição de renda pessoal aumenta no mundo todo se considerada a população mundial como um todo. Por isso, no seu interior, as classes sociais se distanciam em termos de renda e riqueza.

2) No Brasil, ao contrário, a distribuição de renda entre os estratos sociais tem diminuído nos últimos anos, em função do crescimento "chinês" da renda nas classes baixas, graças a) ao aumento sustentado do salário mínimo (que aumenta a massa salarial), b) ao grande crescimento do microcrédito, e c) aos programas de transferência de renda (Bolsa Família).

3) Porém, o mesmo não se pode dizer da riqueza, ainda muito concentrada nas classes superiores. A distribuição da renda (fluxo de renda) tem se desconcentrado, mas a riqueza (estoque de riqueza, ativos) tem permanecido nas camadas superiores. Não tenho os dados, mas basta vermos o que acontece com a dívida pública brasileira, cujos títulos estão em poder de uma minoria, e que representa uma transferência de renda dez vezes maior do que o Bolsa Família.

4) Até agora falamos em termos de distribuição pessoal da renda e riqueza, mas podemos analisar também a distribuição funcional destas variáveis:

* o aumento da massa salarial na última década, indica um aumento do capital variável (remuneração da força de trabalho) em relação ao capital constante (estoque de capital = meios de produção).

** ou seja, além da distribuição da renda que acontece dentro do capital variável (desconcentração da renda pessoal, diminuição da desigualdade salarial, etc.), há uma diminuição da composição orgânica do capital (C/V) - onde C é o capital constante e V o capital variável. Pode parecer estranho, mas este processo tem se sustentado graças ao crescimento econômico pujante, que mantém taxas de lucro altas.

*** em outras palavras, o crescimento econômico permite que o capitalista realize o lucro (P), vendendo suas mercadorias, e mantendo a taxa de mais valia positiva (P/V), porque os seus lucros são altos e a taxa de lucro (P/C+V) continua positiva. O crescimento econômico, que transforma demandas e necessidades reprimidas em demanda efetiva, permite que, apesar da diminuição da composição orgânica do capital (C/V), a mais-valia se realize na venda de mercadorias. Assim, a taxa de mais valia (P/V) é positiva.



Penso que Rosa Luxemburgo estava certa ao ressaltar - confrontando-se com Marx - que o processo histórico de incorporação de "mercado externos" ao processo de produção capitalista garantia a expansão do sistema econômico baseado na extração de mais-valia. Como "mercados externos" se entendem as classes ou camadas sociais que passam a consumir, as compras governamentais e a conquista de mercados pelo imperialismo. A incorporação destes mercados permite que a mais-valia se realize, ao venderem-se as mercadorias que de outra forma não teriam demanda, além de garantir os lucros dos capitalistas. O sistema prolonga sua existência desta forma, apesar das tendências históricas, previstas por Marx, de diminuição da taxa de lucro e de aumento da composição orgânica de capital.



Meu palpite é este, mas se eu estiver totalmente enganado, por favor me corrijam.



Grande abraço.



Luis Estenssoro - 29/02/2012
Mais uma coisa, Emir:



O livro do Branco Milanovic, ao qual o Marcelo Neri se refere neste artigo que você cita, como ele mesmo diz, considera a desigualdade de renda entre os países, ponderados pelas suas respectivas populações, ASSUMINDO DESIGUALDADE ZERO DENTRO DE CADA PAÍS.



Ver: http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/a-maquete-do-mundo-por-marcelo-cortes-neri#more



Ora, isto apenas reflete a desigualdade ENTRE os países, que é muito alta, ponderada pela população de cada país, o que atenua um pouco esta desigualdade, uma vez que a renda per capita tem aumentado no Terceiro Mundo, em especial na China e na Índia, que têm grande população.



Sim, a desigualdade entre os países - ponderada pela população, o que dá um peso especial ao que acontece na China e Índia - tem diminuído como mostra o gráfico do artigo, em velocidade semelhante ao processo de diminuição da desigualdade interna do Brasil. São coisas diferentes com uma semelhança gráfica.



Ver: http://www.valor.com.br/sites/default/files/gn/12/02/arte28opin-101-col_op2-a15.jpg



Porém, considerando a desigualdade de RENDA PESSOAL da população mundial (entre os estratos de renda, proxy das classes sociais), e não apenas a desigualdade entre os PAÍSES, é certo que a desigualdade mundial aumenta, exatamente porque a desigualdade interna têm aumentado em quase todos os países do mundo. Inclusive na China, onde aumentou a distância social que separa a população rural da urbana. Pode-se também verificar os números da Europa, EUA, África, etc. Nestas regiões a desigualdade interna de cada país tem aumentado, a o contrário do que ocorre no Brasil - considerando uma série histórica desde os anos 1950.



