Domingo, 04 de Dezembro

 

06/10/2014 00:00 - Copyleft

Aécio, Bolsonaro, Feliciano: este é o legado de junho?

Uma parte importante da voz que saiu das urnas no domingo expressa um moralismo reacionário e uma reação conservadora sem precedentes em décadas.


Katarina Peixoto
Arquivo


Há dois pontos de partida para entender a decisão deste primeiro turno nacional, encerrado ontem. O primeiro é junho de 2013 e o segundo, o Congresso Nacional eleito. Toda captura de flutuações e acidentes eleitorais não pode deixar de ser sobrepujada pelo fato de que a decisão de domingo (5) contém o moralismo reacionário e uma reação conservadora sem precedentes, pela via eleitoral, em décadas. O Rio, para ficar num exemplo, escolheu Bolsonaro como o grande votado para a Câmara de Deputados. O que o torna o grande votado é o seu caráter moralizador: supostamente, ele está fora dessa "sujeira toda". Em São Paulo, a versão  moralizadora é evangélica, mesmo, sem intermediações classistas no armário: Marcos Feliciano e Russomano. Evangélicos e televisão, além do palhaço Tiririca, que não é pior que nenhum deles, embora tenha sido eleito pelo eleitor que “quer dar o troco”. O troco a que? “A essa sujeira toda”.

A resposta veio com um Congresso mais à direita: mais conservador e mais evangélico. Não há novidade histórica nisso. A todos os movimentos desestabilizadores mobilizados com ajuda de redes sociais, dos últimos anos, no mundo, seguiram-se reações autoritárias, conservadoras e regressivas socialmente. O que se passa é que a resposta à demanda moral é e sempre foi esta: o abrigo seguro da zona de conforto perceptiva representado pela estabilidade prometida da direita. Esse truque moralista da direita tornou-se possível, agora, com a legitimação que as grandes manifestações de junho lhe propiciaram. Poderia ser apenas uma piada ter Aécio Neves reivindicando o “legado” de junho.  O problema é a legitimidade com que ele faz isso: trata-se de tomar para si a reclamação contra "essa sujeira toda".

O moralismo é uma expressão reativa de instabilidade social e desagregação política. O seu truque, embora muito bem calçado na mídia oligárquico-familiar que, mais uma vez, conseguiu tirar uma vitória no primeiro turno para o projeto popular, agora está mais robusto e animado do que nunca. Não têm um carrancudo ou uma carrancuda ressentidos, como candidatos, mas um moço bonito, bem nascido e simpático. Um rapaz que não é exatamente do ramo da Política, mas das oligarquias. Nunca precisou trabalhar para pagar uma conta, nem governar para ter aprovação.  A sua candidatura arregimenta a direita de maneira veloz e consistente, com a gigantesca propaganda midiática que lhe é aliada, desde sempre. Como derrotar isso?

A resposta sopra de Minas Gerais e da superioridade moral da Dilma. Para se chegar nessa resposta é preciso enquadrar o debate eleitoral, pautá-lo e não se render ou entrar no jogo do que nos jogam no colo. É muito revelador da indigência política da oposição brasileira à transformação dos últimos dez anos resumir-se a um único tema: a corrupção. Então, acabar com a fome endêmica não merece reconhecimento, nem termos em curso o maior programa de habitação popular da história do país, nem termos, como temos, hoje, de maneira inédita, um quadro de pleno emprego, nacional, numa democracia, nesta gigantesca crise mundial.

Não importam as conquistas da Petrobras, nem as obras em infraestrutura. O Brasil Sem Miséria, a valorização do salário mínimo e o PRONATEC tampouco são questionados. As políticas de cotas, a política de investimentos públicos e de crédito via bancos públicos. Tudo isso é “corrupção”. Por que? Se tudo isso não passasse de corrupção, esses programas teriam os resultados que tiveram e teriam produzido o impacto que produziram? Por que razão não apresentam alternativas, outras propostas ou programa, para disputar o voto e a confiança do eleitor? Em que se alicerça a confiança requerida pelo candidato do PSDB, para pedir o voto dos brasileiros?

O que ele teria a oferecer está baseado no seu mandato como senador ausente, morador do Rio de Janeiro, ou como ex-governador de Minas Gerais? Seria possível Aécio tecer alguma crítica ou oferecer algum programa de governo alternativo, sem depender da Tevê  Globo, dos seus colunistas no rádio e nos seus jornais, e da Editora Abril e do Grupo Frias, em São Paulo?

