Sábado, 28 de Maio

25/04/2012 - Copyleft

O Uruguai, por Eduardo Galeano

por Emir Sader em 25/04/2012 às 23:07



Emir Sader

Até um certo momento o Uruguai só era mencionado no Brasil por duas coisas: ricos iam se divorciar e/ou casar e ter lua-de-mel em Punta del Este e pela derrota no fatídico dia 16 de julho de 1950 para a seleção Uruguai no Maracanã, de virada, na Copa do Mundo feita para o Brasil ser campeão. Alguns haviam passado por Montevidéu e diziam que ficava a meio caminho entre Porto Alegre e Buenos Aires.

“Os uruguaios temos certa tendência a crer que nosso país existe, embora o mundo não o perceba”, diz Galeano. “Os grandes meios de comunicação, aqueles que têm influência universal, jamais mencionam esta nação pequenina e perdida ao sul do mapa.”

Um país de poucos milhões de habitantes que, como diz ele, tem população similar a alguns bairros das grandes cidades do mundo, mas que provocaria algumas surpresas para quem se arriscasse a chegar por ali.

Um país que aboliu os castigos corporais nas escolas 120 anos antes da Grã-Bretanha. O Uruguai adotou a jornada de trabalho de oito horas um ano antes dos Estados Unidos e quatro anos antes da França. Teve lei do divórcio setenta anos antes da Espanha e voto feminino quatorze anos antes da França.

O Uruguai teve proporcionalmente o maior exílio durante a ditadura militar, em comparação com sua população. Assim, tem cinco vezes mais terra do que a Holanda e cinco vezes menos habitantes. Tem mais terra cultivável que o Japão e uma população quarenta vezes menor.

O país ficou relegado a uma população escassa e envelhecida. Tristemente Galeano diz que “poucas crianças nascem, nas ruas vêem-se mais cadeiras de rodas do que carrinhos de nenês”.

Ainda assim, Galeano consigna bons motivos para gostar do seu país: “Durante a ditadura militar, não houve no Uruguai nem um só intelectual importante, nem um só cientista relevante, nem um só artista representativo, único que fosse, disposto a aplaudir os mandões. E nos tempos que correm, já na democracia, o Uruguai foi o único país do mundo que derrotou as privatizações em consulta popular: no plebiscito de fins de 92, 72% dos uruguaios decidiram que os serviços essenciais continuaram sendo públicos. A notícia não mereceu sequer uma linha na imprensa mundial, embora se constituísse numa insólita prova de senso comum.” Talvez por esses “maus exemplos” tentam desconhecer o Uruguai, apesar da insistência dos uruguaios de afirmar que seu país existe.

Por tudo isso, Galeno se orgulha do seu “paisito”, “este paradoxal país onde nasci e tornaria a nascer”.

Tags: Internacional





Piragibe Silva Borges - 30/04/2012
Ótimo, Emir. Pela sua escrita, a descrição da República Riograndense que todos nós gaúchos aspiramos. Orgulho de compartilhar fronteira com irmão tão independente e soberano. E você me deixou uma vontade imensa de visitar esse país do orgulhoso Mojica.


Dario - 28/04/2012
Sou uruguaio naturalizado brasileiro. Sinto um são orgulho pelas coisas boas que o "paisito" tem produzido, entre elas, intelectuais como Eduardo Galeano.

Os valores democráticos e até esse pessimismo masoquista que nos caracteriza como povo, mistura de autocrítica e complexo de inferioridade, produto, creio eu, da eterna diáspora que nos fez pensar por décadas em um país amaldiçoado, feito para poucos, que só exportava gente, além de carne, lã e lácteos.

Porém os tempos mudaram. Percebo o renascer do orgulho nacional uruguaio após dois períodos de governo de esquerda, sem que haja sido perdida essa consciência latino-americanista que sempre esteve no DNA da maioria dos intelectuais do país.

Nesse pequeno território em forma de coração, flutuando entre o Atlántico e o Prata, quase como um apéndice entre dois gigantes, o Brasil e a Argentina, é provável que algo reste ainda daquela acaso fabulosa e etnocentrista "Suiça da América".

Como autoafirmação da nossa identidade sulamericana subscrevo as palavras Mário Benedetti: "Aquí abajo, abajo, cerca de las raíces/ es donde la memoria ningún recuerdo omite/ y hay quienes se desmueren/ y hay quienes se desviven/ y así entre todos logran,/ lo que era un imposible/ que todo el mundo sepa/ que el Sur también existe".


lucia thimoteo - 27/04/2012
Este ano pela primeira vez fomos conhecer um país de Latino América. Ficamos em dúvida entre Uruguai e Argentina. Decidimos pelo Uruguai pela fama de povo acolhedor e deixamos a Argentina de lado pela sua fama de povo arrogante. Não erramos na escolha. Comemos muita carne e chorizo e morri de inveja do calçadão que margeia o Rio da Prata, onde caminhamos por horas, belíssimo! Nem o calçadão da Praia de Ipanema no Rio é tão belo.Queria aquela orla bem cuidada e aquele calçadão aqui em Porto Alegre. E isto sem falar no Galeano que "nos ayuda a mirar el mar" más distante.


