Quarta-Feira, 28 de Junho

 

19/03/2014 00:00 - Copyleft

O funil do mercado e a escola

O mercado afunila o conhecimento adquirido na escola, exigindo pouco do que foi aprendido, mas requer de cada um habilidade e competência específicas.


José Carlos Peliano (*)
Arquivo


Desde a infância ouvimos falar que a educação é tudo na vida não só para aprender a ler, escrever e se dar bem na sociedade como também para alcançar um bom lugar no trabalho e na carreira.

A dificuldade na conjugação de verbos, na acentuação de palavras ou em seus significados, a dor de cabeça na resolução dos problemas, na descoberta das incógnitas nas equações ou no entendimento das funções algébricas, a decoreba dos símbolos e fórmulas químicas, da descrição e funcionamento das características biológicas, enfim tudo isso era visto como necessário e fundamental para a obtenção de um seguro futuro profissional.

Mesmo que a gente viesse a usar bem pouco no futuro do que se aprendeu na escola, a justificativa clássica era de que teríamos de obter um conhecimento geral das matérias para que pudéssemos compreender melhor a realidade.

Não que hoje esse périplo não tenha mais importância ou não exista mais. Ele apenas mudou de perspectiva do ponto de vista do mundo do trabalho e por extensão das famílias. A escola parece ainda não ter percebido.

Antes o que se aprendia na escola servia para o trabalho, certamente não tudo, mas o essencial. Hoje, para a tarefa mais simples, o mercado pede da escola somente que o futuro trabalhador saiba ler e entender bem o que se lê para que se aplique sem dificuldade o que vai ser mostrado no ambiente de trabalho e daí para frente ser replicado.

Para as tarefas mais complexas exige-se o que se requer para a tarefa mais simples além dos conhecimentos específicos adicionais de cada modalidade de trabalho.  Em ambas as tarefas, no entanto, pede-se mais, o que não é via de regra ensinado na escola: pelo menos a habilidade de cada um aliada à competência adquirida ao longo da vida.

Assim, o mercado afunila o conhecimento adquirido na escola, exigindo pouco do que foi aprendido, mas requer de cada um a habilidade e a competência naquilo que pretende fazer no trabalho.

Ainda bem que existe a escola pois, mesmo com os currículos desatualizados, o aluno sai com um conhecimento, ou deficiência dele, que lhe permite depois aprimorar e adequar à sua ansiedade de saber. Se seguíssemos apenas o que o mercado exige, com certeza seríamos um bando de autômatos bem adestrados, trabalhadores amorfos, paus para toda obra.

Mas vamos lá. Então, se a escola ensina as matérias básicas consideradas pilares de educação para a vida e se o mercado leva mais em conta a habilidade e a competência de cada um no desempenho do trabalho, por que esse descompasso? Ainda mais porque boa parte do que se aprende na escola não será nunca mais usado ou tomado como referencia para qualquer tipo de atividade, atitude, comportamento ou mesmo decisão.

O ajuste que escola e mercado deram nesse descompasso ao longo dos anos parece ter sido mais ou menos o seguinte: a escola “diz” ao mercado “eu ensino as matérias curriculares que servem como parâmetro para a minha aferição do desempenho educacional do aluno” e o mercado “responde” a escola “ok, faça isso que eu uso os certificados ou diplomas que você fornece como credencial para o meu aproveitamento para o trabalho do candidato”.

Assim, a educação acaba servindo como ajuste fino pelo mercado para a admissão ou não do candidato ao trabalho. Do 1o e 2o graus, seleciona-se em geral os melhores em matemática e português, mas deles aproveita-se aqueles com melhores habilidade e competência.

Não que o mercado nesses níveis esteja atrás de matemáticos ou especialistas na língua pátria mas deles sairão provavelmente, mas não necessariamente, os candidatos com melhor nível de entendimento, resolução de problemas e discernimento no manejo de situações.

Do mesmo modo, do ensino superior seleciona-se os que tiveram melhor aproveitamento nos cursos respectivos e afunila-se naqueles que têm mais habilidade e competência nas áreas pretendidas pelo mercado.

É claro que aqui, por exemplo, os candidatos a vagas nas áreas de economia deverão vir das faculdades de economia e não de biologia. Deverão ser aproveitados, no entanto, quase com toda certeza aqueles que, além do desempenho curricular, se saírem melhor nas entrevistas.

Há ainda critérios adicionais que são usados pelo mercado para apurar ainda mais a escolha final dos candidatos, os quais são focados nas entrevistas. Eles se abrigam nas características pessoais de cada um. Responsabilidade, espírito de grupo e liderança fazem parte do rol de critérios que pesam mais para alguns em detrimento de outros. Na saída do funil, por fim, ficam os escolhidos.

Claro que em toda regra há exceções, mas são tão poucas que não alteram o quadro geral até aqui apresentado. A maioria esmagadora das exceções retiram a escola do currículo e em seu lugar fica a escola da vida, ou seja, tudo o que se aprendeu como conhecimento tácito na execução diária de trabalho, observação, troca de ideias e experimentação.

Um bom exemplo de exceção. Conta-se que em Minas, minha saudosa terra, quando não se acha um engenheiro ou arquiteto para abrir uma estrada num morro, convoca-se um burro. Um burro? Sim, ele mesmo, o animal, solta-o para subir o morro e segue-se atrás. Por onde ele passar será o lugar ideal para ser aberta a estrada! A observação do homem da roça levou-o a esse achado.

Outra exceção talvez, as atividades universitárias, onde por certo uma maior parte do que se aprendeu no 1o e 2o graus será mais e melhor aproveitada. Quem para de estudar antes do 3o grau com certeza vai direto para o mercado procurar trabalho. Quem segue o estudo quer adquirir mais conhecimento para ser aplicado mais tarde ou na própria universidade ou em ocupações técnica ou cientificamente específicas.

A relação escola e trabalho é bastante abrangente e intrincada para que seja discutida amplamente num texto como este. O que se procurou aqui foi demonstrar mais de perto a grande diferença entre o que se ensina na escola e o que se aproveita no trabalho.

No mundo moderno os dois lados necessitam de ajustes. A escola, chegar mais perto das inclinações vocacionais dos alunos, reforçando matérias adequadas ao seu perfil em detrimento de outras. Isto leva com certeza a uma boa e ampla reforma educacional. Ao mercado, abrir mais espaço para a interação escola-empresa onde os alunos possam conhecer melhor o mundo em que irão trabalhar, seja por meio de cursos interativos, seja por meio de estágios integrados aos currículos.

Quem sabe as diferenças comecem a diminuir e não fazer mais tanto a diferença!


(*) Economista



Créditos da foto: Arquivo



Siga-nos no Facebook

Cadastro

Revista Digital

Saul Leblon

Leia Mais

PARCERIAS