Segunda-Feira, 24 de Julho

 

03/06/2015 00:00 - Copyleft

O ocaso de Marta

Marta Suplicy nunca soube o significado da palavra decisão coletiva. E agora joga pra platéia, negociando seu futuro político com siglas de aluguel.


Ramon Szermeta, Eduardo Valdoski, Jaime Cabral
Pablo Valadares / Agência Senado

O ocaso é o momento que antecede o anoitecer. É o último brilho do sol, antes da escuridão. Como fenômeno natural é romântico e inspirador. Mas do ponto de vista pessoal, deve ser desesperador para alguns. Parece que a senadora Marta Teresa Smith de Vasconcellos vive um desses momentos. 
 
Ascensão
 
Marta tem uma história interessante e respeitável. Feminista, fundadora do PT, militante das causas democráticas, quebrou tabus e chocou o conservadorismo paulistano e brasileiro quando quase ninguém tinham coragem. Mesmo sendo de um meio abastado, se colocou desde o princípio ao lado dos mais pobres, dos trabalhadores. Na televisão, em plenos anos 1980, discutia abertamente os direitos sexuais e reprodutivos da mulher. Nos anos 1990 foi deputada influente e atuante. O reconhecimento veio como candidata a governadora pelo PT em 1998. Lula a pegou pelo braço e convenceu o partido disso. O seu desempenho e do partido foram tão bons que ela só ficou de fora do segundo turno por um triz, graças às clássicas manipulações da nossa elite, através de falsas pesquisas eleitorais que geraram um voto útil em Mário Covas.
 
Apogeu


A recompensa veio dois anos depois. Candidata pelo PT de São Paulo, ganha a prefeitura derrotando Paulo Maluf, depois de 8 caóticos anos de gestão Maluf/Pitta, numa cidade atolada em escândalos de corrupção e sufocada do ponto de vista social. A trágica situação municipal coincidia com uma crise nacional provocada pelo (des)governo FHC: crise, desemprego, movimentos sociais nas ruas, em um cenário que permitiu ao PT eleger o maior número de prefeituras de sua história nas eleições municipais de 2000. 
 
Marta também vence a eleição e conduz uma gestão que não apenas produz importantes mudanças na cidade, como cria marcas sociais para o PT em nível nacional.  Em vários aspectos, sua administração foi precursora de políticas públicas que seriam aprofundadas no governo Lula (fortes programas de distribuição de renda, investimentos em educação, ajustes fiscais, importantes mudanças produzidas na área de transporte), e também das consequências políticas dessas inversões de prioridades no orçamento, a mais evidente, divisão centro x periferia / ricos x pobres. 
 
Durante sua gestão a prefeita não perdeu tempo. Montou seu grupo político que hegemonizou o PT paulistano. Os petistas críticos ao seu governo não tiveram moleza. O partido perdeu autonomia, em nome do governismo cego, da adesão automática, e também nisso ela antecipou aspectos do lulismo. O grupo de Marta cresceu e se fortaleceu. Alçou voos estaduais e nacionais. A capital era pouco. Lula ganha em 2002 e novos ventos sopram. Marta se mostra satisfeita com a escolha de Henrique Meirelles, ex-presidente do Bank Boston, recém eleito deputado pelo PSDB de Goiás, para o Banco Central. Muitos petistas e simpatizantes não concordaram com a indicação, alguns até se sentiram traídos, mas Marta não lembrava deles naquela época. Ademais, ela tinha ótima relação com o ministro da Fazenda, Antônio Palocci, responsável pelo aprofundamento de ortodoxia econômica neoliberal e homem do governo que transitava pelo mercado financeiro. Ela é defensora pública dos ajustes econômicos, ditos necessários. Em 2004, a campanha pela reeleição começa promissora, e quem sabe passos maiores a serem dados no futuro? Mas a política sempre ensina. 
 
