Quarta-Feira, 20 de Agosto

 

23/04/2012 - Copyleft

Sobre a corrupção


Tarso Genro
Tarso Genro

Ao contrário do que torcem - e em parte patrocinam significativos setores da mídia - não está se abrindo uma crise com a instalação da CPI sobre a possível rede criminosa do contraventor Cachoeira. Abre-se, sim, uma extraordinária oportunidade de investigar a fundo, não só um caso concreto, mas os métodos, a cultura, a simbiose (às vezes espontânea e no mais das vezes deliberada), entre o sistema político, o Estado e as organizações criminosas politizadas. Estas, como já está provado, não só interferem na pauta administrativa dos governos, mas também na pauta política dos partidos e podem mancomunar-se com órgãos de imprensa para transitar, ou interesses de grupos econômicos -criminosos ou não- ou interesses dos diferentes partidos aos quais estes órgão são simpáticos.

Para que esta oportunidade seja aproveitada é necessário, porém, que a CPI tenha a predominância de parlamentares que não tenham medo. Não tenham medo de que o seu passado seja revelado - um passado complicado fragilizaria o resultado da CPI -, não tenham medo de ser achincalhados pela imprensa, pois à medida que contrariarem os interesses que ela defende serão ridicularizados por algum motivo ou atacados na sua honradez. Não tenham medo, sobretudo, de encontrar algum resíduo de envolvimento seu, na teia de interesses, manipulada pelo grupo ora apontado como criminoso.

Uma parte da esquerda, na defensiva em função do cerco a que foi submetida principalmente no primeiro governo do Presidente Lula, convenceu-se que as denúncias feitas pela imprensa não passavam de montagens para nos desgastar. Ora, é razoável supor que muitas denúncias são forjadas (em função de brigas entre empreiteiras, por exemplo, ou para desmoralizar lideranças que são importantes para os governos), mas tomar as denúncias como produto de uma conspiração é errado. É deixar de lado que o estado brasileiro, historicamente cartorial, bacharelesco, barroco nos seus procedimentos e forjado sob o patrocínio do nosso liberalismo pouco republicano, tem um sistema político-eleitoral e partidário, totalmente estimulante aos desvios de conduta e às condutas que propiciam a corrupção.

O uso que a mídia faz dos eventos de corrupção, para tentar destruir o PT e a esquerda é, na verdade, um elemento da luta política por projetos diferentes de estado e de democracia. São diferentes concepções de republicanismo que estão em jogo, entre um republicanismo elitista e “globalizado” pelo capital financeiro e um republicanismo plebeu, participativo e aberto aos movimentos dos “de baixo”. Este, considera urgente a redução das desigualdades sociais e regionais, mesmo que isso se choque contra as receitas dos FMI e do Banco Central Europeu: um republicanismo do Consenso de Washington e um republicanismo do anti-Consenso de Washington, é o que está em jogo.

O fato, porém, da corrupção ser “usada” pela mídia, nas suas campanhas anti-esquerda, não quer dizer que ela não exista, inclusive no nosso meio. Então, o que se trata, não é de "amaciar" os fatos, mas de disputar o seu “uso” - o tratamento político dos fatos - para fortalecer uma das duas principais concepções de República que caracterizam o grande embate político nacional na atualidade. O “aceite” deste embate político tem um terreno fértil na CPI, em instalação, e a esquerda brasileira poderá agora, se tiver uma estratégia unitária adequada, amalgamar um conjunto de forças em torno dos seus propósitos republicanos e democráticos.

A atual CPI, ao que tudo indica, vai se debruçar sobre um sofisticado sistema duplamente criminoso: ele promove diretamente, de um lado, a apropriação de recursos públicos para fruição de grupos privados criminosos (através da corrupção) e, de outra parte, promove a deformação ainda maior do sistema político (através de criação de agendas políticas), para cooptar pessoas, vincular mandatos ao crime e, também, certamente, financiar campanhas eleitorais. Se de tudo que está sendo publicado 50% for verdadeiro trata-se de um patamar de organização superior da corrupção, que já adquire um estatuto diferenciado. Nele, o crime e a política não apenas interferem-se, reciprocamente, mas já compõem um todo único, com alto grau de organicidade e sofisticação.

