Colunistas| 31/10/2008 | Copyleft

DEBATE ABERTO

Marx, o consultor que não foi ouvido

O terremoto financeiro deixou muitos jornalistas e editorias de economia sem discurso. Tivessem diversificado a leitura e a perplexidade com a crise seria menor. Bastava uma leitura atenta do livro três, do quinto volume de "O Capital".

Uma das características do jornalismo econômico brasileiro, como bem destacou o analista César Fonseca, em artigo para o Observatório da Imprensa (“Símbolo da desinformação ideológica”, edição de 6/6/2005) é a perspectiva mecanicista adotada. Funciona como uma espécie de manual de proteção contra o pensamento crítico. Simplificadora ao máximo, dá livre curso aos sofismas do observador isento. Positivistas e neoclássicos não escondem a familiaridade que sempre tiveram uns com os outros nas páginas dos grandes jornais.

O movimento da realidade capitalista é concebido tendo como eixo um consumidor abstrato. Assim, não há como não resvalar para uma visão reducionista e cindida do que se pretende explicar. Perdido o ponto de vista das forças produtivas e das relações sociais de produção em seu caráter dual, dialético e interativo, o que sobra é uma economia sem processo histórico, uma petição que se evapora em equações matemáticas duvidosas.

Se uma coisa está bastante clara na crise financeira que se abateu sobre o capitalismo é que o terremoto deixou as editorias de economia sem discurso. E disso, elas ainda não se deram conta plenamente. Continuam a ver como derrapagem operacional o que é constitutivo do próprio modo de produção: as origens dessa crise, como de tantas outras, é uma crise de origem. Não há ponto de equilíbrio na lógica financeira. Nunca houve. Nunca haverá.

A jornalista Miriam Leitão, como tantos outros, é uma repetidora contumaz do que lhe sopram consultores de banco e economistas de formação neoclássica. Apesar de tudo, continua pontificando na grande imprensa, mas não consegue esconder o desconforto com a repentina nudez imposta pelo desmoronamento das falsas crenças que, junto, levaram o suposto conhecimento de causa. Resta o consolo de não estar sozinha, mas a desenvoltura de outrora deu lugar a uma postura reativa.

Prova disso é o aumento da indigência discursiva. Em seu programa de 31/10, na Rádio CBN, dedicou-se a especular sobre quais seriam os prováveis "ganhadores" da crise. E o saldo inicial apontou para o FMI que estava caindo em desuso e sem importância política; os executivos de grandes bancos que ainda embolsarão gordos dividendos, e agências de risco que, apesar dos erros colossais continuam funcionando e influenciando o mercado.

Mas a jornalista se esqueceu de um detalhe e, como sabemos, é nele que mora o diabo. Quem foram os perdedores? Quem apostou todas as fichas na cartilha neoliberal?

Os conselhos de Hayek e Friedman não davam margem a qualquer dúvida. Bastava reduzir o tamanho do Estado e diminuir os gastos públicos. Deixar tudo por conta da iniciativa privada para que o mercado de capitais funcionasse como motor infalível. Era seguro que viveríamos momentos de abundância de capital barato no mundo. E, se por algum motivo, a disponibilidade de recursos fosse afetada, a economia teria atributos insondáveis que nos recolocariam em situação favorável.

As crises precedentes foram “assimiladas” e as agências internacionais de análise de risco eram confiáveis termômetros a atestar a realidade saudável de uma economia repleta de estatísticas otimistas. Os governos deveriam delegar ao capital todos os investimentos que tivessem condições de oferecer taxas de retorno atraentes e cuidar apenas de construir arcabouços regulatórios que impedissem qualquer restrição ao livre movimento do capital, ao empreendorismo vitorioso.

Só a política podia atrapalhar a economia. E isso devia ser evitado a qualquer custo. Se a “ineficiência" do Estado afugentava o investidor, o ideal era abater o Leviatã a tiros, pois, como informava a cartilha, quem gera renda e emprego não é o setor público, mas a iniciativa privada e era para ela, e seus investimentos, que deveria ser criado um ambiente receptivo, com precarização das relações trabalhistas e supressão de direitos sociais.

Outro axioma era quanto à inserção internacional escolhida. A "boa razão" mandava abandonar a política ”terceiro-mundista” do governo Lula e eleger a Alca como objetivo maior. Afinal ganharíamos em escala com uma associação efetiva aos interesses dos Estados Unidos. Mais sensato do que tentar unir o que assimetrias regionais tornavam demasiadamente custoso. A América Latina- e nisso os plantonistas do neoliberalismo ainda insistem - sempre foi uma impossibilidade histórica.

Tudo era tão cristalino que só a má-fé ideológica poderia contestar. Esse não era o discurso único de consultores e jornalistas? Gente acostumada com números, índices e crenças inabaláveis? Pessoas que não costumavam errar, ”profissionais do mercado”, figuras centrais de um mundo pós-keynesiano em que os agentes alocavam, com perfeição, almas e recursos. Quebrado o encanto, vislumbraram o horror econômico, um pânico nunca imaginado no paraíso de Hayek.

Tivessem diversificado a leitura e a perplexidade com a crise financeira seria menor. Bastava uma leitura atenta ao livro três, do quinto volume de O Capital. Lá, o velho Marx demonstra por que seu pensamento ainda é o de maior relevância explanatória quando se quer entender o capitalismo. Os trechos escolhidos são a evidência da vitalidade teórica. Mostram a atualidade de uma análise vigorosa que, por decreto ideológico, foi relegada ao plano das idéias ultrapassadas.

