29/02/2012 23:43
Abertura à chinesa: lições a aprender
Por Saul Leblon
Em 68 dias, de 21 de dezembro último a esta quarta feira, 29 de fevereiro, o Banco Central Europeu injetou mais de um trilhão de euros no sistema bancário da União Europeia, a uma taxa de juros de 1% ao ano, com prazo mínimo de 3 anos para pagar. Se os banqueiros e acionistas decidirem não emprestar à produção dissolvente, nem ao consumo esfarelado pelo desemprego e o arrocho laboral, que outro destino lucrativo poderiam dar à chuva de dinheiro barato? Uma hipótese matemática: a taxa de juro real hoje no Brasil (descontada a inflação) é da ordem de 5%. Se um banqueiro espanhol, digamos, apenas transferir a captação feita junto ao BCE para o mercado de títulos do país terá de volta remuneração suficiente para pagar o juro do seu papagaio e ainda embolsar um lucro suculento, sem risco.
28/02/2012 21:21
O Brasil entre a ruptura e a inércia
Por Saul Leblon
O Brasil precisa fazer na educação (e na saúde) o mesmo que Lula fez com o salário mínimo: uma ruptura em relação à inércia conservadora. Num intervalo de oito anos o presidente petista elevou o poder aquisitivo do mínimo em mais de 53% em termos reais. Rejeitou a lógica incremental. Entendeu que mudar apenas na margem seria manter à margem os que sempre viveram na soleira do país.
27/02/2012 17:19
A crise e a sua pergunta mais incômoda
Por Saul Leblon
O presidente mundial do HSBC, o inglês Stuart Gulliver, mandou demitir 30 mil funcionários do banco em 2011; cerca de 11 mil já foram para o olho da rua, atesta a agencia Bloomberg em despachos desta 2ª feira. O negócio funcionou, claro: a exploração funciona. O banco deu lucros de R$ 28,6 bilhões em plena crise, 27,6% mais do que em 2010; Gulliver foi regiamente recompensado pelos acionistas. Os números, as metas e os métodos repisam a grande pergunta da crise que a mídia conservadora, a plutocracia e mesmo parte da esquerda fingem não ouvir: 'por que um serviço público essencial como o provimento do crédito à economia, bem como a administração financeira da riqueza social, deve continuar nas mãos dos Gullivers & Cia?
26/02/2012 21:29
Sarkozy, Serra, direita e esquerda em SP
Por Saul Leblon
Jornais europeus informam que Sarkozy resgatou sua identidade política profunda para disputar a reeleição de abril na França contra o socialista François Hollande. O favoritismo inicial de Hollande estaria sendo corroído rapidamente pela radicalização à direita do mandatário francês. Essa receita de embrutecimento político que já deu certo em Portugal e na Espanha pode ser repetida na disputa de vida ou morte travada pela direita brasileira na eleição municipal de São Paulo? Reconheça-se: os protagonistas do conservadorismo nativo estão à altura do enredo.
25/02/2012 07:40
O neoliberalismo atropela seus mitos
Por Saul Leblon
Seria medíocre reduzir o desastre ferroviário desta semana na Argentina, no qual o trem de uma concessionária privada perdeu o breque causando 50 mortos e 700 feridos, a um desfrute ideológico do equívoco neoliberal na América Latina. É preciso ir além e não omitir a pergunta incomoda: por que os governos progressistas subsequentes não reverteram o processo; ao menos, não impuseram padrões de atendimento que respeitassem os usuários do patrimônio público alienado? A resposta confronta um alicerce da doutrina neoliberal e coloca em xeque crenças e argumentos que embalam as privatizações de ontem e de hoje. O nome da viga mestra é agencia reguladora.
23/02/2012 17:18
Recessão mundial: o Brasil que se cuide
Por Saul Leblon
Graças à preservação da Petrobrás como instrumento do Estado brasileiro, a economia nacional se mantém, há anos, relativamente imune às turbulências originárias do Oriente Médio, blindagem reforçada agora pela regulação soberana das reservas do pré-sal. Há flancos, porém, e um deles remete a eventual desaceleração das exportações aos mercados asiáticos. Mas não só. Cada vez mais, o gigantesco mercado interno brasileiro, um dos poucos em expansão no mundo, torna-se o alvo cobiçado da ociosidade existente em parques fabris de todas as latitudes.
22/02/2012 16:21
Vencedores e derrotados
Por Saul Leblon
A doutrina neoliberal costuma criticar a ação do Estado na economia, sobretudo as políticas oficiais de crédito ao desenvolvimento, pelo risco inerente, acusam, de 'escolher os vencedores no lugar dos mercados", o que configuraria uma interferência política na proficiência do laissez-faire para consagrar os mais eficientes e punir a inoperância cara. O 'resgate' grego compromete essa narrativa ao demonstrar que o juiz neoliberal quando age não apenas escolhe vencedores, como traduz as custas do processo em um verdadeiro massacre dos derrotados.
21/02/2012 08:52
Bruxelas: "Grécia é um protetorado da banca"
Por Saul Leblon
O 'acordo' de ajuste assinado entre Atenas e a troika do euro na madrugada desta 3ª feira, em Bruxelas, passará à história como o mais draconiano e humilhante exemplo de rendição de um país aos mercados em tempos modernos. O que se deliberou é pior até que os termos devastadores do Tratado de Versalhes, de 1919, que colocou a derrotada Alemanha da Primeira Guerra de joelhos. Dentro de dois meses a Grécia vai às urnas eleger um novo parlamento, mas o que se acertou em Bruxelas nesta madrugada está acima do que decidirem as urnas. A elite política grega comprometeu-se também a ceder a soberania democrática aos mercados, tornando inalteráveis os termos de sua rendição à banca.
17/02/2012 17:19
Direita brasileira se unifica contra o PT em SP
Por Saul Leblon
Juntos, outra vez, Serra e Kassab trouxeram confetes e serpentinas ao camarote desbotado da direita brasileira. Este ano, mais que nunca, a sucessão na prefeitura de São Paulo reafirma a dimensão estratégica de uma disputa que extrapola os limites do poder municipal. A direita sabe que precisa inaugurar um divisor em sua declinante presença no cenário nacional. Manter São Paulo sob a sua guarda pode, no mínimo, refrear a debandada da coalizão demotucana e regenerar laços da alianças para 2014. Seria apenas um passo, mas sem ele sobra pouco a fazer.
16/02/2012 10:28
O ardil da austeridade
Por Saul Leblon
No que consiste a receita de austeridade que esmaga a Grécia (leia a análise de Marco Aurélio Weissheimer; nesta pag.), solapa a Itália, esfarela Portugal e Espanha entre outros? Grosseiramente, trata-se de montar uma máquina capaz de pagar os juros aos credores. A meta é dar solvência a uma dívida contraída em regime de cumplicidade imprevidente -entre bancos e governos e entre bancos locais e estrangeiros - prática essa tida como exemplo das virtudes da livre ciculação de capitais , cantada em prosa e verso na farra especulativa que antecedeu ao colapso de 2008. O ajuste europeu poderá gerar um colapso social até mais dramático que o produzido na crise da dívida externa vivida pelos países da América Latina, nos anos 80.