Segunda-Feira, 01 de Setembro

02/12/2013 - Copyleft

21 gramas, o peso do perdão

21 gramas (2003), longa-metragem dirigido por Alejandro González Iñárritu, questiona o sofrimento como algo meramente individual.


Flávio Ricardo Vassoler
Divulgação

Quem muito pensa sobre a vida cedo ou tarde se depara com a morte. A morte como aniquilação – ruptura; a morte como fronteira – passagem. Essas duas formas antípodas de conceber a vida – e a morte – não abrem mão do sentido. Da busca por um sentido.
 

Imaginem que, neste preciso momento, lhes fosse arremessada a notícia de que lhes resta pouco mais de um mês de vida. Só então sentiríamos como vivemos segundo uma noção mais ou menos difusa de sentido. Ora, por que vocês estão lendo este ensaio? O leitor e a leitora provavelmente sabem o que farão em seguida. A que horas voltarão para casa, quem (não) irão encontrar. Tudo isso parece tão dado quanto a ficção de que o sol voltará a pôr-se de pé amanhã. Mas agora nos resta pouco mais de um mês – se tanto. A sucessão dos dias se embaralha. A sucessão deixa de fazer sentido. O próprio sentido se ressente consigo mesmo. Não é à toa que muitas pessoas gostaríamos de sofrer uma morte rápida e inesperada. Ninguém quer assistir ao próprio naufrágio. Ainda assim, as situações limítrofes parecem inocular novas perguntas ao organismo combalido. E se o sofrimento constituir uma forma de redenção? Só nos mantemos próximos porque vivemos em sociedade? Não há um sentido para nossos vínculos? Ao fim e ao cabo, somos digeridos ou permanecemos?

 

O perdão parece pesar 21 gramas (2003), filme dirigido por Alejandro González Iñárritu. A princípio nos deparamos com a revoada dos pássaros – mal nos damos conta de que o movimento cíclico é a chave para entender a migração dos 21 gramas entre as personagens. Iñárritu estilhaçou o fluxo narrativo. Vamos compondo o quebra-cabeça ficcional para que a estória faça sentido. É assim que encontramos as trajetórias alquebradas de Paul Rivers, Cristina Peck e Jack Jordan.

 

O caráter social de nossas vidas só parece se apresentar de forma negativa. Sequer concebemos que o apartamento em que vivemos faz parte de um condomínio. A casa, então, jamais está situada em uma rua. “Ela é meu quartel general, o local onde me isolo, a contrapartida desta sociedade enregelada”. Mas quando falta ao indivíduo a (suposta) autossuficiência, ligações telefônicas começam a ser feitas, e-mails são enviados, o outro desponta como instrumento. Até que um carro me atropele. Então, inusitadamente, as pessoas centrífugas que só fazem esquivar-se umas das outras ligarão para o SAMU, pararão o trânsito, passarão a se tocar, a compartilhar o desespero, a clamar por ajuda. Por que a solidariedade precisa se esgueirar entre os escombros?

 

O marido e as duas filhas de Cristina são mortos pela pick-up evangélica de Jack – “a pick-up que Jesus me deu em uma rifa”. Um acontecimento aparentemente isolado aguça o sentido da convivência entre as personagens. Agora, não mais poderemos viver como se fôssemos independentes uns dos outros. O alheamento e a indiferença não mais podem se confundir com o sentido. Em estado de choque, Cristina precisa decidir se seu marido doará o coração. A câmera de Iñárritu não deixa de nos mostrar a coincidência entre o fim de um ciclo e o início de um novo – de um outro: enquanto Cristina sai do hospital arrimada pelo pai e pela irmã, Mary, a mulher de Paul, reza para que o marido consiga sobreviver à cirurgia que lhe trará um novo coração. (Os pássaros não migram ciclicamente à procura da luz e do alimento que voltem a acalentá-los?)

 

Life goes on, a vida segue: este mote reiterado mais de 21 vezes nos apresenta a vida como fluxo perpétuo. Após renascer, Paul quer saber a quem pertencia seu coração. Mary quer ter um filho. Jack, o evangélico, não consegue entender por que Deus lhe teria dado a caminhonete para que ela se transformasse em arma letal. Sem o arrimo do marido e das filhas, Cristina volta a se afogar no álcool e nas drogas. Mas a trama de 21 gramas questiona o sofrimento como algo meramente individual. Iñárritu sequer concebe o corpo como uma fronteira que nos aparta do outro. É como se fôssemos nós de uma imensa rede, nós que se movimentam relacionalmente – se estico o braço afago o seu rosto, seu cotovelo rasga meu supercílio. É como se já não fôssemos você e eu. É como se fôssemos nós, nós outros – nosotros, diria o mexicano Iñárritu.

 

Paul descobre que seu coração pertencia ao marido de Cristina. Descobre ainda mais: Mary quer ter um filho para enterrar os abortos que já fizera. Jack não se perdoa, ele não pode ser pai e marido após ter destruído uma família. “Onde está Deus? Por que é preciso haver o crime para que a redenção venha com o castigo?” Paul se aproxima de Cristina. A princípio ela o rechaça, abrir-se ainda uma vez para o mundo pode significar o enfrentamento de uma nova e dolorosa perda. E, aqui, outras dúvidas se impõem. Por que não nos resignamos completamente diante de uma perda? Se a resignação de fato lança âncoras, por que sofremos? Ora, “as coisas não são assim, não é preciso deixar os sonhos mirabolantes de lado?” Então, por que a dor? De onde vem o ímpeto para prosseguir? Paul insiste em flertar com Cristina, ele quer dizer muito obrigado, mas o amor se insinua pelas frestas da gratidão.

 

“A terra girou

Para nos aproximar.

