Sábado, 19 de Agosto

24/11/2013 - Copyleft

O poder e o caráter (Fenomenologia de um burocrata)

Lenin gostava de repetir que o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente. Corrompe material e espiritualmente.

por Emir Sader em 24/11/2013 às 22:45



Emir Sader


A afirmação:  “Quer conhecer uma pessoa? Dá-lhe poder, para ver a força do seu caráter” vale para entender comportamentos na esfera da política nacional, mas também em outros marcos institucionais.

Gente que pregou sempre a socialização do poder, as direções coletivas, a construção de consensos mediante a discussão democrática e a persuasão, criticou sempre a violência verbal, a ofensa, o maltrato às pessoas – de repente vê um cargo de poder cair no seu colo,  revela falta de caráter, renega tudo o que aparentemente defendia, se encanta pelo poder e se torna um déspota.

O poder lhes sobe à cabeça e lhes invade a alma. Todas as frustrações e os complexos de inferioridade acumulados por não ter méritos para um protagonismo de primeiro plano, de repente irrompem sob a forma da prepotência, da arbitrariedade, da concentração brutal do poder, de mal trato das pessoas, do  uso do poder das formas mais arbitrarias possíveis.

Tem gente que se humaniza ainda mais quando assume funções públicas, aumenta sua modéstia, suas formas humanas de relação com as pessoas. Tem outras em quem o poder bota pra fora o que de pior estavam acumulando. Se transtornam, tornam-se monstros, que acreditam que o poder é um porrete, de que fazem uso a torto e a direito, contra todos.

Não conseguem conviver com pessoas que acreditam que lhes fazem sombra. Tem complexo de inferioridade, então acreditam que os outros o desprezam, não o levam a sério, não lhe reconhecem os méritos que acreditam ter.

Tem uma visão instrumental do poder, tanto assim que se desesperam quando se defrontam com pessoas que tem seu poder na moral, na legitimidade política, na capacidade intelectual – de que eles não dispõem - que não se vergam diante de ameaças, diante do poder do decreto, da arbitrariedade. Diante dessas pessoas, perdem o equilíbrio, se sentem pequenos, impotentes, desprezados.

Não conseguem conviver com a diferença. Diante de divergências, buscam fazer com que desemboquem na ruptura, valendo-se do poder formal dos decretos, das punições, da exigência de retratações formais. Não tem estrutura psicológica para conviver com as diferenças, para buscar coesão entre diferentes. Logo descambam para a violência, verbal e dos decretos.

Usam os espaços institucionais que detêm como se fossem propriedade sua, dispõem das pessoas, das coisas, dos recursos, como se fossem patrimônio pessoal. Fazem do cargo que tem, uma propriedade pessoal, desqualificando completamente o caráter publico que a instituição deveria ter.

Como sabem que tem um poder ocasional, pequeno, vivem depressivos, buscam esconder-se através de falsas euforias, mas que lhes tiram o sono, a calma.
Tratam mal  a todos a seu redor, fazem deles submissos, em lugar de ajudá-los a desabrochar, como outros lhe permitiram sair do anonimato e galgar posições.
Vivem cercados de subalternos, cinzentos, temerosos. Todos acumulando rancor e ódio contra ele, sonhando todo dia com a sua morte, a sua desaparição mágica e súbita. Sonham que ele desapareça, tanto o rancor e a humilhação que acumulam e sofrem. Ninguém gosta desse tipo de gente, o temem, o odeiam, o desprezam caladamente.

É uma gente medíocre, mas que tem uma ânsia profunda do poder. Como é profundamente inseguro, precisa da adulação, por isso vive e nomeia incondicionais para cercá-lo. De quem cobra palavras de adulação a cada tanto.
Como compensação do complexo de inferioridade que tem.

Alimentam o acesso ao poder durante 10, 20 anos. Quando chegam, se afogam com o poder, o transformam em poder absoluto. Quando deviam se realizar, se frustram, ficam menores, deprimidos, precocemente decadentes. O que deveria ser o ápice, é o fim.

Fazem o teatro de um suposto desapego ao poder, de dedicação não sei quantas horas ao dia às tarefas mais duras – e cinzentas -, mas se apegam ao poder como sua alma. Já não podem viver sem ele e suas prebendas.

