Análise & Opinião| 26/06/2007 | Copyleft

DEBATE ABERTO

A fúria do ex-diretor

Ex-diretor de O Estado de S. Paulo me acusa de querer 'desmoralizar a liberdade de imprensa' para realizar o que seria o 'meu sonho secreto': 'um mundo de Pravdas e Granmmas'. Não deixam de ser reveladoras as afirmações.

Vale a pena refletir sobre os motivos que levam experiente jornalista a ter o seu dia de fúria. Principalmente, quando o motivo é um artigo publicado em Carta Maior, no dia 12 de junho. No Observatório da Imprensa, que também o publicou, em sua edição retrasada, o ex-redator de um dos mais conservadores veículos da imprensa brasileira acionou sua metralhadora giratória. A sensatez foi o único alvo atingido.

Quando registro de evidência é interpretado como conspiracionismo mal-intencionado, não estamos diante de um mero problema semântico. Há algo profundo no jogo das palavras. Ainda mais quando quem as maneja tem, por dever de ofício, que escrever com precisão e clareza.

O artigo do ex-diretor de redação de O Estado de S. Paulo Sandro Vaia é uma demonstração cabal de como andam juntos estilo agressivo e ética ambígua. Por sinal, um não sobrevive sem o outro. O primeiro é ferramenta dos que adotam a razão cínica como norte de ação.

O autor me acusa de escrever sucessivas cantilenas com o intuito de “contrabandear lixos ideológicos" e “desmoralizar a liberdade de imprensa", para realizar o que ele afirma ser o "meu sonho secreto": "Um mundo de Pravdas e Granmmas".

Não deixam de ser reveladoras as afirmações. Freud, em “A interpretação dos sonhos", jamais se permitiu legislar sobre a pertinência da narrativa dos pacientes com quem mantinha contato direto. O jornalismo brasileiro, a julgar pelo texto de Sandro Vaia, não só é judicativo no campo onírico,como é capaz de adivinhar sonhos que jamais lhe foram relatados. Será que algo semelhante ocorre quando um editorial é escrito, prezado jornalista? Em caso afirmativo, estaremos diante de loucos varridos ou de profissionais mal-intencionados mesmo? Pessoas que negam espaço discursivo a atores que contrariam os interesses dos donos dos meios?

Sandro bem sabe como a grande imprensa promove seus recortes. Movimentos sociais que se disponham a agenciar demandas de setores excluídos, a apresentá-los como sujeitos dotados de direitos são, a priori, não-notícia. A menos que sejam envoltos em prática de significação que rotule como baderneiros todos os que se apresentem como contrapoder às relações de expropriação e dominação. Estarei, segundo os critérios do ex-diretor, enveredando pelo pernosticismo, ou descrevendo fielmente a prática diária de veículos da grande imprensa?

Isso pode até ser "liberdade de imprensa", mas, é um tipo de liberdade que, para existir, precisa se sobrepor a outra, de capital importância para a cidadania: a liberdade de informação. E é por isso que escrevo para espaços democráticos. Não pretendo tolher a atividade jornalística. Meu objetivo é o oposto disso. Luto por uma imprensa que enriqueça o debate e ajude a consolidar esfera pública efetiva. Será que fui suficientemente claro, agora? Ou é preciso um pequeno glossário de política?

Mas voltemos ao seu artigo. O título (“Máfia dos caça-níqueis. Vavá usou nome de Lula; 13 presos são liberados") que Vaia afirma ser "técnica consagrada em jornalismo, de sentenças curtas e objetivas, resumindo no título as informações mais importantes sobre um determinado tema", não é tão inofensivo como ele pretende. Ora, desde quando "técnicas consagradas" não se prestam à prestidigitação? Leads, sub-leads e títulos são neutros por serem instrumentos da narrativa jornalística? Quando ele indaga “o que há nesse título que não seja informação factual? Não existe máfia dos caça-níqueis ? Vavá não usou o nome de Lula? Treze presos não foram liberados naquele dia? Então, cadê o erro? Onde está a opinião?” A resposta é tão simples que constrange: no texto travestido de informação. É tão elementar que só posso interpretar o questionamento como um exercício de espirituosidade do jornalista.

