Segunda-Feira, 24 de Abril

24/03/2006 00:00 - Copyleft

“O Número”, de Beto Bertagna, entra em cartaz no Curta Petrobras


Eduardo Carvalho - Carta Maior
Beto Bertagna e Othon Bastos durante as filmagens de

Carta Maior apresenta o curta “O Número”, de Beto Bertagna, no qual um homem narra a trajetória de sua vida. Ao longo dos anos, seu nome vai constantemente mudando e, com isso, também vão mudando as circunstâncias de sua vida e até os traços de sua personalidade. O filme é baseado em um conto homônimo de Alberto Lins Caldas e tem, como protagonista, o genial Othon Bastos.

Conversamos com o diretor, que mora em Rondônia, e que nos narrou as peripécias para filmar um curta-metragem em um estado no qual não há a menor tradição de produção cinematográfica e onde os recursos são muito escassos.

A idéia de fazer “O Número” nasceu na noite de lançamento do livro de contos “Babel”, do escritor pernambucano Alberto Lins Caldas, que está radicado em Rondônia. “Folheando o livro, me deparei com o conto e imediatamente pedi ao Alberto, no meio da festa, se poderia filmar. Ele achou que era brincadeira e permitiu, entre gargalhadas. Apresentei o projeto no Petrobrás Cultural e ele levou um susto quando, mais tarde, eu mostrei a notícia do Prêmio” – conta Beto Bertagna.

A certeza da participação do Othon Bastos, que o Alberto adorava como o Honório, no filme “São Bernardo”, veio depois. “Para mim, “O Número” além do valor literário era um filme bem possível de ser feito dentro da pobre realidade audiovisual de Rondônia. Ou seja, um ator só, num cenário só e luz natural, mais o auxílio de alguns equipamentos de luz doados há um tempo atrás pela Edna Fujii e pelo Roberto Bicudo, da Quanta, que acreditaram na idéia da gente começar um processo de formação de técnicos aqui no Estado. Aliás, eu sou do tempo e da turma do Ricardo Aronovitch, que veio fazer um estágio avançado de fotografia na UnB, lá pelos anos 90. Só que, como muitos da época, acabei dedicando-me mais à direção do que à fotografia”. – relata Bertagna.

Diante da escassez de recursos, a cenografia foi toda improvisada dentro de uma faculdade, o que despertou muita curiosidade. “Imagine, uma prisão dentro de uma faculdade! É surrealista! E a grade não era cenográfica, era uma grade de verdade, emprestada pelo chefe da Polícia, o Carlos Eduardo Ferreira, de uma delegacia em reforma. Eu cheguei num domingo de tarde na delegacia, de óculos escuros, bermudas e chinelo de dedo e falei que eu precisava levar a grade embora. O plantonista ficou me olhando com uma cara...” – conta o diretor.

O curta de 12 minutos foi filmado em um dia. Era para ser em dois, tempo que o Othon tinha para filmar, mas, no primeiro dia, caiu um dilúvio em Porto Velho acabando com o cenário que estava destelhado para aproveitar a luz natural e, assim, com qualquer possibilidade de filmar. “No outro dia, com a colaboração de toda a ABD/RO, que obviamente cabe numa Kombi, começamos bem cedo e fomos até o último fio de luz” – brinca Beto Bertagna.

Ainda sobre as dificuldades, o diretor conta que, em Rondônia, não existe política cultural definida para o audiovisual. O último edital para incentivo à produção foi em 1996, há 10 anos, portanto. O projeto para filmar “O Número” já existia, mas só foi possível realizá-lo com o prêmio Petrobras, destinado a “mídias digitais”, que é a categoria em que ele concorre nos festivais pois foi finalizado assim. “Resolvi dar um “plus” captando em 16 mm, e foi talvez o primeiro filme rondoniense captado em película. Parece que também foi o primeiro prêmio Petrobrás para a região norte, que sempre foi muito alijada de todos os processos culturais” – comemora Bertagna.

