Terça-Feira, 25 de Julho

08/06/2014 - Copyleft

Quem tem medo da participação popular?

Quem tem medo da participação popular é quem consegue neutralizar o poder da democracia mediante sua perversão pelo poder do dinheiro, do monopólio da mídia.

por Emir Sader em 08/06/2014 às 11:49



Emir Sader


A proposta do governo da formação de Comitês de Participação Popular foi seguida por editoriais furibundos da mídia, como se se estivesse atentando contra os fundamentos essenciais da democracia brasileira. Os mesmos editoriais e colunistas que passam todos os dias desqualificando os políticos e a política, o Congresso e os governos, reagem dessa forma quando se busca novas formas de participação da cidadania.

O que está em jogo, para eles, é o formalismo da democracia liberal, aquela que reserva para o povo apenas o direito de escolher, a cada dois ou quatro, quem vai governá-los. É uma forma de representação constituída como cheques em branco pelo voto, sem que os votantes tenham nenhum poder de controle sobre os eleitos,  no máximo puni-los nas eleições seguintes. Um fosso enorme se constitui entre governantes e governados, que desgasta aceleradamente os órgãos de representação política. Cada vez menos a sociedade se vê representada nos parlamentos que ela mesma escolheu, com seu voto.

Acontece que as formas atuais de representação política colocam, entre os indivíduos, a sociedade realmente existente, e seus representantes, o poder do dinheiro, mediante os financiamentos privados de campanha. Grande parte dos políticos são eleitos já com a missão de representar os interesses dos que financiaram suas campanhas.

Criou-se assim um círculo vicioso: processos viciados de eleição de políticos já nascem desmoralizados. A direita adora porque é fácil desgastá-los. E política, governos, Estados fracos, significa mercados fortes, onde reina diretamente o poder do dinheiro.

Os Conselhos de Participação Popular são formas de resgatar e fortalecer a democracia e não de enfraquecê-la. Toda forma de consulta popular fortalece a democracia, dá mais consistência às decisões dos governos, permite ao povo se pronunciar não somente através do processo eleitoral, mas mediante seus pronunciamentos sobre medidas concretas dos governos.

Quem tem medo da participação popular é quem consegue neutralizar o poder da democracia mediante sua perversão pelo poder do dinheiro, do monopólio privado e manipulador da mídia. Tem medo os que se apropriam dos partidos como máquinas eleitorais e de chantagem política para obtenção de cargos, de favores e de benefícios.

O povo não tem nada a temer. Tem que se preocupar que esses Conselhos sejam eleitos da forma mais democrática e pluralista possível. Que consigam a participação daqueles que não encontram formas de se pronunciar pelos métodos tradicionais e desgastados da velha política. Especialmente daquela massa emergente, dos milhões beneficiados pelas políticas sociais do governo, mas que não encontram formas de defendê-las, de lutar por seus interesses, de resistir aos que tentam retorno a um passado de miséria e de frustração.

Só tem medo da participação popular quem tem medo do povo, da democracia, das transformações econômicas, sociais e políticas que o Brasil iniciou e que requerem grande mobilizacoes organizadas do povo para poder enfrentar os interesses dos que se veem despojados do seu poder de mandar no Brasil e bloquear a construção da democracia política que necessitamos.

Tags: Política





Paulo Pereira Orama - 23/06/2014
Esses conselhos são dominados e manipulados pela esquerda, não dando qualquer chance da parte contrária vencer qualquer discussão alí inserida. Tal qual sindicatos, MST, MTST. Toda discussão será manipulada e ganha pela esquerda. Quando perde apela para as cortes internacionais etc.. Mas ainda assim temos outras situações onde se comprovou e os partidos de esquerda acostumados a esse tipo de consulta popular (bases) sabem muito bem que isso na prática não funciona. Nenhum partido de esquerda no poder voltou a consultar suas bases (conselhos populares para qualquer questão que seja, porque não funciona) E por fim, esses conselhos serão a implantação da "ditadura" popular, tal qual ocorre em Cuba, Venezuela. Onde o ditador impõe suas idéias e a população referenda sempre a mais de 50 anos. E alguém que ouse manifestar opinião contrária pra ver o que acontece.