Queda
 
Depois da primeira gestão do PT em São Paulo, com Luiza Erundina eleita em 1988, a segunda com Marta foi a que mais produziu avanços sociais inquestionáveis. Cada uma a sua conjuntura. Porém, uma série de erros políticos de sua campanha somados a uma sórdida cruzada da oposição e da mídia contra uma mulher livre para fazer suas escolhas, firme nas suas opiniões e que tentou implementar a progressividade de impostos na cidade, conseguiu derrotar o projeto que estava em curso em SP. A campanha da reeleição de Marta foi assustadora para muitos petistas. A disseminação de cabos eleitorais pagos em detrimento das instâncias e da militância voluntária e politizada, os carregadores de bandeiras e "visibilidade" nas ruas que substituem o debate político organizado, a marquetagem no lugar do programa. São de fato novos tempos no PT. A cereja do bolo foi que pela primeira vez na história do PT um candidato do partido se viu acompanhado por uma presença muito estranha ao petismo na disputa do segundo turno, o ex-adversário político Paulo Sallim Maluf, maior inimigo do projeto democrático do PT, agora figurando nos materiais de campanha da Prefeita. Ela é sem dúvida uma pessoa precursora e visionária. Nada adianta, e ela perde a eleição para José Serra do PSDB, com o Gilberto Kassab, futuro algoz da senadora, de vice. 
 
Marta perde a eleição, é rejeitada pelo povo paulistano, e o PT perde junto parte de sua identidade. Todavia, pra que desistir? Em 2006, a todo custo, Marta se joga numa disputa contra Mercadante com o objetivo de ser candidata a governadora. Dessa vez é a militância do PT que rejeita Marta. Quase todas as lideranças públicas do PT se unem contra ela. A fatura para apoiar Mercadante é cara. Marta vai para o Ministério do Turismo, onde tem passagem discreta. Exceto por um ou outro episódio midiático. E dai? o que importa é que tem mais eleição chegando. E eleição é com ela mesma. Dessa vez quem impõe sua candidatura é Marta. Ela pode. A eleição, uma das piores da história da cidade, transcorre sem grandes assuntos, termina com a reeleição de Kassab, o homem que entrega a cidade para o mercado imobiliário e as 32 subprefeituras para os coronéis da PM. Marta começa na frente, mas sua rejeição é tão alta que a queda livre é inevitável. Todos os ingredientes que levaram a derrota do PT em 2004 estão de volta e Marta, já desesperada, uma histórica defensora do movimento LGBT, faz perguntas dúbias no seu horário de televisão sobre a vida íntima do seu oponente. Além de perder na urna e ser novamente rejeitada, Marta rasga sua própria reputação de defensora dos direitos civis, e faz todos seus apoiadores passarem vergonha. Mais uma campanha que ajuda a desfigurar nosso PT velho de guerra. 
 
O próximo capítulo? Ora, em 2010 tem mais eleição. E eleição é com ela mesma. Dessa vez uma coisa mais compatível, o Senado Federal. Já que não dá pra ser presidenta, o negócio é a Câmara dos Lordes. Eram duas vagas para senador, e ela alcançou espantosos 22%. Não ganha, não é totalmente rejeitada, mas leva o patamar histórico do PT lá pra baixo. Os petistas "fazem" a campanha dela conforme o estômago permite. 
 
A queda da queda    
 
Agora com um mandato de oito anos garantido, o negócio é atrapalhar quem puder. O poço não tem fim. Mais uma eleição se aproxima. E eleição é com ela mesma. 2012, o PT necessita urgentemente de novos quadros para disputar a estratégica eleição da capital paulista. O então Ministro da Educação, Fernando Haddad, é visto por muitos como o mais preparado para a disputa. Tem um cabo eleitoral de peso, o ex-presidente Lula. O PT paulistano, ainda um pouco contaminado pelos sombrios tempos de domínio “martista”, apresenta resistência. Felizmente é conversando que as pessoas se entendem, e o partido assume rapidamente a candidatura sugerida por Lula. 
 
