Terça-Feira, 27 de Junho

 

28/07/2014 00:00 - Copyleft

O debate sobre a financeirização da economia e implicações políticas

Há um debate que não pode esperar: como recuperar os recursos acumulados e parados em fortunas financeiras, girando em atividades especulativas estéreis.


Ladislau Dowbor
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Há um debate que não pode mais esperar: como recuperar os imensos recursos acumulados e parados em fortunas financeiras, girando em atividades especulativas estéreis, para financiar a inclusão produtiva, a reconversão energética, os desequilíbrios sociais? O problema está além da injustiça flagrante que leva a que se acumulem fortunas sem a contrapartida produtiva correspondente. Trata-se da deformação do próprio sistema de acumulação capitalista, e da sua principal base de legitimação.

A visão herdada era que à riqueza do capitalista correspondia uma iniciativa de empreendedor, gerando produto, emprego e enriquecimento da sociedade, ainda que de forma desigual. Com a generalização do desvio das nossas poupanças para aplicações financeiras, tanto das fortunas dos mais ricos como das poupanças da população em geral, para as mãos de intermediários financeiros, o que era mais valia apropriada no processo produtivo se transformou em sistema especulativo planetário. O capitalismo produtivo se desloca para um capitalismo de rentistas.

Podemos trabalhar com três eixos de análise. Primeiro, as mudanças em termos do capitalismo financeiro global; segundo, como estas dinâmicas afetam o Brasil; terceiro, que alternativas estão surgindo no horizonte.

1 – A finança global

Os recursos financeiros são geridos em nível global, mas os sistemas de regulação são fragmentados em 192 países com legislações e capacidade de controle muito diversificadas. Na ausência de um sistema multilateral minimamente adequado, e com a desconstrução do marco jurídico (Glass-Steagall Act) a partir dos anos 1980, gerou-se um espaço sem governo. A compreensão dos mecanismos melhorou muito. Os aportes de Chesnais, Galbraith e outros foram reforçados por análises de personagens do próprio sistema: Paul Krugman, Joseph Stiglitz, Marcel Morin e muitos outros. Hoje temos como reunir e sistematizar as visões. O trabalho de Thomas Piketty é aqui de uma grande ajuda. Temos um razoável corpo teórico.

Em outro nível, houve a partir da crise de 2008 um reforço radical, ainda que muito insuficiente, dos dados empíricos. Um marco importante é a pesquisa sobre a rede global de controle corporativo, do Instituto Federal Suíço de Pesquisa Tecnológica, que mostrou que no universo corporativo mundial uma rede de 737 grupos controla 80% do mundo corporativo, dos quais um núcleo mais restrito de 137 grupos controla 40%, sendo que 75% deles são grupos financeiros. Ou seja, o mundo corporativo mundial é hoje controlado por gente que se conhece, que se encontra no campo de golfe. Tal nível de concentração dispensa qualquer teoria conspiratória. Pode-se qualificar o sistema de várias formas, mas não é mais um mecanismo de mercado.

Outro reforço muito significativo é o estudo dos fundos alocados em paraísos fiscais. A pesquisa do Tax Justice Network, coordenada por James Henry, mostra que o estoque de recursos é da ordem de um terço a metade do PIB mundial, em torno de 21-32 trilhões de dólares. O Economist arredonda isto para 20 trilhões, o Working for the Few da OXFAM-UK trabalha com 18 trilhões, e o ICIJ (International Consortium of Investigative Journalists) está gradualmente divulgando os nomes, montantes e principais operações destes fundos.

O Brasil, segundo o TJN, participaria com 520 bilhões de dólares, cerca de um quarto do PIB. São recursos que desorganizam o sistema fiscal planetário, acobertam lavagem de dinheiro, financiam tráfico de armas, e asseguram a multiplicação cumulativa de fortunas. Segundo o Economist, a gestão é assegurada essencialmente no Estado de Delaware nos Estados Unidos, em Miami e em Londres. As diversas pesquisas convergem. Gerou-se um capitalismo no mínimo cinzento, e em todo caso de legalidade duvidosa, quando não simplesmente criminoso. Não é mecanismo de mercado.

Muito significativa também é a formação, em paralelo à financeirização, de um mundo de especulação comercial que nela navega. Basicamente, uma quinzena de grupos controla a quase totalidade do comércio mundial de grãos, energia, minerais metálicos e não metálicos, ou seja, o sangue da economia mundial. Joshua Shneyer, no The Trillion Dollar Club: Commodity Traders, apresenta os dados básicos destes grupos, aliás com forte presença no Brasil, e a sua gigantesca força planetária, ainda que com nomes que pouco conhecemos como Black Rock. É importante lembrar que o mercado de futuros onde se movimentam estas finanças têm derivativos emitidos (outstanding derivatives) de mais de 600 trilhões de dólares, cerca de 8 vezes o PIB mundial (dados do BIS de Basileia).

Em terceiro nível, temos de observar a complexidade de mecanismos planetários de gestão dos recursos financeiros. A IEA (International Energy Agency) das Nações Unidas elaborou um manual só com a descrição dos termos e dos mecanismos de derivativos utilizados pelo sistema mundial de especulação. Frente à imagem surrealista que ensinamos, de atores que competem através de mecanismos de mercado, “e que o melhor vença”, temos de explicitar como funcionam mecanismos básicos como estocagem especulativa, mispricing¸alavancagem, arbitragem, high frequency trading e outros mecanismos hoje opacos e incompreendidos.

Finalmente, temos hoje uma enxurrada de processos e condenações dos principais atores mundiais de intermediação financeira. Os mecanismos mais significativos, como a manipulação da Libor (praticamente todos os grandes grupos financeiros mundiais), a fraude com seguros de cartões de crédito, a lavagem de dinheiro em grande escala, a gestão de fundos e financiamento de operações ilegais, a cartelização e outros procedimentos, hoje amplamente descritos até no Financial Times e publicações online, precisam ser descritos e sistematizados, para ampliar a compreensão dos principais tipos de ilegalidades perpetradas.

Em outros termos, um eixo de trabalho é a formação de uma rede colaborativa de pesquisa que ajude a tornar os mecanismos minimamente compreensíveis para formadores de opinião e pesquisadores não especializados na área. Precisamos ampliar a base de conhecimento e de conhecedores.




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