Segunda-Feira, 28 de Julho
Hora a Hora: 

18/01/2014 00:00 - Copyleft

Quantos sábados o Iguatemi aguentaria fechado?

Há 57 anos uma negra chamada Rosa Parks deu um rolezinho sobre as prerrogativas dos brancos no transporte coletivo de Montgomey, nos EUA.

por: Saul Leblon



O Museu Henry Ford, em Detroit, nos EUA, guarda inúmeras relíquias  da história norte-americana sobre rodas.

O veículo no qual  Kennedy foi baleado  está lá.

Gigantescas locomotivas  que desbravaram a expansão ferroviária do país no século XIX ilustram em toneladas de ferro e aço  o sentido da expressão revolução metal-mecânica.

Perto delas os esqueléticos Fords-bigode que deram origem à indústria automobilística, de que Detroit foi a capital um dia, parecem moscas.

O museu abriga  também um centenário ônibus da ‎ National City Lines, de número 2857, um GM com o número  1132, que fazia a linha da Cleveland Avenue na cidade de Montgomery, no Alabama,  em  1 de dezembro de 1955.

A ocupação de um assento  naquele ônibus  mudaria  a história dos direitos civis nos EUA promovendo um salto na luta pela igualdade  entre negros e brancos no país.

O verdadeiro símbolo do episódio não é o velho GM, mas a costureira e ativista dos direitos dos negros, Rosa Park (1923-2005) que  naquela noite se recusou   a ceder o lugar a um branco.

Rosa tinha 40 quando desafiou a física do preconceito no Alabama dos anos  50, segundo a qual  brancos e negros não poderiam usufruir coletivamente do mesmo espaço, ao mesmo tempo.

Rosa Parks viveria mais 50 anos para contar e recontar esse rolezinho sobre as prerrogativas dos brancos , que transformaria  o velho GM em um centro de peregrinação política.

O último presidente a sentar-se no mesmo banco do qual ela só saiu presa  foi Barak Obama.

Em 2012 depois de alguns segundo em silencio no mesmo lugar, ele disse: ‘É preciso um gesto de coragem das pessoas comuns para mudar a história’.

Rosa Parks era uma pessoa comum até dizer basta a uma regra sagrada  da supremacia branca nos EUA.

Em pleno boom de crescimento do pós-guerra, quando  negros se integravam ao mercado de trabalho e de consumo norte-americano, eles não dispunham de espaço equivalente nem no plano político, nem nos espaços públicos, como o interior de um veículo de passageiros.

No Alabama os bancos da frente dos ônibus eram exclusivos dos brancos;  os do fundo destinavam-se  aos negros.

Detalhes evitavam o contato entre as peles de cores distintas: os negros compravam seu bilhete ingressando pela porta da frente, mas deveriam descer e embarcar pela do fundo.

À medida  em que os assentos da frente se esgotavam  os negros deveriam  ceder seu lugar a um novo passageiro branco que embarcasse no trajeto.

Rosa Parks estava fisicamente exausta  aquela noite  e há muitos anos cansada  da desigualdade que  humilhava sua gente.

Ela recusou a ordem do motorista e  não cedeu o lugar mesmo ameaçada. Sua prisão  gerou um boicote maciço dos negros de Montgomery.

Durante longos meses eles  que se recusaram a utilizar o transporte coletivo da cidade provocando atrasos nos locais de trabalho e prejuízos às empresas de transporte.

Milhões de panfletos explicativos  seriam distribuídos diariamente; de forma pacífica,  grupos de ativistas vasculhavam os pontos de ônibus da cidade para convencer  negros a aderi ao boicote.

Quase um ano depois  a lei da segregação dentro dos  ônibus foi extinta.

Neste sábado, um dos shoppings mais luxuosos de SP , o Iguatemi JK, cerrou as portas para impedir  que movimentos sociais fizessem ali um protesto contra a discriminação em relação aos pobres.

O Iguatemi foi um dos pioneiros a obter liminar na Justiça de SP autorizando  seguranças a selecionar o ingresso de clientes  para barrar a juventude dos rolezinhos - marcadamente composta de  jovens da periferia,  pretos, mestiços e pobres.

A memória dos acontecimentos de 57 anos atrás em Montgomery convida a perguntar :

 - A exemplo das transportadoras racistas do Alabama, quantos sábados o Iguatemi aguentaria de portas cerradas, cercado por manifestações pacíficas  e desidratado pela fuga de seus clientes tradicionais?