A senadora não. Ela se nega. “- Como assim a escolhida não fui eu?” Já que a primeira gestão de Marta/PT é muito exitosa em matéria de política para as periferias e depois de oito anos pouco se avançou com Kassab, ela se sente a dona da perifa. Talvez muita convivência com antigos adversários a fez adquirir hábitos e visões similares aos da nossa elite. Nós petistas sabemos que a periferia não tem dono, e o presidente Lula entra de cabeça na parada. Uma campanha marcada por um programa político qualificado e por uma coordenação que conseguiu unificar a diversidade do PT e ao mesmo tempo envolver não apenas a militância como também muita juventude e gente animada que contribuiu solidariamente com o projeto construído por diversas cabeças para sintonizar a cidade de São Paulo com as mudanças que vinham ocorrendo no país.
 
Pra entrar numa campanha tão bonita e vitoriosa como essa Marta cobrou e todo mundo viu. A fatura para apoiar Haddad é cara. Ministério da Cultura. Haddad e o PT ganham inspirando a cidade a produzir coisas novas. Marta ganha um espaço só dela. Passa pelo ministério da cultura, discretamente, exceto por um ou outro fato midiático. Consegue sair pela porta dos fundos do governo, conspirando em público contra a presidenta, usando argumentos chulos da oposição. É tanto vexame que a permanência no partido que ela ajudou a fundar 35 anos atrás é insustentável. 
 
Triste fim de uma morte anunciada 
 
Na transição do primeiro para o segundo mandato de Dilma ela tem que aparecer. Não há limites para sua ambição pessoal, não há mais projeto coletivo. O seu lema é: “se eu não jogo, ninguém joga”. A coisa é tão ridícula, que a obsessão pela prefeitura aparenta ares de missão divina, custe a vergonha pública que custar. 
 
Como já vimos, a senadora não tem problemas com ortodoxias econômicas, nem com composições ecléticas que ela ajudou a instituir no PT. Em 2014 o governo federal fez superávit zero. Isso significa menos dinheiro pra roda financeira e mais dinheiro pra o país. O que Marta disse sobre isso? Marta exige que sejamos transparentes com o mercado financeiro. O que é isso? Transparência deve ser com a população, a cidadania. O povo que deve mandar na política, e não só no momento das eleições que ela tanto gosta. A senadora vem escrevendo artigos na Folha de São Paulo que são obras primas de como não fazer política, pois ela é incapaz de discutir uma medida concreta e ajudar a elevar o nível do debate político. Ela joga com a desinformação e o terrorismo, exatamente como já fizeram muitas vezes contra ela. Marta Teresa Smith de Vasconcellos se transforma numa reprodutora do esgoto midiático. 
 
No PT ela nunca soube o significado da palavra instância ou decisão coletiva. Mas agora joga pra platéia. Se o PT não tivesse perdido eleições seguidas em São Paulo (apoiados por boa parte do partido em vários momentos, diga-se de passagem) talvez não tivéssemos cobras criadas como Gilberto Kassab. Agora, quem se diz tão preocupada com a economia, a luz, o desemprego e a falta de confiança do mercado no governo federal, está na verdade negociando seu futuro político e pessoal com as dezenas de siglas de aluguel e barganhando desavergonhosamente com quem oferecer mais. E ainda acha, moderna que é, que em pleno século XXI, pode enganar alguém, fazendo o jogo da velha política conservadora brasileira? Não é novidade nenhuma na história pessoas que gritam para esquerda se jogando em seguida no colo da direita.

 

Ramon Szermeta é ex-secretário estadual da JPT/SP (2001-08)

 

Eduardo Valdoski é ex-secretário adjunto nacional da JPT (2006-08) e municipal da JPT da cidade de São Paulo (2003-05)

 

Jaime Cabral Filho é ex-secretário municipal da JPT da cidade de São Paulo (1999-03)

 

Créditos da foto: Pablo Valadares / Agência Senado



Siga-nos no Facebook

Cadastro

Revista Digital Carta Maior

Saul Leblon

Leia Mais

PARCERIAS