Outra coisa engraçada foi a escolha da roupa do Othon. Beto Bertagna esperou ele chegar em Porto Velho pra não errar no tamanho. Levou-o a um brechó de um bairro bem humilde nas proximidades de onde aconteceria a filmagem. “O Othon acabou fazendo o maior sucesso, dando autógrafos às pessoas que não acreditavam no que viam. O Othon Bastos comprando uma bermuda e uma camisa velha! No final, compomos o nosso figurino com menos de 5 reais!” – lembra o diretor.

Para a filmagem, Beto conseguiu uma câmera Éclair 16 mm de um amigo documentarista, o Celso Luccas. A câmera estava nova, mas não filmava já há um bom tempo. O diretor de fotografia, o Ruda (Rodolfo Ancona Lopez) fez um pequeno teste e começaram as filmagens. No meio do filme, as borrachas de vedação do magazine, que estavam ressecadas pela falta de uso, começaram a desmanchar. Neste momento o diretor, que é hipertenso, viu a importância de contar com um profissional de mão cheia como o Ruda. “Tudo parado e ele, atrás de uma lona, passando com a maior tranquilidade cola bonder na brava Éclair...” No final tudo deu certo, a câmera perdeu o sincronismo quando a parte do Othon, que é com som direto, já tinha acabado. Mais tarde a equipe ficou sabendo que a própria câmera era uma história que merecia um filme: ela fazia os cinejornais do regime do último xá do Irã, Mohamad Reza Pavlev e, ironia do destino, acabou vindo fazer “O Número” em Rondônia.


A respeito do trabalho do Othon Bastos, Beto conta que “como se diz brincando: um Othon Basta. O seu talento já era conhecido por todos, mas ele também nos encantou pela simpatia e generosidade, tanto é que, no ano seguinte, ele foi um dos homenageados do Cineamazônia pela sua força à nossa tentativa de desenvolver o audiovisual no Estado. A participação dele foi importantíssima para incentivar as produções fora do eixo Rio - São Paulo, e mostrar que é possível realizar filmes em locais com infra-estrutura precária para a produção audiovisual. E de nossa parte, nós tentamos superar as carências retribuindo com muito carinho aos profissionais que nos apóiam”.

Logo na primeira participação de “O Número”, no Cineceará, o Othon Bastos venceu como melhor ator. O filme também participou do II Fest Belém do Cinema Brasileiro, “mas a sua carreira poderia ter sido melhor, foi um pouco prejudicada pela minha falta de tempo e de recursos” – lamenta Beto Bertagna. Em 2005, “O Número” foi projetado com legendas no Brazil Cine Festival, em Gotemburgo, na Suécia e foi bem recebido pela platéia.

Sobre seu envolvimento com novos projetos cinematográficos, Beto conta que acabou de realizar o DOCTV “O Brasil que começa no rio...”, mostrando um pouco das cores, costumes, tradições e das dificuldades do povo ribeirinho do Vale do Guaporé na fronteira do Brasil com a Bolívia. Em abril de 2006, filmará a parte ficcional de um documentário em 35 mm sobre a vida do fotógrafo norte-americano Dana Merril, que registrou a construção da lendária Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. O filme já tem confirmado o ator Marcos Palmeira, e vai trazer depoimentos do escritor Manoel Rodrigues Ferreira e do fotógrafo Ari André, fundamentais para a compreensão da História, e será todo rodado em Rondônia.

Há ainda o projeto de um documentário sobre a vida de dois sujeitos que moram frente a frente na fronteira real do Rio Grande do Sul com o Uruguai, o arroio Chuí, lugar onde o diretor passava as minhas férias na infância e que quer revisitar. E, em 2007, Beto Bertagna deve partir para um longa baixíssimo-orçamento com roteiro do Alberto Lins Caldas que, no momento, está desaparecido em algum lugar ermo e remoto de Pernambuco, quiçá fazendo mais um tratamento do roteiro do filme que deverá chamar-se “Vitrines”.

CLIQUE AQUI PARA ASSISTIR AO FILME "O NÚMERO" E AOS OUTROS 10 TÍTULOS DO ACERVO CURTA PETROBRAS - CARTA MAIOR


Créditos da foto: Beto Bertagna e Othon Bastos durante as filmagens de "O Número"



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