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Um sonho intenso: a economia brasileira segundo o cinema científico de José Mariani

'Um sonho intenso' reforça a ideia permanente de Mariani: "Se Glauber dizia que o cinema não exclui a poesia, acrescento: o cinema não exclui a ciência."

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Divulgação

É notável o feito do cineasta e documentarista José Mariani, que depois de produzir duas festejadas cinebiografias – sobre os cientistas Cesar Lattes e José Leite Lopes, e O longo amanhecer no qual conta a trajetória de Celso Furtado – agora se lança na tarefa de, no cinema, destrinchar para o público leigo os meandros de um tema complexo considerado assunto de especialistas e destinado a iniciados: a vida econômica do Brasil.
 
Filmado em 2012, editado ano passado e concluído há dois meses, portanto de atualidade incontestável, Um sonho intenso, com duração de uma hora e 42 minutos, é atraente e prende a atenção do espectador todo o tempo. Mais que uma sucessão das entrevistas de estrelas das ciências econômicas, de historiadores e sociólogos - Maria da Conceição Tavares, Carlos Lessa, Adalberto Cardoso, Celso Amorim, Francisco de Oliveira, João Manuel Cardoso de Melo, Luiz Gonzaga Beluzzo, Lena Lavinas, José Murilo de Carvalho e Ricardo Bielchowsky – este, também consultor de roteiro, é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e trabalha para a Comissão Econômica para a América do Sul e Caribe, a Cepal –, a garimpagem das imagens é exemplar e contribui para a historiografia do período socioeconômico brasileiro de 1930, da era Vargas aos dias de hoje.
 

 
Com Um sonho intenso Mariani reforça esta sua ideia permanente: "Se Glauber Rocha dizia que o cinema não exclui a poesia, eu acrescento: o cinema não exclui a ciência."
 
De algum modo, este documentário de agora retoma, por outro viés O longo amanhecer, sobre a vida e o trabalho de Furtado. O foco é a política de estado desenvolvimentista exercida com tropeços, desde Getúlio Vargas (com as infelizes interrupções conhecidas - ditadura, liberalismo, política neoliberal) e sistematizada pelo economista paraibano.
 
"Num país em que a concentração de renda ainda é grande, a taxa de juros incompreensivelmente alta e o desenvolvimento econômico atravancado, as teorias e pensamentos de Celso Furtado são mais do que atuais," acredita o diretor José Mariani. 
 
"O filme é um desdobramento do primeiro. Desta vez o protagonista é o processo,  uma visão de história que inclui a história social, cultural e econômica; uma forma de ver a economia de modo orgânico."
 
As observações e as análises dos personagens que formam o elenco estelar do doc são apresentadas em linguagem direta, simples e natural chegando ao entendimento imediato do leigo. São testemunhos que prescindem de notas estatísticas (cada vez mais manipuladas por jornalistas especialistas, na TV), o que é um alívio, e não falam o idioma do economês cujo objetivo é desinformar e manter a sociedade analfabeta sobre o assunto.
 
No início, Carlos Lessa indaga: "O que é o Brasil, o que é ser brasileiro? O que o Brasil tem de paradigmas para mostrar para o resto do mundo?"
 
Em seguida, Maria da Conceição Tavares: "Podemos nos surpreender por uma visão menos preconceituosa - e mais moderna - do primeiro período da era Vargas, bem como por uma visão contemporânea do desenvolvimentismo do período JK, um período alegre, estimulante, com a bossa nova, a construção de Brasília, a marcha para o oeste."
 
Seguem-se análises sobre o governo do presidente João Goulart, em seguida sobre os anos da ditadura civil-militar e considerações a respeito dos seus atores, tanto militares como civis; as estatizações e os planos nacionais de desenvolvimento, que, segundo Carlos Lessa, "eram uma versão hiper autoritária da proposta de desenvolvimento industrial do passado".
 
De qualquer modo, a opinião geral é a de que se manteve sempre, nesse passado, os dois Brasis: o do sul-sudeste e o do norte e nordeste.
 
Maria da Conceição Tavares ressalta: "Não aconteceu nada com a miséria real. O país reproduzia o subdesenvolvimento à medida que o país se desenvolvia, pois este desenvolvimento era voltado apenas para as classes médias".
 
Na sequência, Um sonho intenso percorre o período das Diretas Já, a tragédia da inesperada morte de Tancredo Neves, o governo Sarney e seus sucessivos planos bolhas de sabão, a inflação galopante, o desastre Collor e os poucos pontos positivos do governo Itamar – o real, entre eles, diga-se, aceito com hesitação pelo então presidente.
 
As privatizações de Fernando Henrique Cardoso, "fruto de um vagalhão neoliberal, que não serviram para nada," observa João Manuel Cardoso de Melo. Para Carlos Lessa: (As privatizações) "acabaram com o projeto de soberania nacional".
 
Por fim, as análises dos dois consistentes mandatos de Lula os quais, segundo Carlos Lessa, "teve a felicidade de puxar os de baixo para cima e integrar estas pessoas ao mercado de consumo e ao mercado de crédito."
 
Concluindo o filme e fechando o ciclo, o mesmo Lessa lembra, sincero e com simplicidade: "Nós vivemos a armadilha do pensamento econômico" (...) "é razoável explicar o presente, mas é extremamente difícil pensar o futuro."
 
Para estes personagens do filme de Mariani não cabem mais na cena nem os oráculos nem os abutres da economia do país.

Créditos da foto: Divulgação