Colunistas| 14/10/2008 | Copyleft

DEBATE ABERTO

O fim do mantra neoliberal

E agora? Como ficam todos os credos quando o efeito dominó do sistema financeiro estadunidense leva o diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI) a decretar o fracasso da tentativa de adoção de mercados globalizados?

Se ainda é cedo para avaliar a duração da crise do sistema financeiro e sua intensidade sobre a economia mundial, alguns sofismas que, no apogeu do neoliberalismo, foram elevados à categoria de axiomas, desmoronaram como castelos de areia. Tudo que era líquido e estável se evaporou no estouro da bolha de uma economia alavancada em sua própria irracionalidade.

Na agenda dos economistas neoclássicos, inspiradores de executivos e consultores das grandes corporações, não só o Estado era apresentado como uma instituição estranha à "saudável" acumulação, quase uma excrescência que tinha que ficar contida "nos limites de sua atuação ao essencialmente imprescindível" , como o estudo das ações econômicas dos homens poderia ser feito abstraindo-se as suas dimensões éticas, religiosas e políticas.

Para um mercado exuberante nada melhor que um homem sem história. A equação perfeita compreendia a subordinação da política à economia e desta ao cálculo contábil. Nos "não lugares" da modernidade líquida, o homo economicus vagava como fragmento, como parcela que apenas produz e consome. “Egoísta” e “racional”, encontrava-se com outros homens apenas para negociar suas decisões de compra e venda emitidas por intermédio de sistema de preços. Teria, enfim, trocado a possibilidade do devir histórico pelos mercados derivativos. A harmonia estava assegurada por mercados competitivos e desregulamentados. Nada de Estado impondo seus projetos. O contrato social era a lei do valor enlouquecida.

O que lhe sobrava, na visão instrumental dos players do cassino, era a eliminação de subsídios às empresas, cortar gastos sociais e reduzir de forma acentuada os gastos governamentais. Privatizar, descentralizar, desregulamentar. Eis a santíssima trindade da mística dos fundamentalistas de mercado. Um mantra que se reproduziu por quase duas décadas nos centros acadêmicos e editorias de economia.

Quem ousaria duvidar que estivesse em funcionamento na economia uma série de regras novas, e um tanto desconhecidas, embasando um círculo virtuoso que poderia durar muitos anos ainda? Questões como o crescente endividamento de milhões de americanos que contraíam seus débitos para investir na bolsa, mirando um lucro fabuloso em pouco tempo, eram detalhes que só preocupavam os teóricos da obsolescência. Aqueles que teimavam em se opor a um projeto de exercício do poder político que tinha como premissas a refundação da economia de mercado e a reforma do Estado.

E agora? Como ficam todos os credos quando o efeito dominó do sistema financeiro estadunidense leva o diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional(FMI) a decretar o fracasso da tentativa de adoção de mercados globalizados? Quando o governo Bush, seguindo a estratégia dos países europeus, anuncia o investimento de US$ 250 bilhões na aquisição de ações preferenciais de bancos privados “para fortalecer a confiança do público no sistema"? O que fazer com os “sábios” vaticínios de Hayek e Friedman. Conceder o Nobel de Economia a Paul Krugman não é mea-culpa suficiente. É necessário bem mais.

É preciso admitir que as políticas de um Estado regulador de mercado podem não acompanhar o ritmo do processo de desenvolvimento capitalista, mas os modelos de regulação keynesianos continuam imprescindíveis para a manutenção do ambiente institucional requerido para momentos em que o modelo da “competição perfeita” revela seu caráter ficcional. Resta, ainda, admitir que talvez a crise do homo economicus não seja acidental, nem meramente econômica. É constitutiva da amoralidade em que opera um modo de produção que tem como " ethos" o lucro a qualquer preço.

A necessidade de formular alternativas contra-hegemônicas nunca se mostrou tão urgente. È hora de a esquerda retomar a leitura de seus clássicos, atualizá-los à luz das exigências contemporâneas, recusando toda e qualquer formulação reducionista.

Para a anomia do capitalismo o único ativo que não perde valor é a barbárie. Esse tem sido o papel menos volátil quando a taxa de lucro mostra acentuado declínio.



Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Jornal do Brasil


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COMENTÁRIOS (26 Comentários)
       
Opinião Comentário Autor Data
Não há comentário que se fa... Gabriella Mendes 23/10/2008
É mesmo muito bom, Hélcio, ... luiz claudio pinhe... 17/10/2008
Este rexto serve para Helci... Fernando Augusto 17/10/2008
" Aliás, repudio qualquer a... Mônica Barroso 17/10/2008
Luis Cláudio, bom ler argum... Hélcio Lunes 17/10/2008
Só tem uma saída. Tempera o... Jorge Monteiro 16/10/2008
Deixa ver se entendi: ... Cassio 16/10/2008
Acabo de ler o artigo no Ve... Henrique Macedo 16/10/2008
Hélcio, para que confundir ... luiz claudio 16/10/2008
Ah, Hélcio, involuntariamen... Mônica Barroso 16/10/2008
A crise pegou o mundo de pi... Marcelo de Matos 16/10/2008
Hélcio, da minha qualificaç... Mônica Barroso 16/10/2008
Incrível como ainda tem gen... Lucas Fernandes 16/10/2008
Monica Barroso, parabéns pe... Hélcio Lunes 16/10/2008
No momento em que os países... Monica Barroso 16/10/2008
Luis Cláudio, mais mediocre... Hélcio Lunes 16/10/2008
Hélcio, acreditar na imutab... luiz claudio pinhe... 16/10/2008
Não há saída sem o Estado. ... Raphael Dias 15/10/2008
Queria ver a elite capitali... Fernanda Araujo 15/10/2008
O que está acontecendo nos ... Carolina Gomes 15/10/2008
Hélcio, desde os anos 70 do... Rosana Mendes 15/10/2008
A pouco tempo, o gov. Serra... Francisco Antonio ... 15/10/2008
O capitalismo sai dessa, co... Hélcio Lunes 15/10/2008
E agora? pergunto com o aut... Fernando Pinto 15/10/2008
Enquanto se dá bola aos vel... Alexandre Ramos 15/10/2008
E que vá para bem longe ess... Andrea Guedes 15/10/2008
 
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