Mais uma vez, os números enganam quando alteramos o período considerado ou suprimimos uma variável. No caso, Branco e Neri deixam de considerar a desigualdade interna de cada país, que reflete a má distribuição de renda entre as classes sociais.



Não há dúvida nenhuma que a desigualdade de renda e riqueza entre as classes sociais cresce cada vez mais, considerando como medida a desigualdade de renda pessoal da população do mundo inteiro,

O processo de concentração de renda e riqueza tem sido inexorável em todo o século XX e continua aumentando



Abraço.



Inês - 29/02/2012
Engraçado como se argumenta qualquer coisa a partir de estatísticas manipuláveis...agrupa aqui, joga para lá e pronto: temos o resultado que quisermos. Apesar de tantas estatísticas, sabemos também que só na crise de 2008, o mundo passou da cifra de oitocentos e oitenta milhões de pessoas morrendo de fome, para mais de um bilhão. Aliás, já devem ter morrido a essa altura,deixando outros moribundos como herança, embora se saiba que a morte pela fome seja lenta e profundamente dolorosa... ouvi falar que sente-se como se o corpo estivesse sendo perfurado por milhares de agulhas, externa e internamente. No mesmo período, empresas do setor do setor agrícola, tais como a Monsanto e do setor de distribuição de alimentos, tais como a Cargill, se beneficiaram pela especulação com suas ações na bolsa, e assim tiveram um acréscimo nos lucros de setenta por cento, sendo essa especulação, a verdadeira causa do aumento na fome.

Como o Brasil e América Latina ainda não eram muito dependentes dessas empresas e esquemas de distribuição de alimentos, não sentiram essa crise muito na pele. Mas, na Índia, por exemplo, também citada pelo Emir Sader como exemplo do sucesso das políticas de concentração de capital que magicamente estariam levando a distribuição de renda (ou de bolsa família, no caso brasileiro), mais de duzentos mil agricultores se suicidaram devido aos efeitos dessa política. Puseram fogo no próprio corpo para não ter que assistir seus filhos morrerem de fome por causa dos resultados agrícolas da Monsanto e das barreiras impostas pela OMC para que o governo indiano socorresse sua população faminta. com alimentos a preços subsidiados.

Enfim, de lá para cá, estamos chafurdando cada dia mais profundamente, sob exigências de nossos assassinos ruralistas que impõem seus direitos democráticos exclusivos sobre nosso governo, na dependência dessas empresas transnacionais para ocupação de nossas terras, cada dia mais desmatadas para favorecer esse tipo de produção, conhecida como "agronegócio" ou "agrobusiness". De onde se deduz que assim que houver novo ciclo de especulação com as ações dessas empresas... a fome vai bater na nossa porta com força, como aconteceu em 2008 no restante do mundo que já estava inserido nesse esquema. A nossa sorte por enquanto também é que essa produção se destina a exportação e não gera empregos, o que significa que a agricultura familiar vai continuar produzindo os setenta por cento dos alimentos que atualmente produz para o povo brasileiro e gerando a maior parte dos empregos que vem gerando no setor agrícola... desde que não continuam sendo despejados de suas terras para mega-projetos que favoreçam as multinacionais com energia barata e outras finalidades.


Pedro - 29/02/2012
Lula é um bom social democrata...a união do capital com o trabalho parece ter dado resultados né?


Pedro Castro - 29/02/2012
Caro Emir,

Pela pouca intimidade que tenho com o tema, mesmo nos termos em que foi colocado (desigualdade social medida pelo indice de Gini, com base na renda pessoal) resgato as considerações do Luis Estenssoro mostrando, na relação entre desigualdade entre os paises e no interior de cada um deles e levando em conta diferentes periodos, quanto os números podem enganar-nos ou direcionar nossas interpretações.

Por outro lado esta discussão agora faz-me lembrar que

no inicio dos anos 1980, assistindo um debate no

auditorio do Senado em Brasilia, em cuja mesa estavam

o ex-Presidente Lula e o ex-Senador da Republica brasileira, Saturnino Braga, este afirmou que até então as distribuições de renda ocorridas no Brasil ter-se-iam dado exclusivamente no âmbito do Capital Variavel, nunca entre o Capital Constante e o Variável. Ao lado disso, o Luis Estenssoro no momento também registra que o processo de concentração de renda e riqueza entre as classes sociais manteve-se em todo o seculo XX e continua aumentando, inclusive no Brasil.

Se é assim, salvo engano meu, a redução da desigualdade social apenas em um pais, medida por um indice restrito e em determinado período, também no caso brasileiro, apesar de confortante, não teria alterado em nada aquela tendencia fundamental registrada faz mais de 20 anos pelo Saturnino Braga naquele debate, nem a atual apontada pelo Luis Estenssoro.







