Colunistas| 14/06/2007 | Copyleft

DEBATE ABERTO

Os atributos de Vavá

Criaram, na imprensa, um personagem fantástico, feito de retalhos de inquéritos, retalhos de declarações do próprio presidente, retalhos de declarações de seu sósia na vida real, o cidadão brasileiro Genivaldo Inácio da Silva.

Passei um mês fora do Brasil, e me esqueci, por causa daquelas correrias, de pedir a transferência dos jornais entregues por assinatura para o endereço de uma das minhas filhas. Resultado: como a faxineira que freqüenta minha casa é muito diligente e respeitadora, lá estavam eles – os jornais – convenientemente empilhados, aliás, gigantescamente empilhados.

O folhear daquela pilha passadiça me confirmou a impressão que eu tivera pela internet. Os deserdados do segundo turno de outubro de 2006 continuam na ativa – ainda que deserdados, é verdade. Não há o que fazer, para eles, a não ser CPIs, e procurar ataques à probidade do presidente. Não há programas a apresentar, idéias a debater. Só a moral do presidente interessa, e só a do presidente e de seus arredores.

Criaram, na imprensa, um personagem fantástico, feito de retalhos de inquéritos, retalhos de declarações do próprio presidente, retalhos de declarações de seu sósia na vida real, o cidadão brasileiro Genivaldo Inácio da Silva, irmão mais velho do mandatário da nação. Esse personagem chama-se Vavá. Vavá está em toda a parte, Vavá é o band-aid da falta de assunto, Vavá é imorredouro, Vavá é tudo e é nada, é lobista e é ingênuo, é um vírus e é o inocente-útil, é falastrão e é calado, tudo depende da manchete e da notícia. Vavá é melhor do que Roberto Jefferson: ao contrário deste, Vavá quase nada parece ter a dizer. Então pode se lhe atribuir tudo. Vavá ligou para o presidente. O outro irmão do presidente ligou para Vavá. Aliás, não se sabe se foi propriamente o irmão, só se sabe ao certo que o telefonema partiu de um telefone da família, e que provavelmente a voz em questão deve ser desse outro irmão.

É uma novela de suposições. Provas, investigação jornalística, muito pouco há. Há ilações a partir de fragmentos de relatórios e inquéritos, de conjeturas e suposições. Mas de tudo se pode tirar uma conclusão segura. O que interessa mesmo é mostrar como Vavá (o personagem, do irmão de Lula, pelo noticiário, pouco sei), esse Vavá, é canhestro, é desajeitado, como ele parece ter feito lobby sem saber fazer lobby. Lobby, afinal, é coisa de gente fina. Pobre faz lobby? Não, responde esse noticiário grotesco. Pobre pede. É diferente.

A conclusão dessa leitura acumulada é uma só: é nisso que dá por alguém “do povo” no Palácio do Planalto. É que nem casamento: os noivos não casam só um com a outra, ou com o outro, ou uma com a outra, nestes novos tempos (felizmente) mais abertos que o Brasil vive; os noivos casam com as respectivas famílias também. E vejam no que dá fazer a família de pobre (e petista ainda por cima!) chegar à rampa do Palácio. Dá lobby? Não, não só. Dá ridículo, dá vergonha, é isto que o noticiário exala. Pobre é desajeitado, quando fala se lambuza de palavras e de poder, vejam só!

Enquanto isso, o país vai melhor. Em muitas coisas, em outras não, é claro. A economia vai melhor, o povo vai melhor, muito melhor do que nunca esteve, pelo menos desde os tempos dos finados doutores Getúlio e Juscelino. O dólar baixa, o poder aquisitivo cresce, as famílias tem mais dinheiro para gastar (há economistas preocupadíssimos com isso), o euro nunca esteve tão baixo em relação ao real, a economia se aquece aqui e ali, ou seja, há um país inteiro a decifrar: que pauta!

Mas as esfinges do nosso jornalismo ímpares só têm uma pergunta a se fazer: como impedir daqui para frente que o povo possa imaginar que um deles – ou mesmo um que governe em nome deles, por eles e para eles – possa permanecer impune, imune, no Palácio do Planalto.



Flávio Aguiar é correspondente internacional da Carta Maior em Berlim.


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COMENTÁRIOS (22 Comentários)
       
Opinião Comentário Autor Data
Este texto fale de um Brasi... Domingos Carlos Si... 20/06/2007
Espero um dia, poder viver ... Neuber de Souza 17/06/2007
É... Pobre pode ser corrupt... Fabio Andrade 17/06/2007
Agradeço as manifestações d... Flavio Aguiar 17/06/2007
Prezado Flávio, Já estava ... Márcia Regina 17/06/2007
O único interesse da mídia... Laércio Nunes 17/06/2007
Parabens. Ainda bem que no ... joylce dominguez 17/06/2007
Criaram, na imprensa, um pe... alfio bogdan 17/06/2007
Pois, Flávio, vc que vem lá... Nara Junqueira 17/06/2007
Estávamos saudosos de um ar... Leonardo Martins 15/06/2007
Para a "cultura" defensiva ... sidnei liberal 15/06/2007
Concordo com o Flávio Aguia... Eli Braz 15/06/2007
Parabéns pela lucidez, inte... Gilson 15/06/2007
A imprensa burguesa está ab... Walter Castanho 15/06/2007
Rodolfo ,se vc bem percebeu... Semblano Júulio 15/06/2007
Parabéns, Flávio! Você, com... Carlos Henrique Si... 15/06/2007
Pelo artigo, ficamos sabend... Paulo Jose 15/06/2007
Flávio, a pergunta que faço... Fernando Ferreira 15/06/2007
Realmente não é possível es... Telma Hindrikson 15/06/2007
Caro Flávio, suas matérias ... Marcelo de Matos 15/06/2007
E o Renan? O Presidente do ... eduardo oliveira 15/06/2007
Caro Flávio, a mídia conser... Rodolfo Cabral 14/06/2007
 
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