O mais interessante vem depois. Quando, para reforçar sua posição sobre meu suposto conspiracionismo, Sandro Vaia enfatiza que "devemos deduzir, por certo, que algum representante das tais 13 famílias foi escalado para cobrir o plantão do UOL naquele sábado à tarde para "maquiavelar" o tal título, assoprando ao sonolento redator, entorpecido pela feijoada de sábado, a pérfida armação do título conspiratório", dou a mão à palmatória. Isso é que é "jornalismo investigativo"! Não só conseguiu reconstituir o estado em que se encontrava o redator do UOL, como foi capaz de adivinhar o que havia comido no almoço. É preciso muita argúcia para chegar à perfeição.

O bravo ex-diretor do Estadão não parou por aí. Não faltou o argumento de autoridade: “o professor nunca deve ter passado por uma redação.” A empáfia é desnecessária. Há muita gente, que passou anos em várias, e afirma o caráter golpista da imprensa: Paulo Henrique Amorim, Mino Carta, Luis Nassif são bem mais assertivos que esse autor. E continuam a travar a boa luta em suas colunas, revistas e blogs.

Aos que pedem mais evidências do conluio entre a grande imprensa e o bloco de poder conservador, asseguro que tentarei não frustrá-los.

Talvez os mais jovens não saibam e os demais não se recordem em detalhes. Assim,nada custa resgatar um episódio que marcou as eleições de 1994. O então ministro da Fazenda de Itamar Franco, Rubens Ricupero, desenvolve uma conversa informal com seu cunhado e jornalista da Globo, Carlos Monforte (a irmã do jornalista era, à época, mulher do ex-ministro). O que eles não sabiam é que a conversa estava sendo transmitida ao vivo, via satélite (antenas parabólicas estavam sintonizadas no canal privativo de satélite da Rede). Entre outras coisas, Ricupero diz que emissora dos Marinhos o utilizava para falar do Plano Real e fazer propaganda para o então candidato FHC: "(...) Ele (FHC) sabe que o grande eleitor dele hoje sou eu. Por exemplo, para a Rede Globo foi um achado. Porque eles, em vez de terem que dar apoio ostensivo a ele, botam a mim no ar e ninguém pode dizer nada."

"(...) "Isso não ocorreu da outra vez. Essa é um solução, digamos, indireta, né?" (da "outra vez", em 1989, a Globo havia dado apoio "direto", ostensivo, a Collor.) Quem quiser, ouvir um trecho bem maior pode acessar o vídeo no Youtube.

E então, quem está vestindo fantasias e tecendo tramas conspiratórias? O jornalista que diz sair em defesa de uma instituição ilibada ou este conhecido antidemocrata que insiste em escrever na mídia alternativa?

Ainda assim, haverá quem retruque que estou me remetendo ao passado, para fugir de um presente que me seria incômodo por refutar idéias centrais dos meus textos. Quando esta edição estiver no ar, a reportagem de Carta Capital sobre uma pesquisa do Iuperj (Instituto Universitário de Pesquisa do Rio de Janeiro), que mostra o comportamento da Folha, do Estadão, do Globo e do JB nas eleições presidenciais de 2006, já será de conhecimento público, mas não posso deixar de reproduzir trechos da entrevista concedida por Marcus Figueiredo, cientista político e coordenador da pesquisa, ao jornalista Paulo Henrique Amorim. São as evidências, Sandro Vaia, as evidências que tanto incomodam. Veja o que ele fala sobre o comportamento dos que entraram pela porta da frente das grandes redações.