Quando vai terminando o tempo desse poder, ficam desesperados, porque não conseguem mais viver sem esse poder, sem se dar conta que esse poderzinho é uma porcaria, um nada. E porque todos fora dali, que não dependem dele, lhe tem um imensa e generalizada rejeição, que é o que o espera quando não possa mais se proteger com as prebendas do poderzinho que tem hoje. Vão ser reduzidos às suas devidas proporções, de mediocridade e anonimato.

Porque o poder forte é o poder legítimo, fundado no convencimento, na ética, no reconhecimento livre dos outros, que ele não conhece. Porque esse tipo  de burocrata tem uma visão pré-gramsciana, acha que o poder é a violência, a força, a prepotência. Que pode levá-lo pra casa no bolso ou debaixo do braço.

Pobres diabos, devorados irreversivelmente pela mediocridade, pelas mentiras com que tentam sobreviver – mentem, mentem, mentem, desesperadamente -, em guerra contra os outros e em guerra consigo mesmos.

Lenin gostava de repetir que “O poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente”. Corrompe material e espiritualmente.

Esses burocratas, corrompidos pelo poder, são discricionários, prepotentes, cobram dos outros, mas não permitem que cobrem dele. Cobram economia alheia, contanto que ninguém cobre seus desperdícios. Não agem com transparência, escondem seus passos e suas intenções.

Não amam, não sabem amar, nunca amaram. Gostam de si, tentam sobreviver, mal e mal, sem amor.

Reduzem tudo ao administrativo, porque não sabem pensar, tem terror a ter que se enfrentar a uma realidade que tivessem que decifrar, a argumentos que desnudassem sua falta de razões, suas arbitrariedades. Não sabem argumentar, não conseguem justificar as decisões absurdas que tomam, então vivem no isolamento, e no pequeno circulo cinzento dos que dependem dele. Fogem da discussão, da confrontação de argumentos, que é o que mais temem. Tentam reduzir tudo a prazos, normas, estatutos, punições, ameaças, promoções, expulsões. São burocratas perfeitos, idiotizados pela ativismo, que não podem parar, senão teriam que pensar e isso é fatal para eles.

Eles não entendem onde se meteram, deglutidos pela atividade meio – seu habitat, como burocratas que são, por natureza – não compreendem o que fazem, até mesmo porque é incompreensível, reduzidos às cascas formais de um conteúdo que lhes escapa, porque sua cabeça obtusa não lhes permite captar o que os rodeia, que eles pretendem aprisionar mediante decretos.

Se desumanizam totalmente pelo exercício frio da administração, que  creem  que é poder. São solitários, vivem fechados, os amigos se distanciam, perdem a confiança neles primeiro, o respeito depois.

Pensam que dominam tudo, com seus cronogramas e convênios, mas não controlam nada. Tudo acontece a seu redor, sem que eles saibam. Vivem num mundo vazio, que não podem parar, para não se dar conta que é vazio. Pulam no abismo para seu fim.

Não conseguem pensar-se a si mesmo sem esse poderzinho. Tentam perpetuar-se, pela inércia, porque fora desse lugar não são nada. Ali também não são nada, mas se enganam, se iludem, que são. Apodrecem no exercício das funções burocráticas e ai morrem.

São personagens que terminam como o canalha do Nelson Rodrigues: solitários, sem ninguém, agarrados ao único que lhe resta: a caneta e escrivaninha.

Os burocratas morrem em vida, afogados pela sua mediocridade. Passam pelo cargos sem pena, nem glória, esquecidos e desprezados por todos. Saem menores do que entraram. Se dão conta aí que já não serão nada na vida.

Essa a vida e a morte dos burocratas. A vida segue, feliz, sem eles.

Tags: Política





Jorge Oliveira - 28/11/2013
Texto onde vários parágrafos se referem às mesmas coisas: Vícios de Poder.

Parece mais uma grande (tardia?) decepção ! Ou não se referia aos companheiros no poder ?