“Num sistema de produção em que o mecanismo do processo de reprodução repousa sobre o crédito, se este cessa bruscamente admitindo-se apenas pagamento de contado, deve evidentemente sobrevir crise, corrida violenta aos meios de pagamento. Por isso, à primeira vista, toda crise se configura como simples crise de crédito e crise de dinheiro. E na realidade trata-se apenas da conversibilidade das letras em dinheiro. Mas, essas letras representam, na maioria dos casos, compras e vendas reais cuja expansão ultrapassa de longe as exigências da sociedade, o que constitui, em última análise, a razão de toda a crise.”

"Ademais, massa enorme dessas letras representa especulações puras que desmoronam à luz do dia; ou especulações conduzidas com capital alheio, porém, mal sucedidas: finalmente, capitais-mercadorias que se depreciaram ou ficaram mesmo invendáveis, ou retornos irrealizáveis de capital"

"Tudo aqui está às avessas, pois, nesse mundo de papel, não aparecem o preço real e seus elementos efetivos, vendo-se apenas barras, dinheiro, sonantes, bilhetes, letras, valores mobiliários”.

“Representa para o possuidor e para o credor deste (e como garantia de letras e empréstimos), menos capital-dinheiro que ao tempo em que foi adquirido e em que, por ele garantidos, se efetuaram descontos e empréstimos."

Como se vê com pequenas adaptações aos mecanismos criados ao longo do tempo, o “trabalho de consultoria" de Marx supera o de qualquer discípulo de Hayek e Friedman. Se Miriam quer descobrir quem foram os derrotados, deve estar atenta a um dado crucial: o vencedor transpõe dialeticamente o problema. O derrotado dá voltas em torno dele. E esse tem sido o movimento da imprensa nativa e seus economistas mais graduados. Dar voltas em torno de uma cauda que não pára de abanar.


Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Jornal do Brasil


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COMENTÁRIOS (44 Comentários)
       
Opinião Comentário Autor Data
Mas o problema não se cinge... gisele cristiane p... 21/11/2008
VEJAM COMO REAGE, "DESPIST... ANTÔNIO ALBERTO (P... 08/11/2008
MOVIMENTOS DE ESQUERDA TÊM ... ANTÔNIO ALBERTO (P... 08/11/2008
Pe Alberto: é claro que Com... Flávio Vieira 07/11/2008
O CAPITALISMO E O COMUNISMO... ANTÔNIO ALBERTO (P... 07/11/2008
Marx está cada vez mais atu... Carolina Gomes 07/11/2008
Marx é sim um grande pensad... Flávio Vieira 06/11/2008
Bravo!!!Bravíssimo!!!Nada a... Julio Ramon 05/11/2008
Caro prof. Gilson! O Walter... Francisco Antonio ... 05/11/2008
Nada mais simples....Três p... Enio Lima 05/11/2008
O " consultor que não foi o... Alexandre Ramos 04/11/2008
Excelente!!! Que interessan... Flávia Naves 04/11/2008
Qualquer Zé Roela sabe que ... Bruna Macedo 04/11/2008
Qualquer zé roela sabe que ... Daniel Oliveira 04/11/2008
Muito bom Professor Gilson.... Ana Mesquita 04/11/2008
1º Marx 2º Engels E o r... Paulo Roberto 04/11/2008
Não é possível responder às... Carlos Martins 04/11/2008
Cássio, será que você não p... Carlos Guimarães 03/11/2008
Veronica, sobre a lei do ... Cassio 03/11/2008
Um pouco da boa e velha eco... Renato Braga 03/11/2008
E o que dizer da fusão Unib... Rodrigo Almeida 03/11/2008
Artur, convenhamos que é di... Andrea Guedes 03/11/2008
Prezados, estou do outro la... Artur Moret 03/11/2008
A crise dos derivativos exp... Renan Farias 02/11/2008
Gente, é claro que com a ba... Henrique Coutinho 02/11/2008
Marx só é superado quando( ... Flávio Carvalho 02/11/2008
Na mosca, professor. Não há... Rodrigo Almeida 02/11/2008
Excelente sugestão, Marroni... Marco Antônio Mell... 02/11/2008
Simplesmente o márximo. Ana Helena Tavares 02/11/2008
Sugiro a Leitura do "Colaps... Marroni 02/11/2008
Marx tinha razão quando fal... Rogério Ferreira 01/11/2008
Nossos jornalistas neoliber... luiz claudio pinhe... 01/11/2008
O problema da mídia, é que ... Luiz 01/11/2008
Quiseram enterrar o velinho... Ronaldo Duarte 01/11/2008
O problema da crise existen... Paola Ligasacchi 01/11/2008
Quem discordar do que está ... Verônica Duarte 01/11/2008
Analisar o que já passou é ... Alexandre Weber 01/11/2008
Sabem qual é o meu medo? Qu... Roberto Lopes 01/11/2008
Mais uma vez, o prof. Gilso... Francisco Antonio ... 01/11/2008
Para Marx o Capitalismo iri... Eduardo Ferreira 01/11/2008
É muito oportuno um artigo ... Ricardo Mendes 01/11/2008
A LÓGICA É LÓGICA ! >> SIGA... ANTÔNIO ALBERTO (P... 31/10/2008
Só cabe uma palavra: brilha... Andrea Guedes 31/10/2008
há quantos anos isso, marx?... vantuk 31/10/2008
 
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