Quinta-Feira, 22 de Junho

 

11/12/2013 00:00 - Copyleft

A "esquerda", o mapa e a montanha

Não há nada fixo ou programático, único, na esquerda para além da esperança e a busca da mudança. A esquerda é uma cartografia do futuro.


Francisco Carlos Teixeira (*)
marxism.org

Existem inúmeras formas, hoje, de se encarar “uma orientação de política de esquerda”.
Uma sociedade de massas, moderna e desigual, como a nossa, passando por uma profunda crise e por contradições que trincam as instituições, inclusive os partidos políticos, impõe um debate sobre o que é ser de esquerda.

Há, claro, aqueles que preferem não discutir, possuem, desde logo, uma verdade peremptória. Dizem, de saída, que isso acabou com a Queda do Muro de Berlin, em 1989. Pois é, mas não foi bem assim. Primeiro, o Muro não “caiu”, foi derrubado! E em segundo lugar, foi derrubado pelo movimento popular, que na Alemanha Oriental (DDR), já não aguentava mais a repressão política e a burocracia burra e brutal (socialismo real prussiano, nada fácil!) e se revoltou contra a ordem existente. É interessante notar, eu estava lá, que uma das últimas ondas repressivas de Berlin oriental foi acusar jovens dissidentes de... “vândalos”! Aqui, destacamos, desde logo, nosso ponto de partida: um mapa da esquerda hoje é um mapa do movimento, dos movimentos, da recusa do estabelecido. Da insatisfação!

Mas, voltemos aos argumentos de “morte da esquerda”: além daqueles que dizem que não mais há distinção, há aqueles que afirmam, muito pelo contrário, que existe, sim, uma distinção política e “esquerda” são aqueles que defenderam a União Soviética, Cuba, China Popular e que, ainda hoje, querem transformar o Brasil numa imensa Cuba... Estes, meio pancada das ideias, meio charlatães de blogs e com “puxadinhos” na grande imprensa, são cômicos, sem serem engraçados. Simplesmente precisam escolher pessoas em evidência para criticar, posto que como “satélites” não possuem luz (ou criatividade) própria. Estes veem “comunistas” em toda parte, seja por delírio, seja por má-fé e buscam na denúncia do outro (irmã gêmea da delação nas ditaduras) um sucesso rápido. Estes, mesmo sendo “pancada” ou pura estratégia de marketing para aparecer na cauda do cometa alheio, possuem um auditório de peso. Por que? Porque os interesses na paralisia das mudanças, na transformação da sociedade em um lugar melhor para todos, assusta e contraria interesses. A direita está sempre satisfeita!

[Há algumas semana atrás bateram no Papa Francisco por criticar o capitalismo, o materialismo e consumismo desenfreado “dos nossos dias”, coisa, aliás, repetida pelo Vaticano desde o Papa Leão XIII, em 1891!].

Assim, afastando os cômicos-sem graça, temos uma maré poderosa, normalmente encontrada na mídia empresarial, de negação de uma díade, de uma distinção, de esquerda e direita. Normalmente, a negação da distinção se dá no plano nacional, exclusivamente: enquanto nas páginas de blogs espinhentos, nos editoriais e nas páginas de “Opinião” nega-se a existência de uma díade direita versus esquerda, no noticiário internacional [Pois é, quanto mais longe melhor!] se escreve correntemente sobre governos e partidos de “direita”, “esquerda”, “extrema-direita”, “centro-esquerda” na Alemanha, Itália ou França... É isso, para os outros, pimenta! Para nós, refresco!

[Por sinal, na Alemanha, moderna e liberal-representativa foi criado, em 2007, um partido chamado “Die Linke”, “A Esquerda”, com explícito programa socialista. Nas eleições de 2013, alcançou 8.6% do conjunto dos votos nacionais, chegando em alguns “Länder” (estados), como Brandenburgo, a uma votação de mais de 26% dos votos... deveríamos mandar nossos cômicos-sem graça para Berlim avisar aqueles “atrasados” que “A Esquerda” acabou!].

Ora, desde sua constituição política durante a Revolução Francesa de 1789, a distinção entre esquerda e direita tornou-se uma marca do agir político, ao menos nos moldes da representação política em sociedades de massa de forte base industrial. Lá, naquela Paris revolucionária, os que sentavam à esquerda do grande salão da assembleia ( “A Convenção”), queriam a mudança; na direita do salão, sentavam-se os que achavam que a Revolução avançara demais, era preciso parar ou mesmo recuar, “retro-agir”, “re-agir”...
 