Ela girou sobre si mesma

E dentro de nós

Até que finalmente nos reuniu

Nesse sonho”.

 

O poeta venezuelano Eugenio Montejo (1938-2008), autor dos versos que Paul recita diante do sorriso redivivo de Cristina, nos incita a pensar sobre a contiguidade entre o padrão matemático nas ranhuras da concha de um caracol e a proporcionalidade do corpo humano. Por que a borboleta que bate asas na Califórnia pode provocar um tsunami na Tailândia? Pitágoras de Samos (~571 a.C. a ~497 a.C.) já apreendera um padrão de reiteração numérica nas mais diversas estruturas do universo. O que é o triângulo pitagórico senão a síntese da geometria? Dois triângulos retângulos não dão as mãos para que o quadrado consiga nascer? Que significam os números e seus padrões? Por que o corpo perde 21 gramas ao deixar de respirar?

 

Cristina quer vingança. “Paul, você tem que buscar o assassino da minha família, você deve isso ao meu marido, você deve isso a mim!” Jack já se havia apartado dos seus. Ele só fazia buscar o calvário para expiar a própria falta. Assim, a rede se movimenta ainda uma vez para que a culpa e as faltas tentem se transformar no perdão – o peso de 21 gramas, o sentido da evolução, a evolução como sentido. Senão, vejamos: Cristina Cristo carrega a cruz e o calvário em seu próprio nome. Paul, o apóstolo Paulo, é historicamente associado à expansão da cristandade para os gentios – para além das fronteiras judaicas. Paul Rivers, isto é, Paulo Rios, o rio do fluxo perpétuo, o rio que se movimenta e que vai se chocando contra as margens para que as experiências expandam a consciência. Então chegamos a Jack Jordan, a Jack Jordão, o rio em que João Batista batizou Cristina. Cristina Paul Rivers Jordan. Eis a transmigração dos 21 gramas, eis o sentido cíclico da revoada dos pássaros – estamos unidos em nossas faltas para que do crime não desponte apenas o castigo. 21 gramas, o peso do perdão.

 

Paul e Cristina encontram Jack. O novo coração de Paul está à beira do colapso. Mas ainda há tempo de dizer para Cristina que “eu matei o Jack, fique tranquila”. Paul havia atirado a esmo sem atingir o corpo de Jack. “Tudo o que você fez foi errado, você não deveria ter feito aquilo!” Paul não alvejou o corpo de Jack – os 21 gramas é que foram atingidos. Mas Jack sequer consegue pensar em viver para além da lógica dos velhos testamentos, os evangelhos segundo Talião. É preciso ser punido, “pode haver algo para além da vingança?” Talvez seja preciso renascer, então Jack vai em busca de seu Jordão. Ele consegue encontrar Paul e Cristina e, sem mais, pede que Paul dispare à queima-roupa, só assim o inferno de sua consciência deixará de arder. “Vamos, vamos, atire, atire!” Paul não consegue matá-lo. Jack o empurra e, não fossem os sucessivos golpes que Cristina lhe aplica com o abajur improvisado como bastão, Jack viria a matar ainda uma vez. Agora, nos deparamos com Cristina diante do assassino do marido e das filhas. Caro leitor, cara leitora: vocês parariam de golpear Jack até que ele se tornasse um corpo inerte? Pois assim Iñárritu raciocinou. Para que o fluxo perpétuo não seja estancado, Paul Rivers aponta a arma contra o próprio peito e alveja o coração que só faz sufocá-lo. Ao se oferecer em holocausto, Paul realiza a aproximação impossível de Cristina e Jack. “Vamos levá-lo ao hospital, agora, vamos!” Lá chegando, Jack diz para o policial de plantão que ele mesmo havia atirado em Paul. Mas Cristina, a única testemunha, se nega a condenar o assassino por um crime que ele não cometera. Paul está morto. Cristina perdoa Jack, o Jordão o faz renascer. Cristina e Mary estão grávidas de Paul.

 

Paul, Mary, Jack e Cristina perguntam:

 

− Quantas vezes nós vivemos?

 

Cristina, Jack, Mary e Paul respondem:

 

− Quantas vezes nós morremos?

 

O tempo meramente linear e finito parece não dar conta de nossas recalcitrâncias, de nosso ímpeto para a cura. Ao montarmos o quebra-cabeça narrativo de Iñárritu, percebemos que o perdão progride e retroage. Quanto tempo você levou para pedir desculpa ao seu filho? Não foi preciso ignorar seu pai para que a cicatriz deixasse de latejar? Por ora, aprendemos assim. O tempo flui e reflui, a linha se curva como círculo, como ciclo, até se transformar em uma espiral – então a curva segue adiante, life goes on, a vida segue. Descobrimos, assim, por que muitos pensadores gregos consideravam a água como a essência da vida – a água do rio de Paul, o fluxo perpétuo como o tempo, esta ficção que Alejandro González Iñarritu, secundado por Platão e pela lógica do perdão, transforma em imagem movente da eternidade.

 

Para Sônia Morel

 

Flávio Ricardo Vassoler é escritor e professor universitário. Mestre e doutorando em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, é autor de O Evangelho segundo Talião (Editora nVersos) e organizador de Dostoiévski e Bergman: o niilismo da modernidade (Editora Intermeios). Todas as segundas-feiras, às 19h, apresenta, ao vivo, o Espaço Heráclito, um programa de debates políticos, sociais, artísticos e filosóficos com o espírito da contradição entre as mais variadas teses e antíteses – para assistir ao programa, basta acessar a página da TV Geração Z: www.tvgeracaoz.com.br. Periodicamente, atualiza o Subsolo das Memórias, www.subsolodasmemorias.blogspot.com, página em que posta fragmentos de seus textos literários e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.





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