Doney Corteletti Stinguel - 13/06/2014
Na verdade, se há a necessidade da criação desses conselhos é justamente porque o PT não possui mais em suas fileiras as composições das massas que representam a sociedade civil - o que é o pior fracasso que pode se abater sobre um partido de esquerda.

Um partido ressequido, aburguesado, distanciado das massas, velho, não consegue mais absorver em seus debates internos a plenitude da sociedade. Então a bola passa para o governo (no que pode ser uma tentativa de escutar ou de cooptar estas lideranças), abdica de sua responsabilidade por conta de toda a pesadíssima estrutura burocrática que ostenta.

Aliás, esta burocracia petista não difere em nada de todas as outras: visa tão somente sua própria perpetuação, e não o benefício de qualquer causa que seja.



Mesmo que tudo dê certo quanto a esses conselhos, me parece que ainda esta tudo errado.


Edu Montesanti - 13/06/2014
Deve morrer de medo aquele politiqueiro demagogo que, por exemplo, xinga sem-teto de vira-latas para blindar os de seu partido... não??!!


João Batista Kreuch - 12/06/2014
Análise muito útil, pois ajuda a entender o que está por trás dessa rejeição, relutância, e resistência irada aos conselhos populares. É mesmo estranho que em junho passado se alardeava que "é preciso ouvir o clamor das ruas"... mas quando o governo cria mecanismos exatamente para ouvir esses clamores, os "donos" das opiniões querem monopolizar a palavra alegando que isso é antidemocrático? anticonstitucional? É o máximo grau de cinismo tentando manter o povo distante da política e dos rumos da nação!


José de Oliveira Luiz - 11/06/2014
Quem não teve medo não terá vergonha de ser feliz.


roberto danunzio - 10/06/2014
Tudo ótimo, desde que esses órgãos representativos não sejam aparelhados pelo PT ou cooptados como foram as grandes centrais sindicais, um golpe mortal ao movimento sindical independente e combativo, uma herança maldita dos governos federais do PT que levaremos outras duas décadas para ultrapassar. Outra praga é a do jornalismo aliado aos interesses partidários. Será preciso investir numa mídia realmente independente, independente dos grandes interesses econômicos, independente dos grandes interesses partidários que, em última instância, estão intimamente atrelados a esses mesmos interesses econômicos.


Antonio Elias Sobrinho - 10/06/2014
A democracia, desde o século XIX, após as derrotas dos movimentos revolucionários de 1848 e a consolidação do poder das burguesias, passou a ser algo do interesses exclusivo das camadas populares. As classes dominantes, a partir daí, sempre procuraram limitar a participação popular e manter a democracia nos marcos da sua formalidade, criando uma espécie de cidadania cindida entre o indivíduo "político" e o indivíduo econômico ( do mercado ). No Brasil, esse processo foi mais radical porque, conseguindo fazer uma "revolução pelo alto", desde o processo da Independência, através de acordos das elites, sempre conseguiram, não raro pela força, excluir o povo das decisões efetivas. Não seria agora que iriam mudar de comportamento.


raul acuña - 10/06/2014
O general Velasco Alvarado, ditador de Peru implantou como disse um autor a Revolução por Decreto e a participação controlada pelo Sistema Nacional de Mobilización Social (SINAMOS) controlado por militares e tecno-burocratas. Não é papel do governo a criação de Comités de Participação Popular. É dos Movimentos Sociais e devem ser completamente autônomos e conquistados na luta. Não há participação por Decreto e quando houve foi para castrar a autonomia popular.


Orlando F. Filho - 10/06/2014
Primeiro, uma pergunta: Hermes Sanchez, vc existe mesmo? Todos sabemos que na Grécia, a democracia não estendia-se ,aos escravos. Então o que deveríamos fazer? Acabar com a democracia? O assunto não é esse. Penso que estes comitês serão importantes para que o povo brasileiro tenha uma ferramenta para evitar a soberba dos trucanos, dos dems da vida. Quanto ao PT, penso que em alguns momentos passará por apuros em relação aos seus projetos de infraestrutura para o país pois as grandes obras de infraestrutura devem ter uma enorme lupa para não acontecer como no estado do Ceará, cujo VEÍCULO LEVE SOBRES TRILHOS ficou inconcluso devido aos descumprimento do cronograma por parte da(s) empresa(s) responsáveis. Alguém será processado ou irá preso por fraude ou seja lá qual a tipificação no Código Penal? Duvido muito mas aos poucos iremos construir e aperfeiçoar nossa democracia para que todos sintam-se responsáveis pela sua manutenção.