Nas cadeiras mais altas do salão, a chamada “A Montanha”, sentava-se a esquerda ainda mais radicalmente interessada na mudança e no meio, bem em baixo, sentavam-se aqueles que diziam não ter posição, não terem ideologias... Era  “A Planície”, a quem o povo de Paris, no mais das vezes, chamava de “Le Marais”, o pântano... Este “centrão” foi, ao final, o que levou a burguesia napoleônica ao poder.

Não há, assim, como negar a existência histórica de opostos, de choques e conflitos, no coração da história:  jacobinos e girondinos; de seguidores de “niveladores”, dos “cartistas” e das “sufragistas” britânicos, ou dos sociais-democratas alemães e, mais tarde, dos “espartaquistas” de Rosa Luxemburgo... Tudo isso era a “Esquerda”, em conflito com a conservação da ordem!

Naturalmente, para existir uma “esquerda”, precisaríamos de uma “direita”, tipo polo sul/polo norte ou yin/yang, como nos ensina o milenar taoísmo (atenção, atenção, amigos cômicos-sem graça: taoísmo, não maoísmo!]. É aí que a coisa complica. Na verdade, no nosso Brasil tropical ninguém quer ser de direita, ninguém é conservador, ninguém é contra o desenvolvimento e ampliação de direitos e de responsabilidades políticas ou sociais. Por isso mesmo, para não serem de direita, eles decretaram o fim da esquerda!

Ok, sejamos justos, há alguns cômicos-sem graça que se declaram de direita, pelo menos um deve ter, já que todos os outros são “liberais”. Mas, neste caso, a coisa é tão caricata, tão sem fundamento teórico ou charme – vou repetir: até o papa é acusado de comunista! – que chegamos no limite do mapa: não se trata mais de “direita”, mas sim, para além da direita, emerge o fascismo! Esse seria um outro caso, sobre o qual poderíamos nos debruçar: há uma direita, desde Edmund Burke (1729-1797), que mesmo se declarando antirrevolucionária (como na famosa frase: “Eu odeio Revoluções!”), são favoráveis aos parlamentos, partidos livres, movimentos sociais e eleições amplas. É o caso, por exemplo, de figuras como George Bush ou Álvaro Uribe. Preferiam dispensar tudo isso, mas aceitam a existência de sistemas liberais-representativos, mais ou menos democráticos.
 
No caso do “direitista” brasileiro – como os cômicos-sem graça da mídia empresarial ou o deputado-gendarme-prussiano do Rio de Janeiro, parte-se para o puro fascismo. Trata-se de tentar rodar a roda da história para trás, retroceder no tempo, voltar para uma situação quando os direitos eram restritos ou nulos – não são, assim, exatamente “de direita”, são só reacionários.
 
Estão, todos, na viela, no beco sem-saída da história.
 
Então, voltemos: a derrubada do Muro de Berlim não acabou com a esquerda. Na verdade, o fim do Muro libertou a esquerda, ou menos parte dela, de uma tremenda hipoteca mental e teórica: o socialismo real e sua pior manifestação, o stalinismo. Este, foi a direita do comunismo, foi o beco sem-saída da história que ruiu, nas mãos do povo de Berlim, com o Muro em 1989.
 
Havia, sempre houve, uma ampla esquerda, que jamais foi stalinista – e para falar toda a verdade, sequer foi marxista. Assim, havia socialistas utópicos, como Saint-Simon (1760-1725) ou Proudhon (1809-1865), anarquistas como Bakunin (1814-1876) ou Kropotkin (1842-1921), havia a esquerda cristã, como na tão odiada – pelos cômicos-sem graça -  Teologia da Libertação; havia, é há, uma esquerda anti-estatal e anti-partido, com Max Stirner (1806-1856), com sua existência transformada em revolta, cujos filhos, contidos pela cerca do marxismo no século XX, explodem hoje nas ruas de São Paulo e Rio como black blocs... Há o trotskismo, recusa imediata do stalinismo. Temos, ainda, uma esquerda existencialista, com Kierkgaard, Sartre e Camus e uma esquerda da fenomenologia com Merleau-Ponty... A esquerda é vária, rica, plural... E normalmente, culta!

[Um estudo da Universidade de Brock, em Ontário, Canadá, mostrou em 2012 que a média das pessoas de opiniões “de esquerda” eram mais cultas que as pessoas de opiniões “de direita”. Posições favoráveis ao racismo, homofobia, contra a igualdade social e racial e centradas em dogmas religiosos são mais fáceis de apreensão, peremptórias e excluem a possibilidade de debater, fazendo pessoas de pouca formação ou menos espertas mais seguras de si mesmas... Embora, certamente, também mais erradas!]