MARTA LOGUERCIO - 22/01/2014
Lamentavelmente, Carta Maior sistematicamente "não publica" meus comentários quando não concordam totalmente com o articulista, ou editorialista....



Eu ontem escrevi sobre "os rolezinhos", que eu acho estarem sendo mal "diagnosticados" pela esquerda brasileira e sugeria que os ministérios da Igualdade Racial, Educação e Cultura deviam se preocupar mais com a ausência das populações de periferia em bibliotecas, museus, apresentações de variados tipos de música ( além de funk ostentação ), cinemas, etc e não em Shoppings Centers, espaços de futilidade e consumismo extremos, catedrais do Capitalismo.....



Obrigada pela atenção.



P.S.- Não vejo similaridade entre os rolezinhos e a atitude da americana afro - descendente nos anos 60, nos EUA.


Mariângela Portela da Silva - 21/01/2014
Nós, de mais de 45 anos, mantemos um quase vício de interpretar manifestações coletivas sob um viés político-reivindicatório. Cada vez menos isso é uma verdade. O rolezinho tornou-se um evento tão plural, que pode ser entendido como bem quiser por quem o analisar. Pode servir pra falar de racismo, pode servir pra falar de opressão, pode servir pra discutir o consumismo ou... Acho que todas estas discussões são oportunas pois de fato, tudo isso acontece mesmo, mesmo que não tenha sido o enfrentamento desta realidade o que levou ao rolezinho. Acho que devemos ficar atentos para que o nosso olhar guarde a pluralidade que é o que tem sido a tônica dos últimos tempos. Os jovens das periferias entram nos Shoppings desde que nascem, pois o Shopping é a catedral de nossos tempos. Eles sonham em consumir, em possuir o tênis, o celular, a calça da moda, o boné... é isso! E eles não são barrados qdo entram nos shopping e consomem. O rolezinho não pode ser analisado como um movimento reivindicatório, mesmo que uma pequena parte de seus participantes possam até ter esta intenção. A maioria adotou o rolezinho por zoação, como é normal entre os adolescentes. A repercussão do rolezinho, sim, poderá adicionar um caráter de questionamento ao que de segregação existe em nossa sociedade. À medida em que a zoação passou a ser objeto de uma discussão muito mais séria e profunda do que os jovens envolvidos nos primeiros "rolezinhos" jamais imaginaram, pode até ser que eles se conscientizem sobre sua situação de exclusão, e sobre as conseqüências de ações coletivas. Daí, talvez a nossa intervenção reflexiva possa contribuir para enriquecer a visão de realidade de alguns rolezistas. Mas até o momento, não passa de um "rolê", no templo do consumo.


Orlando F. Filho para Marcia Eloy - 21/01/2014
Que vergonha marcia. querendo criminalizar um movimento pacífico. Os tempos da ditadura já acabaram faz tempo, dona márcia, ou não contaram prá senhora?


Orlando F. Filho - 21/01/2014
Quero deixar claro que não vejo nenhuma atitude política dos organizadores e temos que entender que estes jovens tem na web uma poderosa ferramenta de comunicação rápida. No meu tempo de estudante nós tinhamos o telefone, telex, etc. "Bandos" sempre existiram no mundo; vide os angels, mongols, os hippies, beatniks. Isto não é novidade e estão fazendo uma palhaçada pois estes garotos não cometeram crime nenhum, ou será que para eles o direito de ir e vir não vale?


sonia beatriz de barros - 21/01/2014
Esse seu comentário me lembrou as palavras do Pelé(?)> "lugar onde preto não entra, branco pobre também, não".

E, a propósito, é muito sociologês querer comparar o episódio da Rosa Park no Alabama com os rolezinhos da periferia paulista,


Salvador Passos - 21/01/2014
Vale lembrar uma notícia do ano 2000 quando no Rio de Janeiro um grupo de manifestantes organizou uma ocupação de um grande shopping de um bairro nobre da cidade.



Tal manifestação deu origem a um minidocumentário.



http://redanarcoutopistalibre.blogspot.com.br/2014/01/hiato.html









MARTA - 21/01/2014
Concordo com os comentários de que não existe paralelo entre os "rolezinhos" (!?!) e a ação "afirmativa" da afro -descendente americana nos anos 60. Acho que a esquerda brasileira (ingenuidade?...) está avaliando muito mal este movimento (oopss! ).



Uma sugestão: que tal um rolezinho em uma biblioteca, em um museu ?.....Que tal também conhecer outro tipo de música e divertimento além das "funkerias ostentação"?