"Esta é uma linha de pesquisa que estamos fazendo já há alguns anos. Neste ano, sobre as eleições de 2006, ficou absolutamente patente que a grande imprensa, os grandes jornais do Brasil tiveram comportamento muito enviesado contra a candidatura do presidente Lula. As razões pra isso podem ser de várias ordens. Desde a questão do ponto de vista moral, do ponto de vista das articulações políticas, por conta de os escândalos todos que ocorreram nos últimos dois, três anos. Entretanto, essas são questões que fazem parte da política, que são resolvidas politicamente, foram resolvidas institucionalmente, algumas os principais assessores do presidente foram afastados, alguns foram punidos ou absolvidos pelo próprio Congresso de forma que, do ponto de vista institucional o presidente fez o que podia ser feito. Entretanto, permaneceu como o tom da grande mídia esta oposição em relação à candidatura do presidente. Agora, chamo a atenção para um detalhe importantíssimo: o excesso e o tom mais alto de críticas era em direção às atividades políticas do presidente e da própria campanha. Entretanto, quando a gente continua vendo os jornais – todos eles – e vamos pras páginas de economia, só aparecem notícias que são favoráveis ao governo e, obviamente, ao presidente Lula pela condução da economia e também na parte social. Portanto, o que ficou absolutamente claro é que nós assistimos a uma cobertura que tinham dois lados, eram duas faces da mesma moeda, ou seja, numa face a mídia posicionou-se enviesada contra a candidatura. Na outra face, ela estava inteiramente favorável ao desempenho na área econômica e social do presidente.”

Indagado sobre a aparente esquizofrenia da mídia, Marcus conclui: “eu tenho uma leve impressão, que é extremamente difícil de demonstrar, que houve um total desencantamento com a figura, com o presidente, na medida em que ele, pela sua história, acabou dando certo como um presidente. E ela dando certo significa a possibilidade de uma alternância de poder substituindo as velhas lideranças, as velhas oligarquias, a velha elite que sempre comandou o país e sem conseqüências drásticas. Apenas, evidentemente, uma mudança de rumo na política".

E agora, jornalista Sandro Vaia, quem é o escorpião da fábula? Quem quer perpetuar velhas oligarquias, saindo em defesa incondicional do conteúdo produzido por suas oficinas? Ou quem se propõe a pensar a mídia como algo a ser reinventado para a democracia. Esopo sabe a resposta.


Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Jornal do Brasil


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COMENTÁRIOS (88 Comentários)
       