Celina Aparecida Simões - 27/04/2012
Galeano, galeano.



O "paisito" tem muito que ensinar a muitos "paisão". Sair do senso comum é tarefa quase que impossível para quem não quer ver.



Abraços,



Jorge - 27/04/2012
Em termos de democracia, segurança e baixa corrupção o Uruguai supera de longe os demais países Sul-Americanos. Sem dúvida alguma.


Liana Tubino de Souza - 27/04/2012
Eu que nasci na fronteira com o Uruguai, ou melhor dizendo do outro lado da rua, não posso deixar de me sentir um pouco "castelhana" e com muito orgulho. (Rivera/Livramento)


Marcos Antonio - 26/04/2012
Agora me deu vontade de conhecer o Uruguai professor Emir. Estamos totalmente por fora do que acontece nos países vizinhos graças a grande mídia golpista!


Elisabete Otero - 26/04/2012
Considero o Uruguay um país muito agradável para se visitar,comprar muitos livros não só do Galeano como do Mario Benedetti ( que saudade já se sente !) caminhar muito pela bela Montevideo, aproveitar a deliciosa comida, das media-lunas até as carnes. Sempre vale a pena ir ao Uruguay, porque é tão organizado e bonito, que a gente se sente muito bem.


Randal - 26/04/2012
Alem do Galeano eh a terra do Grande Lautreamont.


Rosalina Tavares Izento - 26/04/2012
O querido Galeano verbaliza que o Uruguai só era mencionado no Brasil " até certo momento" por duas situações: ricos que ia se casar e/ou se divorciar e ter lua de mel em Punta. Mas, eu tb ouvia outra, inclusive no meio acadêmico, que o ouro vendido no Uruguai era mais barato lá porque saia do Brasil de forma ilegal. Eu então, ficava indignada. E eu ainda dizia que não gostaria de conhecer um País ladrão. No entanto, depois que passei a ler as obras de Galeano e do Sader,tenho vontade de passar uns dias lá. Que coisa hein? Um abraço. Rosalina Izento


Raimundo W. S. Melo - 26/04/2012
A República Oriental do Uruguai e seu povo tem o respeito e a admiração de seus pares latinoamericanos, que hoje compartem, conjuntamente, os mesmos ideais e as mesmas lutas.

Muito em breve, como muitos outros países de Nossa América, tende também a ser notícia internacional, não por coisas positivas como as citadas no texto, mas pelo risco de sua postura independente coloca-la na alça de mira da desqualificação midiática internacional, que atinge vários vizinhos.


Vanise Rezende - 26/04/2012
A grandeza de Eduarto Galeano - em um tempo tão econômico em humanidade, dignidade e sensibilidade - por ela só já engrandece o seu "paesito" e a nossa história! Nos seus livros degusto o real, o histórico, a poesia e a prosa do que há de mais nosso, de beleza e de indignação... e, ainda, a extraordinária criatividade do povo sul-americano. OBRIGADA GALEANO! Que o Blog do Emir nos traga mais do que você escreve!


Jean Pierre Chauvin - 26/04/2012
Eduardo Galeano é um pensador absolutamente necessário para nossa auto-estima latino-americana. "As veias abertas da AL" são uma obra monumental que ele escreveu aos 30 anos. Além do seu notável conhecimento de história; da lúcida visão que tem das coisas; ainda há esta humanidade, que nele sobeja, por faltar nos outros.


Moacyr Pinto da Silva - 26/04/2012
Engraçado,



Se os uruguaios sofressem da "síndrome de cachorro magro" que grande parte de nós brasileiros, especialmente os "paulistas brancos" leitores da Veja e FSP e os "analistas" da Rede Globo, , entre outros, que adoram meter o pau no Brasil e nos brasileiros, sempre comparando com os bons exemplos vindos do Japâo, EUA e Europa (países civilizados) aí o país do nosso querido Eduardo Galeano já teria mesmo sucumbido!





Paulo de Assis Bergman - 26/04/2012
Des. Robinson:

Para ti, que és um degustador desse "paisito" chamado Uruguai.

Abraço,

Bergman.


David - 26/04/2012
Por tudo isso, a América se orgulha do seu “Galeano”.