Darcy Brasil Rodrigues da Silva - 28/02/2012
Bem, professor Emir Sader, este foi o último comentário que lhe envio daqui até novembro, período em que estarei empenhado em me preparar para voltar à faculdade de Medicina.Caso não o consiga, terei que voltar a trabalhar, já que sobreviver com a renda do aluguel do meu apartamento só faz algum sentido se for para retomar algo que gostaríamos de ter concluído no passado. Afinal, como vivem a me lembrar meus irmãos, foi para isso que eu pedi demissão do Banco do Brasil. Um grande abraço e longa vida ao seu blog. Lê-lo não será difícil. Só não será mais possível comparecer como comentarista, pois isto sempre implicou em acompanhar também o desenrolar dos comentários, o debate suscitado pelos seus sempre excelentes artigos, intervindo como se em uma tribuna livre estivesse. Se postassem 70 comentários, eu lia os 70. A isto chamo "espirito democrático". Um grande abraço!


Luis Estenssoro - 28/02/2012
Na verdade, a China foi um caso de sucesso na sua luta para diminuir a pobreza: mais de 270 milhões de pessoas ascenderam acima da linha de pobreza desde as reformas econômicas feitas a partir de 1978.

Porém, a desigualdade aumentou neste período. Os números enganam quando se consideram períodos diferentes. Como diz Neri, entre 1990 e 2000 a desigualdade pode ter diminuído (um pouquinho), mas é melhor tomar uma série maior do índice de Gini: se comparada com o período anterior às reformas econômicas, a desigualdade na China passou de um patamar em torno de 0,20 nos anos 1970, para um patamar de 0,30 nos anos 1990, chegando agora a um patamar de 0,40, semelhante ao dos EUA.

O problema chinês é triplo: a desigualdade de renda pessoal entre a população urbana e rural, a desigualdade de desenvolvimento entre as cidades e e o campo, e a desigualdade entre as diferentes regiões, umas mais dinâmicas porque incentivadas pelo governo por meio de zonas econômicas especiais.

Mesmo assim, a desigualdade social na China é bem menor que a desigualdade animal brasileira, em torno a 0,60 por décadas. Como diz o artigo, a boa notícia é que está diminuindo nos últimos anos, chegando a ficar menor que a média mundial (0,54) no período atual.



Alex Sander - 28/02/2012
Se, por um lado, a pobreza diminuiu em escala mundial, sobretudo, por causa da redução da pobreza em países como Indía, China e Brasil, de outro, não podemos afirmar que a desigualdade diminuiu em escala global, quando se toma como referência a desigualdade relativa, isto é, a diferença de riqueza entre os 1% ou 10% mais ricos e os 99% ou 90% mais pobres. A desigualdade diminuiu em termos absolutos, quantitativo, mas a desigualdade relativa aumentou.


Renato Nunes Rangel - 22/04/2014
Embora tenha tomado conhecimento de todos esses comentários depois de tanto tempo, mesmo tendo notado que alguns apresentam saber técnico, vou me arriscar a fazer algumas ponderações. Soube há muito tempo que o índice de Gini mede a desigualdade na distribuição da renda e sempre me contentei com o mesmo, porém, instigado pelos comentários apontados, resolvi melhor me esclarecer e fiquei chocado quando ao encontrar uma publicação, na Internet, com dados do Banco Mundial. Observei que quando dado em porcentagem, o referido índice apresenta números como os que seguem: (2008) Afeganistão 27,8; México 48,3; (2006) Burundi 33,3; Venezuela 44,8; (2009/2010) Brasil 54,7; Mali 33,0.

Portanto, certas comparações que se vê por aí são distorcidas, no que tange a esse índice. Acredito que a sua comparação passa a ter maior significado, apenas quando se trata do mesmo país em momentos distintos.


José Osivan Barbosa de Lima - 03/03/2012
O maior problema no Brasil é a péssima distribuição salarial. Enquanto tem alguns ganhando 20, 30, 40, 50, 60 salários mínimos tem muita gente ganhando o salário mínimo ou menos ainda. Por que acontece isso? Porque os sindicatos e as centrais sindicais defendem as pessoas da classe média, o congresso nacional defende os interesses das elites ou da classe média. E os pobres quem defende? Ninguém, só o governo federal quando tem compaixão. Prova disso 14 % de reajuste para o salário mínimo e 22,22 % para os professores que já estão na classe média C.


Leandro Leal - 02/03/2012
Olá professor Emir.

Procurei uma maneira de entrar em contato com a equipe da carta maior, mas não encontrei. Então, estou utilizando este espaço, que mesmo inapropriado, tenho a esperança de que cumprirá com o objetivo.