Opinião Comentário Autor Data
Como diria Herbert Vianna,"... João Werneck 03/07/2007
O jornalista Sandro Vaia po... Elaine Azevedo 03/07/2007
É professor Gilson, acho qu... Debora Andelinovic 03/07/2007
Dê uma lidinha neste art... 01/07/2007
A fúria do ex-diretor é com... Renato Meira 01/07/2007
Será que a imprensa ainda n... Cristiane Vargas 01/07/2007
Muito bom, professor. Danilo Prociuk 30/06/2007
Simplesmente magistral. Mui... Karen Bastos 30/06/2007
Sem a pretensão de acrescen... Roberto Valente 30/06/2007
Eu gostaria de saber do Sr.... Fernando Viegas 30/06/2007
Se a grande imprensa sempre... Sabrina Peixoto 30/06/2007
Parabéns ao professor por t... Giselle Pessanha 29/06/2007
O mundo do trabalho agradec... Fábio Pinheiro 29/06/2007
Sorte minha ter entrado em ... Edmundo Monteiro 29/06/2007
Esse artigo deveria ser lid... Thiago Amaral 29/06/2007
A sacrossanta imprensa de p... Rafaela Costa 29/06/2007
Como é bom ler um artigo qu... Lídia Lago 29/06/2007
É impressionante que com ta... Isabela Marinho 28/06/2007
Gostei da idéia Atila, vá e... Lúcia Adélia 28/06/2007
Gilmara, graças aos céus qu... Lúcia Adélia 28/06/2007
Pedro Marques nota 10, isso... Lúcia Adélia 28/06/2007
Um comentário em três palav... Beatriz Cleto 28/06/2007
É isso aí, Carlos Marins, b... Lúcia Adélia 28/06/2007
Daleeee Gilson!!!! Vaias p... Bel Acosta 28/06/2007
Parabéns, este artigo é ma... Ilda Santos Cardos... 28/06/2007
E isso que está faltando no... Giovanny Kley 28/06/2007
Se alguém tiver um artigo d... Atila Dias 28/06/2007
Concordo com Vera, Fabíola,... Ana Paula Borges 28/06/2007
Num ponto o Sr. Francisco D... Carlos Martins 28/06/2007
Sim o sr. Vaia é Democrata ... Pedro Marques 28/06/2007
A pesquisa do Iuperj vai al... Gilmara Biazin 28/06/2007
Ganhamos muito com uma Cart... Aline Lopes dos Sa... 28/06/2007
As falácias da grande impre... Raquel Nóbrega 28/06/2007
E agora vaia? ... muito bem... Telma Hindrikson 28/06/2007
Perfeito, professor. O que ... Fernando Moita 28/06/2007
Faço minhas as palavras de ... Nádia Moraes 27/06/2007
É o que eu chamo de serviço... Vera Lúcia Mendes 27/06/2007
Com direito a vídeo? Que lu... Fabíola Rangel 27/06/2007
Lúcia Falcão e Geórgia, Vo... maristela farias 27/06/2007
O Estadão sempre foi "um pr... Marco Antônio Lope... 27/06/2007
Vaia "apesar de você, hoje ... Rose Fernandes 27/06/2007
Um artigo que é a cara de C... Maria Helena Paldê... 27/06/2007
hahahahaha... Estava boa... Luciane Moreira 27/06/2007
Um texto exemplar. A mim só... Fernando Mendes 27/06/2007
Vim, li e gostei. Um texto ... Carlos Eduardo Sou... 27/06/2007
O jornalista do Estadão, en... Eliane Teixeira 27/06/2007
"Nunca como antes na histór... Paula Franco 27/06/2007
O que era para ser um duelo... Thaíssa Martins 27/06/2007
Coitado do Vaia. Renato 27/06/2007
Bravo Gilson, falou tudo ca... Lúcia Adélia 27/06/2007
Joaquim Ernesto Palhares e ... Daniela lvarez 27/06/2007
Que Leonardo Boff me perdoe... Paulo Roberto Camp... 27/06/2007
É gilson!Os meios de comuni... Wagner dos Santos 27/06/2007
Georgia, essa é a questão c... Lúcia Falcão 26/06/2007
"Isso pode até ser "liberda... Georgia Reeve 26/06/2007
Como se dizia antigamente q... Edgard Pimenta 26/06/2007
Não há um parágrafo que não... Renan Fernandes 26/06/2007
Dá-lhe professor, fonte ins... Roaldo Luís Valiat... 26/06/2007
O texto, um dos melhores qu... Sílivia Manhães 26/06/2007
Seria interessante saber o ... Carlos Coelho 26/06/2007
Reconfortante para quem é o... Renato Alvim 26/06/2007
Fico feliz ao ver um artigo... Alcir Vidal 26/06/2007
O melhor é que estamos venc... Leonardo Martins 26/06/2007
Só me resta parabenizá-lo!!... Otilia de Moura Ba... 26/06/2007
O artigo, a pesquisa do Iup... Alessandra Moreira 26/06/2007
Ah, Estadão. Como é bom ver... Roberto Maciel 26/06/2007
Ex-diretor do Estadão defen... Thaís Freitas 26/06/2007
O Sandro Vaia pode até ter ... Denise Mello 26/06/2007
Nunca vi tanta defesa do Lu... Francisco Duarte G... 26/06/2007
Uuuuuu! Vaia pra você, Sand... Jackson Saboya 26/06/2007
O parágrafo que cita Freud ... Ana Paula Pereira 26/06/2007
Só me resta aplaudir! Maria Isabel 26/06/2007
Desncessário reafirmar que ... Andressa Munhoz 26/06/2007
O senhor Vaia se aposenta e... Francisco Antonio ... 26/06/2007
Prof. Gilson! Não perca seu... Francisco Antonio ... 26/06/2007
Vaias para o Vaia. Alexandre Porto 26/06/2007
Fico extremamente maravilha... Sabrina F. Rodrigu... 26/06/2007
Gilson, através do seu arti... Marcos Alexandre 26/06/2007
Parabéns professor. Seu tex... Zilda de Araujo Ro... 26/06/2007
Parabéns ao Gilson que soub... Tulio Magalhães 26/06/2007
Senhor Vaia, não interessa ... Francisco Antonio ... 26/06/2007
Esse artigo deveria ficar a... Tainã Moraes 26/06/2007
Prezado prof. Gilson, seu a... Carlos Barbosa Jun... 26/06/2007
Quando leio artigos como es... Cristina Vargas 26/06/2007
Em poucas linhas. É para im... Regina Fontes 26/06/2007
A dismistificação das " téc... Márcio Carvalho 26/06/2007
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