Raimundo W. S. Melo - 26/04/2012
Principalmente, terra de José Artigas: "Nada podemos esperar si no es de nosotros mismos",


Carlos Henrique - 26/04/2012
Este ano conheci o Uruguai. A minha sugestão para quem quer conhecer a América Latina é que comece por este lindo país de bolso que está entre os vinte mais democráticos do mundo. Montevideo é tranqüila e agradabilíssima, seu povo é acolhedor e educado, seus restaurantes são excelentes e servem a melhor carne da América Latina. Pocitos, um dos bairros mais charmosos da cidade, lembra o Rio da década de 50 pela beleza e tranquilidade de suas praias que, em janeiro, os banhistas ficam até às 20 horas quando ainda tem alguma luz do sol. Gostei tanto que tenho vontade de voltar por lá e conhecer todo o país.

Eduardo Galeano está certo ao dizer que nasceria lá novamente.



Fernando Busquez de Almeida Junior - 26/04/2012
Emir Sader! Por que você virou um cara defensor do PT? Por que você deixou de ser de esquerda?


Adilson - 26/04/2012
Além de ser um país com lugares encantadores - dos cafés de Montevidéu, ao cheirinho de lenha nas tardes de Rivera, passando pelas ruas estreitas e floridas de Sacramento - e de ter um povo cidadão, educado e acolhedor, o Uruguai nos brindou com figuras como o grande poeta, escritor e ser humano, Edurardo Galeano.



Ah, e aqui no Brasil , mais especificamente, no meu Botafogo, tem um "tal de" Loco Abreu, conhecido por jogar da msam maneira com a bola e com as palavras e que, vez por outra, leva a velha mídia a loucura!



veja só:



http://advivo.com.br/blog/luisnassif/loco-abreu-e-o-jornalismo-de-confusao





Luiz Carlos - 14/05/2012
Grande no futebol, na democracia, na intelectualidade etc... O Uruguai não é "paisito". É "paisão".


Ezequiel Neto - 14/02/2013
Em Julho de 2000 fiz minha primeira viagem de férias ao Uruguai passando pela fronteira sul (Chui). Foi paixão à primeira vista e de lá para cá já contabilizo 25 viagens (pelo menos 2 por ano - Janeiro e Julho). Conheci lugares e reví outros que me deixaram saudades. Me tornei uma criatura híbrida: metade brasileiro metade uruguaio. Amo esse País pequenino em território mas enorme em hospitalidade, amizade e solidariedade, marcas registradas do seu amável povo. Que Julho chegue logo...Já preparo o Azulão, meu velho Motorhome para romper as Rutas uruguaias e matar a saudade...Um abraço a todos os que, como eu, se apaixonaram por esse País "hermoso"...


José Ricardo - 05/07/2013
En ese momento Brasil y Uruguay han llegado a un acuerdo para eliminar los límites a partir de 2014, no podía ser un referéndum pidiendo al pueblo uruguayo por su opinión de una posible unión entre Brasil y Uruguay, y Uruguay se convierte en un estado Federados (autónoma) de Brasil, con todos los derechos políticos y económicos que otros estados de Brasil tienen o deciden de una vez por su independencia final de tiempo con esta pregunta?



Referéndum sobre este tema ahora!


gilberto fernandes - 02/11/2012
ola ,a cada dia fico mais apaixonado pelo uruguai ,o qual ainda nao conheço,mas pretendo e tbm em morari,gostaria de ter contato com pessoas dai para me orientar de como viver ai moradia ,etc.. aguardo . grato

gil


Carlos Alberto Potoko - 01/05/2012
O Uruguay, com o equivalente a dois terços do Rio Grande do Sul, 180.000 quilômetros quadrados, parece um desses milagres pouco explicáveis da geopolítica. O fato de haver resistido às pretensões expansionistas de dois vizinhos poderosos - Argentina e Brasil - exige algo mais que meras explicações casuísticas. Privilegiado por águas profundas do seu porto, enquanto a Argentina e o Rio Grande eram um cemitério de navios pelo baixo calado, eles concentraram no porto deles os negócios da navegação marítima para toda a região do prata, além do mais, interessava a diplomacia britânica, sua madrinha da independência, a existência de um Estado-tampão entre Brasil Argentina.


FRANSUÊLDO VIEIRA DE ARAÚJO - 01/05/2012
Edaurdo Galwenao de há muito, é a sintese de um uruguai com alto estima, independência e humanismo político, que, necessariamente deve servir de exemplo à toda america latina.





UM ABRAÇO



FRANSUÊLDO VIEIRA DE ARAÚJO.

OAB/RN. 7318.

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