Sexta-Feira, 27 de Maio

19/08/2014 - Copyleft

Desmentindo os números do Reitor e de Folha de SP sobre a Crise na USP

Manipulam dados para enfraquecer a universidade pública através de cortes drásticos aos funcionários, docentes e programas de pesquisa e bolsas para alunos


Sean Purdy (*)
Arquivo


Como parte da sua tentativa de desmantelar a Universidade de São Paulo (USP), o Reitor Marco Antonio Zago anunciou na semana passada um plano de Demissão Voluntária e Redução da Jornada de Trabalho para 2.8 mil funcionários. Têm criticado o suposto alto número de funcionários ao longo da greve de 80 dias de professores, funcionários e alunos, declarando que a estrutura administrativa da USP é inchada. Também suspendeu concursos para professores e reduziu por 30% a verba para pesquisa e bolsas para alunos, dizendo que isto foi um corte da “gordura sobrando”. Todas essas políticas têm consequências desastrosas pela qualidade de ensino, pesquisa e aprendizagem na universidade.

A Folha de São Paulo têm apoiado a Reitoria da USP durante esse inteiro processo: abre suas páginas para Zago anunciar seus planos ao invés de ele discutir antes nos colegiados da USP (por mais que sejam pouco democráticos), dá pouco espaço no jornal para argumentos alternativos, propõe as piores medidas neoliberais para educação superior no Brasil, inclusive mensalidades para os alunos, e publica estatísticas equivocadas sobre a natureza da crise. Sobre mensalidades, a própria Ombudsman de Folha dedicou uma coluna no dia 17 de agosto à incapacidade de Folha admitir que usou dados imprecisos e manipulados numa reportagem de dois meses atrás para justificar a cobrança de mensalidades na USP. E o Reitor e Folha continuam usando dados errados para apoiar seus argumentos em favor de arrocho salarial e cortes de professores, funcionários e verbas para pesquisa e ensino.

O editorial de Folha de 19 de agosto repete uma estatística falsa que Zago mencionou numa reportagem com o jornal no dia 16 de agosto: que nas “principais” (Zago) e “conceituadas” (Folha) universidades britânicas em 2013 o número de alunos por servidor é um saudável 15 para 1. O Reitor e Folha mencionam que na USP tem 5,5 alunos por funcionário técnico-administrativo que é semelhante a da UFRJ que, segundo Folha, porém, “não é bem um exemplo de eficiência”. Por outro lado, o número de alunos por professor na USP é aproximadamente 15 para 1.

Comparações das universidades brasileiras com as de outros países são sempre problemáticas: contextos gerais e locais bem com trajetórias históricas são bem diferentes. Universidades desempenham um papel diferenciado dependendo do país e do período histórico. Mas pelo proposito de mostrar como os números do Reitor e Folha são equivocados, vale a pena conferir as seguintes estatísticas.

Uma simples consulta dos dados da Higher Education Statistics Agency do governo britânico (https://www.hesa.ac.uk/) desmente as declarações do Reitor Zago e de Folha. Em todas as universidades britânicas em 2013, houve 2.340.275 estudantes de graduação e pós-graduação, 196.845 funcionários técnico-administrativos e 185.535 professores. Isto é, 11,89 alunos por funcionário técnico-administrativo e 12,61 alunos por professor. De onde vem o número de Zago e Folha de 15 alunos para 1 funcionário nas universidades britânicas ninguém sabe pois não citaram a sua fonte. Porém, o mais confiante órgão de estáticas do Reino Unido diz que esse número é errado. 

Se olharmos nas quatro melhores universidades britânicas segundo os rankings do Times Higher Education World Rankings para 2013 os números de Zago e Folha pioram mais.

Na ordem de ranking são: University of Oxford, University of Cambridge, Imperial College e University College, London. Vamos supor que essas quatro universidades são as “principais” e “conceituadas” universidades no país citado por Zago e Folha.

Em 2012/2013, na Oxford, houve 4,92 alunos por funcionário e 4,3 alunos por professor. Na Cambridge, 4,4 alunos por funcionário e 3,9 alunos por professor. Na Imperial College: 3,4 alunos por funcionário e 3,8 alunos por professor. Finalmente,  University College, London tinha 3,8 alunos por funcionário e 5,5 alunos por professor. Portanto, todas essas universidades tinham mais funcionários por aluno que a USP e bem menos alunos por professor.

Não por acaso as melhores universidades do mundo têm mais funcionários e professores por aluno. No caso da USP, com sua importância central no estado e no Brasil, temos que também levar em conta os hospitais universitários, museus e outros institutos que contribuem com a missão geral da universidade pública. Além disso, o tamanho e a importância da USP têm crescido nas últimas duas décadas no cenário nacional.

O problema central da crise financeira na USP, que Zago e Folha recusam aceitar, é que a universidade aumentou enormemente nas últimas décadas sem que haja um aumento correspondente de verbas. Segundo os dados dos Anuários Estatísticas da USP, entre 1995 e 2012, na graduação, o número de cursos aumentou em 88,6% e em pós-graduação em 34,6%. Nesse mesmo período, o número de alunos de graduação aumentou em 77,6% enquanto alunos de pós-graduação cresceram por 102,3%. Mas o número de docentes aumentou somente em 15,9% e os funcionários em 11,5%! A USP também adicionou três novos campi sem o aumento de verbas prometido pelo governo estadual.

Porém, nem Zago nem Folha pedem um aumento nas verbas do estado de São Paulo, preferindo manipular dados para enfraquecer a universidade pública através de cortes drásticos aos funcionários, docentes e programas de pesquisa e bolsas para alunos. Será que de novo vai demorar mais dois meses para a Ombudsman de Folha desmentir os números dos próprios editorialistas do jornal?


(*) Professor de História, da Universidade de São Paulo (USP)








Créditos da foto: Arquivo



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