Marcia Eloy - 28/11/2013
Quem conhece alguma coisa de História sabe que existiram vários déspotas, com exceção de Hittler, que foi muito recente, a maioria foi esquecida. Quem se lembra dos juízes que participaram do julgamento de Tiradentes? Quem se lembra dos doutores da lei em Israel que condenaram Jesus a Crucificação? Mas quase todo mundo pensante sabe quem foi Gandhi, Mandela, Luther King. Logo Prof. Emir, os cães ladram, mas a caravana passa....


Zenio Silva - 27/11/2013
BRILHANTE!

O JB é só o emblema da atualidade desse tipo de gente pequena, medíocre e infeliz que nos infelicitam toda a Nação.

Durante a leitura , passou-me pela mente inúmeros outros desses "..tios que mortas não fazem falta"? Carne dada aos vermes em vida ainda...


Jaime Brasil - 27/11/2013
Eu sempre digo aos amigos da "velha guarda", que a revolução também tem que ser "psicanalítica". Genial o texto.


Jorge Picanco de Figueiredo - 26/11/2013
Este texto é uma catarse. Parabéns Emir por portar a voz de uma massa indignada.


Pablo de Lucas - 26/11/2013
Caro Emir,

O seu texto pegou no cerne da questão. Esse tipo impregna várias instâncias da vida social. É lamentável o estrago que são capazes de disseminar. E isso se dá pela omissão de muitos, pela anuência dos silentes. Isto me lembra os versos de Eduardo Alves da Costa - No Caminho com Maiakóvski. Um abraço. Pablo de Lucas.


FRANCISCO CEZAR DE LUCA PUCCI - 26/11/2013
Brilhante análise. Vale para muitos, à direita (JB, em quem você pensou) e à esquerda (no PT, infelizmente, muitos).


Ronald de Arantes Lobato - 26/11/2013
Por todos estes motivos os partidos de esquerda que apoiam o governo não pode ser leniente com estes desvios e nem ter política de combate a eles, além da criação da transparência e da Controladoria


Maria de Fátima Lessa Matos - 26/11/2013
Ao terminar a leitura meus olhos estavam marejados. Realmente, esse texto é o grito de indignação dos brasileiros. O mais triste de tudo é o silêncio de quem deveria gritar contra tiranos "zé ninguéns"...



Ermenegyldo Munhoz Junior - 26/11/2013
Fenomenologia de um burocrata.


Piragibe Silva Borges - 25/11/2013
Uma dissecação de personalidades medíocres, lista imensa de déspotas, covardes e torturadores.


Eurico Zimbres - 25/11/2013
Meu caro Emir, ao escrever isto você pensou em alguém em particular? Na UERJ está cheio, você nãio acha? Você deve conhecer a obra prima do Reich: "escuta zé ninguém". Pensou nela também? Descartes dizia que o bom senso é a coisa mais bem repartida no mundo. Pois estes zé ninguens sáo como o " bom senso". Pululam aos montes e emporcalham nossa existência. Vida longa aos contrários, eles nos permitem ver nossa verdadeira imagem. Aos áulicos eu só posso repetir um verso do cancioneiro gaucho: "tipos que mortos não fazem falta".


Marco Aurélio Déda Oliveira - 25/11/2013
Beleza de texto Emir. Vou guardá-lo comigo porque ele é atemporal e genérico. Como diria Platão, importa-se com a essência humana. Todavia, nestes dias tenebrosos, você poderia muito bem ter feito a dedicatória dele.


ALDENÔRA NASCIMENTO MORAES - 25/11/2013
Tantos nomes se passaram por minha mente Emir, enquanto lia seu artigo, menos o meu mesmo, é claro... Rsrsrs. Mas, uns três ou quatro se sobressaíram. Voltarei a lê-lo muitas vezes, para entendê-lo melhor.


apolinario pereira - 04/12/2013
como sempre bem analisado o seu texto e disse muito bem, nem todas as pessoas estao preparadas para o poder, uns fracos e mediocres sob logo a cabeça e pensa logo que é dono de tudo, um exemplo classico esa aí com o sr barbosao(o idi amin dada do brasil) o ditador do judiciario", veremos como sera seu fim que com certeza sera pior do que o ditador "IDI AMIN DADA" verdadeiro.

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