__ Alô,alô, ministra da integração racial! Alô, alô, ministro (a) da Educação e da Cultura ___





Fausto Neves Ribeiro da Silva - 20/01/2014
Num país sem jornais o sentimento de isolamento chega a ser atroz. Carta Maior ainda precisa fazer muito esforço. Ainda escreve para um público "in-group", no jargão acadêmico ou "socioles"

O rolezinho em nada se assemelha com o caso de Rosa Parks. Ali trata-se de um direito, uma questão essencial de cidadania e respeito pela pessoa. O caso dos jovens desesperaçados da periferia social é uma novidade onde há o lúdico aliado ao protesto, às vezes depredatório. Há o preparo das incursões via redes sociais, afinal eles tem acesso a isso e sabem se organizar.

Em resumo, em bom "carioquês": a coisa é "arrepiar os bacanas", como já se fazia no Rio de Janeiro há mais de 10 anos. Quanto ao tempo do Iguatemi aguentar fechado aos sábados e domingos, isso não parece ser o problema.


Marcia Eloy - 20/01/2014
O grande problema é que ninguém sabe até quando estas manifestações serão pacíficas. A polícia inteligente do Brasil, se é que ela existe, já deveria ter se infiltrado nestas comunidades para saber a real intenção dos roles. Como deveria ter feito com os Black Bloks. Não fazem e não fizeram, aí são surpreendidos por ações que jamais aconteceram no Brasil. Não adianta achar que este problema é somente preconceito social, a meu ver, não é, é mais que isto, me parece uma ameaça, uma provocação. Se isto acontecer durante a Copa e não for pacífico a imagem do Brasil rolará escada abaixo..


Rodrigo Ricoy Dias - 20/01/2014
Não vejo sentido no paralelo, e já comentei isso quando vi a comparação sendo feita pela primeira vez. Não se cuida de reivindicação do espaço para uso em condições de igualdade. Não se trata, por outro lado, de algum movimento que vise alguma conquista diversa do consumo puro e simples. Por isso acho que já se gastou muita tinta e muita linguagem sociológica para pouco fato. Discriminação em espaços privados sempre houve, e nunca foi objeto de apreciações críticas, desde os restaurantes até casas noturnas em que os responsáveis escolhem com critérios altamente subjetivos quem pode entrar. Se a discussão é sobre racismo, vale mais criticar a atitude de seguranças quando veem entrar pessoas com determinado perfil em lojas de departamentos ou a frequente abordagem que é feita em supermercados quando há suspeita de furto, fatos substancialmente mais graves e que decorrem de políticas empresariais racistas.


Lais Borges - 19/01/2014
Este artigo me lembrou um filme muito interessante : " Um dia sem Mexicanos" ... bem legal !


Orlando F. Filho - 19/01/2014
A história do racismo das elites brasileiras é contundente, cuja filosofia é "mudar para que tudo fique na mesma". A justiça brasileira é uma piada de mau gosto e isso acontece porque aquele magistrado que deu a liminar para que o Iguatemi(para quem não conhece são Paulo, é um shopping que fica em Pinheiros, na av brigadeiro faria lima, avenida chic fdo barrio) autorizou uma "limpeza étnica" a mesma que Hitler fez na Alemanha criando campos de trabalho e campos de extermínio, cujas vítimas eram judeus, negros, comunistas, prostitutas e homossexuais). Penso que Dilma deveria fazer um pronunciamento à nação deixando claro sua posição política de total repúdio a esse tipo de preconceito. Ou somos um país democrático ou não. Não existe democracia pela metade e mais uma vez as elites unem-se para um ato odioso sob todos os aspectos. Penso que deveríamos entrar com uma ação civil pública contra essa odiosa volta aos tempos do autoritarismo.


Renata Maria Braga Santos - 19/01/2014
Saul Leblon sempre nos fazendo atuar. Viva!


jose carlos barbosa de madureira - 19/01/2014
boa pergunta, quantos dias ele aguenta?


José Carlos da Silva - 19/01/2014
Vivemos uma segregação velada. eh hora de lutarmos pelos nossos direitos!!


carlos a. nunes - 04/02/2014
Cara marta logueiro, meus comentarkos tb nao sao publicados. Veja que coisa... euzinho um mero cidadao anonimo, nao sou politico nem jornalista famoso nem da rede globo mas parece que a publicacão de minhas palavras, alem de passar por censura previa do "partido do povo", sao sistematicamente descartados... devo me considerar um perseguido politico?

PARCERIAS