Por todo o Brasil as tarifas dos transportes públicos vêm aumentando acima da taxa dos juros. No Rio de Janeiro o problema se mostra ainda mais grave, onde nós temos o metrô mais caro do Brasil com um serviço que dá nojo de tão desumano. As empresas de ônibus oferecem veículos de uma qualidade cada vez pior, e onde as pessoas se amontoam por longas horas no caótico trânsito da cidade. E além disso, agora a empresa barcas s/a (que é representada legalmente pelo escritória de advocacia da esposa do governador Sérgio Cabral, Adriana Ancelmo Cabral) impõe um aumento escandaloso de mais de 60% elevando o valor da tarifa de 2,80 para injustificáveis 4,50, tendo em vista a piora no serviço oferecido, constaando inclusive o fim das viagens durante a madrugada. A população tem se mobilizado de várias formas, especialmente no caso do aumento das barcas. Grupos de estudantes da UFF e de cidadãos indignados se unem para realizar manifestações PACÍFICAS sob os olhares mais do que atentos da Tropa de Choque. Gostaria de pedir encarecidamente que desse espaço para este tema, que é tão atual e que influi tanto na vida do cidadão carioca. Os veículos tradicionais não fazem cobertura o que dirá de uma análisa profunda da questão. Confio na equipe da Carta Maior e em sua idoneidade. Espero que meu apelo seja ouvido e atendido.



Um abraço apertado de um grande admirador.


Marcos Antonio - 02/03/2012
Valeu professor Emir!


flavio - 01/03/2012
Em 2002 quando FHC entregou o governo para o PT o Brasil ocupava o sexto lugar entre os piores do mundo no quezito desigualdade social. Hoje com o PT é o terceiro. Como entender esta contradição entre o que aparenta ser e o que tudo indica é.


Luis Estenssoro - 01/03/2012
Caro Pedro,

Excelentes perguntas.

Não tenho respostas para seus questionamentos, mas vou procurar estudar e pesquisar a respeito, pois muito me interessaram. Para começar, vou ler os Grundisse, que acabei de comprar na sua recente edição brasileira.



Contudo, gostaria de fazer apenas um comentário sobre o que você disse: tanto a especulação nas bolsas de valores, quanto o mercado de títulos da dívida pública e sua securitização, que constituem apenas parte do processo de financeirização do capitalismo, fazem parte da esfera da circulação, como você mesmo afirmou, e não da produção, nem da distribuição de mercadorias.

Porém, é necessário ressaltar que o capital produtivo, o capital comercial e o capital financeiro são uma unidade só: o capital. As conexões, ligações e associações entre estas três partes do capital não permitem que nos esqueçamos que estamos falando de uma "entidade" apenas.

A minha impressão é que as discussões sobre trabalho produtivo/improdutivo não conseguem apagar esta realidade.

Escrevi um texto, antes da crise de 2008, no qual dou alguns chutes a respeito desta entidade dominante do nosso sistema econômico na sua forma de capital-dinheiro.



http://pt.scribd.com/doc/47317469/Globalizacao-Financeira-e-Capital-Dinheiro-Luis-Estenssoro



Se quiser ler, pode criticar à vontade. Mas aviso que este texto já teve parecer negativo na Revista Espaço Acadêmico (REA), em 2007, pois o parecerista entendeu que eu estava viajando na maionese.



Abraço.


Pedro Castro - 01/03/2012
Caro Luis Estenssoro,

Grato por sua atenção e seus esclarecimentos em torno do meu comentario ao valioso texto do Emir Sader, confirmadores da maior complexidade desta questão da "desigualdade social" particularmente nas sociedades capitalistas.

Fiquei apenas com 3 duvidas a partir de seus prestimosos comentarios, a saber:

a) até que ponto a desigualdade de renda pessoal referida a alterações da distribuição em razão do aumento do salario minimo, do microcredito e da Bolsa Familia dá conta de outras distribuições referidas a politicas sociais gerais, afirmativas e compensatorias, notadamente as de serviços como saude, educação, habitação etc.;

b) até que ponto a distribuição da renda por "estratos" sociais dá conta desta e da riqueza em relação às "classes" sociais , já que se trata de coisas distintas;

c) até que ponto, além do crescimento econômico, as alterações de magnitude do capital constante (C) e variavel (V) , no tempo e no espaço (mundial, nacional e regional) na sociedade capitalista, estão também determinadas e/ou condicionadas pela especulação nas Bolsas de que fala a Inês, em seu comentario ao texto do Emir ou, em outro exemplo, nos titulos da divida publica, ao ponto de influenciar as mudanças nas relações entre P/V, P/C+V e C /V. Neste caso inspiro-me em duas perguntas de Marx, nos Grundrisse:

1 - as relações de produção existentes e suas correspondentes de distribuição podem ser revolucionadas pela mudança no instrumento de circulação - na organização da circulação?

2 - um tal transformação da circulação pode ser implementada sem tocar nas relações de produção existentes e nas relações sociais nela baseadas?


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