O pior que pode acontecer é que a condução da CPI não permita investigações profundas e que seus membros, eventualmente, cortejem mais os holofotes do que a busca da verdade, ou que ocorram acordos para “flexibilizar” resultados, por realismo eleitoral. Nesta hipótese, ficarão fortalecidos aqueles que hoje estão empenhados em desgastar a esfera da política, que significa relativizar, cada vez mais, a força das instituições do estado e o sentido republicano da nossa democracia.

Este serviço, aliás, já está sendo feito pela oposição de direita ao governo Dilma, pois já conseguiram semear a informação que o governo “está preocupado” com os resultados da CPI. A oposição demo-tucana faz isso com objetivos muitos claros: para que todos esqueçam as raízes partidárias profundas, já visíveis, neste escândalo de repercussão mundial, mas que também é uma boa oportunidade de virada republicana na democracia brasileira.

(*) Tarso Genro é governador do Estado do Rio Grande do Sul.





Luiz Müller - 29/04/2012
O que me assusta, é que mesmo intelectuais do porte do Tarso Genro não verbalizem a necessidade da Reforma Política, única forma de "limpar a área" de uma vez por todas. A CPI possibilita o debate, mas esta entregue nas mãos de um congresso que "bate cartão" nas empreiteiras e empresas que financiam suas campanhas. Uma CPI destas tem limite, e o limite é pegar os bodes expiatórios que serão colocados a disposição para srem levados ao cadafalço, e depois tudo segue adiante. Só fim do financiamento privado de campanha, o fim das tais emendas parlamentares, o voto em lista, o fortalecimento dos partidos em detrimento dos interesses individuais de parlamentares, é que farão uma transformação profunda. Mas esta não virá deste congresso, títere dos interesses dos financiadores de campanha, mas sim de uma Constituinte, Livre, Soberana e Exclusiva.


Vladimir Silva Goldbaum - 28/04/2012
Considero que isto deve ser investigado, independentemente de os réus serem de esquerda ou de direita, pois a tentativa de desmoralizar o aparato político, e conseqüentemente a democracia, é muito grande no Brasil.


Marcia Eloy - 26/04/2012
Acho que a maior oportunidade desta CPI é entrar no setor privado, porque a mídia sempre quis desmoralizar o setor público e passar a idéia que só as companhias privadas sabem administrar, aí está uma oportunidade de mostrar o interior de uma companhia privada. como ela age, quais os meios que utiliza e quais os seus verdadeiros fins.


Ivan - 24/04/2012
Boa reflexão! Especialmente ao apontar que a mídia haverá de desestabilizar a CPI se esta ameaçar expor a hipocrisia reinante no círculo (ou circo) midiático no qual operam parcela considerável da classe político-empresarial.


sousa primo - 24/04/2012
Belo texto , temos que ter a coragem em decifrar o diagnostico . Sendo ele benefico ou nao ao conjunto . Mas nao o sei o porque da TIMIDEZ da Esquerda, uma vez que a mesma tenha o apoio do povo, a DIREITA FAMINTA, sempre atacam de forma brutal . Devemos buscar a coragem de encarar e lutar por nossos filhos , netos e geracoes . Na minha MINAS GERAIS, o grupo de DIREITA que comanda a adminitracao do Estado completa 30anos de poder e aqui eles agem de forma cruel , irresponsavel e fria. Aqui em minas temos +ou- 346.000 criancas e jovens sem direito a Escola e agora pra inovar a metodologia de ensino as salas de aulas das escolas de Minas abrigam 4 series diferentes com um professor e com um tempo de 4:30(quatro horas e meia) .


Ricardo - 23/04/2012
Excelente. Corrupção tem que ser denunciada e investigada, seja de esquerda seja de direita.

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