O que Aécio pensa do nordeste brasileiro e da transposição do São Francisco? O que ele pretende fazer com a ferrovia transnordestina? Qual a opinião do candidato sobre o sistema de ferrovias e hidrovias em curso e, claro, qual a sua política para o setor energético, vale dizer, Petrobras?

Qual o programa do candidato para fazer o Brasil voltar a crescer nos patamares que o PT fez? Qual o balanço que Aécio faz da educação, do ensino superior e da pesquisa produzida hoje, no país?

Qual o balanço que o candidato do PSDB faz da maior experiência de redução de desigualdades do mundo, neste intervalo de tempo, na história moderna?

O candidato da oposição foi julgado pelo seu estado, um dos maiores colégios eleitorais do país, e condenado, politicamente, pelos maus serviços prestados. O que o mantém e eleva é, uma vez mais, a mídia oligárquica e a direita rearranjada, com seus odiadores de estimação, em alta velocidade.

Pouco importa se ele só apresentou o seu programa de governo na véspera do primeiro turno: ele não precisa de um programa de governo, porque quem precisa disso é quem está submetido ao debate. Ele foi ungido midiaticamente para limpar o país. A esse tipo de escárnio não se responde aceitando as suas acusações nem se submetendo ao seu jogo. Vence-se esse escárnio com seriedade, respeito, memória e sentido histórico.

Não tem essa de que o que o PT fez foi dar continuidade ao que o PSDB fez. Os projetos são diferentes. Para deixar essa distinção às claras, é fundamental situar historicamente as escolhas que foram feitas. O Brasil Sem Miséria é um programa muito menos custoso do que qualquer entrega de patrimônio público já feita pelo PSDB e muito menos custoso do que a remessa de dinheiro via taxação de juros ao sistema financeiro, que foi uma regra aceita pelo PSDB, com galhardia, e pelo PT, com conivência.

Todas e cada uma das conquistas do país, da última década, devem-se a decisões de natureza Política. Reivindicar a dignidade da Política e defender a representatividade é a única maneira de combater o fascismo que nutre a acusação moralista. Se essas coisas não são concretas, cabe mostrar e estabelecer o seu elo de concretização: decidimos enfrentar essa indignidade, que é a fome, abrimos outras possibilidades, para o próximo passo, com o PRONATEC, valorizamos a agricultura familiar, o conteúdo nacional, a economia interna, o patrimônio público.

O ódio moralista é um ódio contra a ideia mesma de algo público e estatal; é a recusa cevada em doses cavalares de denúncias criminalizantes, ad nauseam, de que a solidariedade, a generosidade e o reconhecimento são truques. É esta repulsa que está na origem da defesa das privatizações e também na denegação do caráter civilizatório da transformação ocorrida no país. Sabemos de tudo isso, aprendemos e podemos olhar para o mundo e ver o que fizeram e no que deu o que fizeram (mais de 60 milhões de desempregados nos EUA e na União Europeia, sem contar a regressão brutal nos índices de desigualdade nessas regiões, à beira da depressão econômica e sem prognóstico que não um quadro mais sombrio). A América Latina é hoje, graças aos governos a contravento, da última década, um mercado mais robusto, mais educado, mais estável, do que era e do que estão zonas tradicionais do capitalismo; não é preciso muito esforço para se inferir, daí, o caráter estratégico do Brasil (vai sem dizer um detalhe: o Pré-Sal).

A resposta sopra em Minas, no nordeste, na memória e na Política. E no ataque, em contrapartida, à hipocrisia, ao cinismo, ao autoritarismo e ao caráter oligárquico do projeto representado por Aécio. Foi porque o Brasil rejeitou esse projeto que conseguiu incluir dezenas de milhões, sair do mapa da fome e ter pleno emprego. Foi porque o povo tirou o PSDB da centralidade das decisões políticas sobre o rumo do país que o Brasil chegou aonde chegou, e não o contrário: não somos nós que devemos ao PSDB as grandes conquistas alcançadas. Essas conquistas, todas elas, derivam das escolhas antagônicas àquelas por eles defendidas.

Por fim, sobre o caráter da Dilma. É preciso apresentar a sua “cepa” política: o Brasil tem, talvez pela primeira vez na sua história, uma estadista, republicana e democrática, à frente do país. Essas características estão fincadas na história do trabalhismo, da resistência à ditadura e da construção da democracia por dentro das gestões democráticas e populares. É uma trajetória de compromisso com a democratização do estado e universalização de direitos. É a história da construção mesma do Estado nacional, como experiência democrática, popular e nacionalista.

De nada adianta cantar Bob Dylan em lamento. A resposta não está soprando no vento.









Créditos da foto: Arquivo



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