Assim, precisaríamos, para falar de esquerda hoje, dizer também o que é ser de direita hoje. Não queremos colocar todos no mesmo saco e transformar a posição política alguém – uma escolha legitima e natural, da qual todos tem direito! – em uma afronta, xingamento ou desqualificação. Se, para além do parênteses acima, as pessoas estiverem dispostas ao debate aberto. Os cômicos-sem graça, por exemplo, ofendem, acusam e sofrem de uma inveja desmedida. Buscam em pessoas de sucesso, do Papa até nossa querida Marilena Chauí, alvos de chacota e de publicidade gratuita. Assim, Chico Buarque, Caetano e mesmo Miriam Leitão (esta, em especial, por sua decidida posição antirracista e favorável ao sistema de cotas raciais) são tratados como “esquerdistas perigosos”.  Aí não dá... Ou será que dá? Discutir assim é difícil, falta argumentos e surgem ofensas, na maioria das vezes sem qualquer senso de humor. Discutimos, então, através de textos... como no atual exercício.
 
[Caetano, ao buscar meios de ajudar a família de Amarildo de Souza, morto sob tortura num prédio público por funcionários públicos com carros públicos e pagos por dinheiro público foi achincalhado como “esquerda caviar”. Onde está a ausência de debate e o ato peremptório? Ao atacar Caetano, o crítico “esquece” de discutir a tortura e as condições de vida e de morte nas favelas “pacificadas” pelas UPPs. Isso é ser de direita: atacar desqualificadoramente, com chacotas, alguém que faz um trabalho social e político e desviar o centro da discussão, no caso desagradável para os defensores da “ordem”, da tortura e do assassinato de pessoas em áreas periféricas do país por agentes públicos. Caetano não é problema, o problema é a violência! Quando o DEM – herança e frangalho dos partidos de direita que apoiaram e sustentaram a ditadura no Brasil - entra na justiça contra o Programa Universidade Para Todos e o sistema de cotas contido no ProUni, ele está procedendo como um partido de direita. O debate sobre cotas, que envolveu diversos setores da sociedade, pró e contra, é natural e democrático. Após sua aprovação, barrar na justiça o acesso de grupos secularmente marginalizados no ensino brasileiro é um ato de direita constituído por um partido que esteve no poder por duas décadas sem nada fazer pela melhoria da educação].


A direita, classicamente, está satisfeita com o mundo e acha que nada deve mudar.  Para parafrasear o papa, a direita está “estofada” pelo mundo atual, pelo presente e quer o fim de qualquer movimento, de qualquer mudança ou futuro. A direita, ao chegar na penúltima estação do trajeto, quer o fim da história. Este é o sentido maior da expressão “conservador”. O interesse da direita é manter a ordem existente e sustar quaisquer mudanças. A direita é, por natureza, conservadora.
 
Mas, claro, ela pode querer também mudanças. Quando a direita quer mudanças? Quando a sociedade avançou de alguma forma, em direções variadas, que não interessam e não são consideradas aceitáveis. Neste caso, a direita deixa de ser “conservadora” para buscar a mudança para uma condição anterior, tornando-se então “reacionária” e retrógada. “Reação”: reage (contra) uma ação, um movimento, uma mudança. Assim, mesmo quando a direita quer mudanças, são mudanças para o passado, para a ordem anterior, vista como “velhos bons tempos”. A direita teme o futuro, teme mudanças, odeia transformações. Por que? Porque sabe que o futuro é contra ela, não lhes será favorável e, acima de tudo, é incerto e mesmo desconhecido.
 
A direita padece de angústia perante o futuro.


Poderíamos, desta forma, pensar em uma direita liberal e conservadora, que aceita gerir o “estado de coisas” atual, e evitar que as coisas mudem ou mudem muito rapidamente. São assim os conservadores do governo britânico hoje ou os republicanos tradicionais americanos. Contudo, o “Tea Party”, no interior do Partido Republicano, é reacionária e retrógada. O “Tea Party” ou o Partido Popular Espanhol querem a volta a um passado, onde a ordem era “natural”, ou seja, imutável, muito provavelmente estabelecida por deus, por um deus muito particular, meio cego e completamente egoísta, satisfeito em salvar apenas uns poucos eleitos. Este passado pode ser uma utopia retrógada inventada, como a sociedade de pequenos proprietários livres e portadores de armas, do “Tea Party” americano (ocultando, claro, deste passado a existência da escravidão ou o massacre dos índios) ou um passado real, e mesmo brutal, como o saudosismo da Ditadura de Franco na Espanha pela liderança do Partido Popular.


