Segunda-Feira, 24 de Julho

11/05/2015 00:00 - Copyleft

Meu encontro com o Che

Conversamos até as quatro da manhã. A cada explicação que lhe dava, ele se mostrava pouco convencido e me pedia mais detalhes sobre a guerrilha venezuela.


Por Roberto Savio*
Alberto Korda - Wikipedia

Em 1963, fiz uma viagem à Venezuela. Naquele ano, eu era um jovem repórter que trabalhava para a revista italiana Rinascita (o semanário do PC italiano). Numa entrevista com o Presidente Betancourt, ele me falou sobre o quão preocupado estava, como social-democrata, com o surgimento de uma guerrilha na Venezuela. Dali eu passei a buscar o líder dessa guerrilha, se chamava Luben Petkoff, mas não consegui localizá-lo. Contudo, encontrei alguns de seus simpatizantes e da conversa com eles surgiu uma reportagem sobre os camponeses que Petkoff queria alistar, seguindo o modelo cubano. Cheguei à conclusão que a realidade era profundamente diferente do que Petkoff pensava, e que aquela iniciativa não daria em nada.


Da Venezuela, eu viajei a Cuba, onde conversei com várias pessoas, a quem comentei a opinião de que a Revolução Cubana não daria certo naquele país, o que desagradou a vários dos meus interlocutores.


Estava alojado no hotel Nacional, e numa noite, enquanto dormia, uns golpes insistentes contra a porta me despertaram. Eram duas da madrugada. Um militar de uniforme verde-oliva, me disse que o comandante Guevara queria me ver. Me vesti, e o mesmo militar me levou ao Ministério da Indústria, pasta que era administrada pelo Che. O edifício estava totalmente às trevas, a exceção do último andar. O soldado que me acompanhou desde o hotel disse a outro, que montava guarda na porta do prédio, que o Che me esperava, e ele nos deixou passar. Subimos até o último andar, onde um terceiro soldado me conduziu até o escritório do ministro Che, abriu a porta, me anunciou e me convidou a entrar. Era um quarto revestido de madeira tropical, com uma grande mesa com grandes pilhas de papéis O Che estava sentado do outro lado da mesa.


Ele se levantou e, sem rodeios, me disse: “Por que a guerrilha na Venezuela vai fracassar?”. Logo, percebeu que eu estava surpreendido com aquele tema, e foi por outro lado: “Pensando bem, creio que é uma boa hora prum café”.


Abriu a porta e pediu ao soldado que trouxesse dois cafés.


O soldado voltou rapidamente, com as duas xícaras numa bandeja, e caminhava até onde estava o Che, quando este lhe indicou: “Rapaz, os hóspedes primeiro”. O soldado se aproximou de mim pelo lado esquerdo e girou a bandeja em minha direção. Ao fazê-lo, a metralhadora que carregava pendurada nas costas se balançou e deu com o cano no lado esquerdo da minha testa. Um reflexo instintivo me fez dar um salto e golpear a bandeja. Estupefato e horrorizado, vi como as duas taças de café voaram, quicaram sobre a mesa e mancharam muitos dos papéis que ali estavam. Se eu tentasse fazer um estrago desses de propósito, talvez teria sido menos eficiente.


Fiquei paralisado, e o Che disse: “Finalmente chega uma pessoa que, num só golpe, se desfaz de todos esses papéis”. E foi assim comecei a me afeiçoar por ele.


Conversamos até as quatro da manhã. A cada explicação que eu lhe dava, ele se mostrava pouco convencido e me pedia mais detalhes. Não aceitou nenhum dos meus argumentos e me deixou a impressão de uma pessoa com uma extraordinária qualidade humana, porém muito obcecada.


No final do encontro, Che me deu um livro seu de presente, “A Guerra das Guerrilhas”, com uma dedicatória que dizia: “a Roberto Savio, como recordação de uma extensa noite de verão, sem pretensão de doutrinamento. Che”.


Passaram muitos anos. Em 1973, realizei um longo documentário de três episódios, de uma hora de duração cada um, sobre o Che e sua morte. Trabalhava então como chefe dos correspondentes da RAI (rede de televisão italiana), na América Latina. A RAI destruiu o meu trabalho. Transmitiu somente dois episódios de 50 minutos, totalmente diferentes dos que eu havia concebido, mas usando o meu material e o meu nome. Quando reclamei do fato, me despediram. Meu documentário estava todo ele feito de entrevistas irrepetíveis, mais de cem, desde a única oferecida pelo Secretário do Partido Comunista da Bolívia, Mario Monje, à do sargento Mario Terán, que matou o Che em La Higuera, passando pela de Sheldon, o militar americano que treinou os soldados que combateram a guerrilha, a de Holleeder, chefe dos serviços de inteligência americana que operavam na Bolívia, e a de Salvador Allende. Desde então, nunca mais realizei trabalhos sobre o Che.


Em 1964, eu havia criado a IPS. Ser despedido da RAI me deu a chance de ocupar todo o meu tempo à Agência. Passaram-se os anos e, um dia, minha secretária anunciou a visita de um deputado venezuelano, cujo nome eu lamentavelmente não me lembro. Enquanto eu perguntava a ela qual era o motivo da visita, o deputado abriu a porta, invadiu meu escritório e disse: “Ei rapaz, que manhã difícil você nos fez passar com o Che”, como se falasse de algo que acabou de acontecer…


Foi assim que eu soube que, logo depois de me despedir do Che, após meu encontro em seu escritório no Ministério da Indústria, pouco depois das quatro da manhã, ele foi até a casa onde estava alojada uma delegação da guerrilha venezuelana. Os despertou e disse: “Um italiano veio até mim e listou uma série de razões pela qual a guerrilha de vocês vai ser um fracasso”. E foi enumerando todas as minhas razões, enquanto pedia explicações a eles por cada uma. O deputado me disse: “Foi uma manhã duríssima, porque ele estava bem informado e com argumentos reais”.


Descobri, assim, que o Che Guevara, longe de estar obcecado, como eu havia pensado durante tantos anos, havia registrado todos os meus argumentos e os havia usado para dar um sermão aos guerrilheiros venezuelanos. Não me cabe nenhuma dúvida de que ele acreditava na guerrilha. E que escutava, muito mais do que deixava transparecer. (25 de abril de 2015)



* Jornalista ítalo-argentino. Co-fundador e ex-diretor general da Inter Press Service (IPS). Nos últimos anos, também fundou Other News, um serviço que proporciona “informação que os mercados eliminam”. Other News. Em espanhol: http://www.other-news.info/noticias/ Em inglês: http://www.other-net.info/


Créditos da foto: Alberto Korda - Wikipedia



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