Orlando F. Filho - 10/06/2014
Para completar meu raciocínio a questão de como fazer o congresso aprovar penso que o PT deve usar todo o espaço que tem na mídia para esclarecer o povo brasileiro da importância da aprovação dos comitês de participação popular. Lembrando Lenin, é preciso elevar o nível político do povo brasileiro e não o contrário. Confio que o povo, cuja sabedoria não podemos duvidar, entenderá a importância dos comitês e fará pressão junto aos senhores congressistas. Aqui em SP o movimento passe livre prestou solidariedade aos metroviários em greve e é com esta união que devemos contar para fortalecer a democracia.


Dr.Aladio Dullius - 10/06/2014
Bem escrito o texto, com críticas reflexivas, bem coeso e bem elaborado, condizente com a realidade, onde o político e grande parte da população fica refém do poder econômico, forte abraço

tenho uma poema acerca da participação= http://www.recantodasletras.com.br/poesias/2917798



raul patricio gastelo acuña - 09/06/2014
Professor Emir,

Todas as formas de consulta popular e os Comités de Participação Popular aprimoram sistema político e a participação cidadã. Porém, corre-se o risco de colocar creme de chantilly em bolo feito de porcarias. O prioritário é a Constituinte exclusiva e nela a reforma radical do sistema político e da legislação eleitoral. Financiamento público de campanha com cancelamento sumário de partidos que tenham caixa 2. Voto distrital puro. O distrital misto não é bom nem para Alemanha e muito menos para o Brasil. Preserva a oligarquia e coronelismo dos partidos políticos e não é democrático. O voto distrital possibilita melhor representação de todos os distritos do país e a certo controle sobre os representantes eleitos. Fim da terceira senadoria (herança da ditadura militar). Fim dos vices. Fim do pagamento a vereadores em cidades com menos de 100.000 habitantes. Deputado ou senador que aceita ser ministro perde o cargo eletivo. Fim do foro parlamentar para delitos comuns. Os salários de ministros o senadores e deputados e de Ministros do STF não devem ser superiores a 30 salários mínimos, o que já é um escândalo, Essas são algumas questões básicas. Medidas que complementadas com referendos e plebiscitos para questões cruciais como reforma tributária, da legislação trabalhista e sindical, previdência social, obras que modifiquem o curso dos rios, da natureza ou atentem contra o meio ambiente. Nessa situação bem vindos os Comités de Participação Popular. No contexto político atual é mais uma cenoura para os incautos.


Marcia Eloy - 09/06/2014
Tudo o que o senhor escreveu eu já sabia. mas, pergunto: e a reação do governo e da mídia que não age desta maneira? Durante a Ditadura, amigos jornalistas se juntaram e formaram "O Pasquim", por que a Carta Maior, junto com Conversa Afiada e Carta Capital não fazem o mesmo?


José Carlos Maciel - 09/06/2014
GOSTEI DA ANÁLISE: qta lucidez, percepção e inteligência! Agora, mas como fazer q esta proposta passe no Congresso apesar do bombardeio da Mídia?


Hermes Sanchez - 09/06/2014
Prof Emir Sader, o nome que se dá a esse modelo de participação e diálogo, entre estado e organizações sociais ditas representativas, é corporativismo, exatamente o mesmo estado corporativo largamente adotado no Fascismo italiano, no Estado Novo salazarista, no peronismo e, claro, pelo getulismo com seu tambem Estado Novo. De forma muito semelhante foram organizados os sovietes, com a diferença de que nestes, ao contrário dos regimes fascistas. a propriedade privada não podia ter representantes. O decreto 8243 é, portanto, um retrocesso aos primórdios do século XX.

PARCERIAS