Em suma, a direita é liberal, conservadora e/ou reacionária. Evidentemente, há uma dinâmica interna nisso, e é possível se passar de uma condição para outra em decorrência da própria dinâmica política e social. Mas, liberais e conservadores aceitam as regras, mesmo quando não querem mudança e negociam, no limite, pontos e programas. Reacionários e retrógados choram um mundo perdido (onde somente eles e suas famílias possuíam privilégios de classe e lamentam amargamente a “invasão” dos espaços públicos pelos “bárbaros”, “despreparados”, “por essa gente” ou mesmo pelos “vândalos”).

Da mesma forma, como afirmamos acima, a esquerda é, ela também, múltipla. Contudo, um ponto é comum, em exata oposição à direita: a esquerda acredita que a sociedade se move, se transforma, se aprimora e que o futuro será sempre melhor. Esquerda é movimento, direita é imobilidade na ordem.

Mas, claro, o que move a sociedade é bastante diferente, variando imensamente no âmbito da esquerda. Uma distinção clara, imediata, é sobre esse “motor” das mudanças: evolução, aprimoramento, revolução... Como se movem as sociedades, já que elas se movem? Se a resposta for o conflito, a luta e os choques (as diversas formas de “Klassenkampfen”, de Marx), estamos no campo da esquerda clássica, de uma forma ou outra tocada pelas vertentes seminais do anarquismo e do marxismo. Se, acreditamos que a sociedade evolui, avança, por formas de compromisso e debate, como queria Eduard Bernstein(1850-1932), “revisando” Marx contra Rosa Luxemburgo, estamos no campo de uma esquerda social-democrata e reformista. Se, ainda, estivermos perante pessoas e ideias que acreditam que ações no campo, tão somente, da educação, da civilidade e da solidariedade mudam a sociedade, encontramos formas variadas de humanitarismo, filantropismo ou solidariedade, que buscam mudar aspectos da sociedade na esperança que por este caminho o conjunto social se mova.

São, todas estas, e outras, as formas de encarar a mudança na sociedade. Num texto clássico, e polêmico, Marx afirmava a mudança, e a resistência à mudança, em todos os contextos da sociedade: na economia, na religião, no direito, na distribuição do poder e até no interior da família, sem determinar uma “instância” ou “nível” central para a ocorrência de mudanças...  Ou seja, nos “Manuscritos Econômico-filosóficos”, de 1844, Marx diz que tudo muda, em todos os níveis e simultaneamente...


Perguntar se ainda existe uma díade esquerda/direita ou se, mesmo, ainda há “esquerda” (já que a direita decretou o fim da “direita” para melhor ser de “direita”) é perguntar se ainda acreditamos na mudança, na sua necessidade e na construção continua de um futuro melhor e mais justo. Quem acreditar na mudança e no futuro (e não na conservação e na “re”-ação), estará no campo da esquerda. Mas, o que é o campo da esquerda? Como a dama da ópera “Rigoletto”, a mudança é, ela também, móvel. “La Donna è Mobile”, essa grande “dona” a quem se quer negar a existência.
 
Não há, este é o ponto central, nada fixo ou programático, único, na esquerda para além da esperança e a busca da mudança.

Não existe uma essencialidade de esquerda, existe, sim, a busca e a aceitação da mudança, que a sociedade se transforma e que o futuro será sempre melhor se quisermos lutar por isso. Assim, não há dogmas, há disposição para o novo. A esquerda hoje é uma topológica (de topoi, em grego, “lugares”) da mudança. Num mapa do futuro, são picos altos de serras que devem ser escalados e lá do alto ver outras e outras montanhas a serem conquistadas. Assim, a desigualdade social, a educação para todos, as condições dignas de vida (moradia, transporte, saúde, etc.), o fim da violência policial, a liberdade ampla de uso do corpo e de opções várias... são todas montanhas a serem escaladas. A esquerda é uma cartografia do futuro.

Lá em baixo, na planície bordeando o pântano do marasmo, ficarão aqueles sem alma para se aventurar montanhas acima.

* Francisco Carlos Teixeira é professor da UFRJ e do IUPERJ.

Créditos da foto: marxism.org



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