Colunistas| 07/11/2008 | Copyleft

DEBATE ABERTO

Obama, lições de uma vitória

Se há algo que precisa ser destacado como elemento central na vitória de Barack Obama é justamente o reconhecimento dos movimentos sociais como atores de enorme importância para a revitalização da esfera pública.

Dois equívocos devem ser evitados quando analisamos a chegada de Barack Obama à Presidência dos Estados Unidos: o triunfalismo pueril e o ceticismo fatalista. Se o primeiro ignora os enormes desafios que esperam o próximo ocupante da Casa Branca, caindo em um voluntarismo inconseqüente, o segundo, aquele que prima pelo discurso do “nada muda, o imperialismo estadunidense continuará da mesma forma", renega a prática política como fator de transformação. Ambos desconhecem a práxis como critério de verdade e caem em um perigoso vazio.

Obama não é “um raio num dia de céu azul". A inflexão ética que representa sua eleição não pode ser vista como algo sem importância. Estamos tratando de um processo eleitoral. E uma eleição nunca deixa de revelar novas subjetividades que se expressam como adesão ao universo simbólico do candidato eleito. Desconsiderar esse ponto é o mesmo que renunciar à compreensão de características que definem os mecanismos de poder existentes em quaisquer sociedades.

Sem dúvida, a crise econômica favoreceu a vitória do candidato democrata, mas terá sido ela o fator decisivo? Há oito anos, o historiador Nicolau Sevcenko afirmava que "esses movimentos que a gente viu tomar as ruas de uma maneira teatral, fortemente simbólica, em Seattle, Toronto, Washington e Praga, são a projeção na praça pública desse grande nexo de pessoas de todo o mundo que convergem para uma crítica que pretende recolocar o homem no centro do processo histórico". As palavras de Sevcenko eram uma correta reflexão sobre o lugar da política no contexto da globalização neoliberal.

Há quem atribua ao ex-presidente Lyndon Johnson, quando assinou a lei dos direitos civis em 1964, a origem mais remota da vitória de Obama. Mas cremos ser mais preciso atribuí-la à massa crítica acumulada desde as manifestações de Seatlle.

O real sentido de seu êxito aponta para uma mudança de ênfase, tons e prioridades da sociedade estadunidense. E, dependendo da agenda que adote, o novo governo pode significar a revalorização da democracia, o desmentido da crença de que os agentes de mercado possuíam uma força econômica tão esmagadora que eram capazes de eliminar a ação política.

Se, de um lado, os fundamentalistas do livre mercado estavam convencidos de que a mundialização do capitalismo era o experimento mais bem-sucedido da humanidade, a ponto de tornar obsoleta a dimensão política, de outro, o discurso da esquerda não conseguia ultrapassar o nível da denúncia contra os estragos provocados nas economias e culturas nacionais. Ou seja, não lograva articular uma narrativa que demonstrasse, com eficácia, que as tendências globalizantes, supostamente criadoras de uma “sociedade mundial", controlada pelo mercado e impermeável a intervenções políticas nacionais, nada mais eram que uma quimera ideológica.

De fato, se há algo que precisa ser destacado como elemento central na vitória de Barack Obama é justamente o reconhecimento dos movimentos sociais como atores de enorme importância para a revitalização da esfera pública. É necessário apreendê-los como formas de organização que reconhecem novos direitos. As lágrimas do pastor Jesse Jackson não evocam apenas o passado, mas, sinuosamente, escorrem para o futuro.

A mesma crise econômica que limita a margem de manobra de Obama, dialeticamente, abre espaço para a imaginação criadora. Há os desafios impostos pelo endividamento das famílias norte-americanas, pelo aumento do desemprego, da desigualdade, e pela pilhagem do meio-ambiente sob o comando das corporações.

A ofensiva internacional de Bush II, formulada antes mesmo da chegada dos republicanos ao poder, precisa ser interrompida o mais rápido possível. A sociedade americana já se deu conta de que o "imperialismo democrático" das lideranças neoconservadoras não é sequer factível. A política externa de George W. Bush foi um desastre sem tamanho. É hora de elaborar nova agenda que contemple um multilateralismo efetivo. Os termos do novo cenário estão contidos em “Nossa Carta a Obama", publicada em Carta Maior.

O presidente que começou vencendo a máquina de seu próprio partido tem que estar ciente que o tempo corre contra ele. A direita já está se articulando com vistas às eleições parlamentares de 2010. E, paradoxalmente, aposta na crise que a apeou do poder. Nesse caso, mantém uma estreita sincronia com sua congênere brasileira. Sem falar da sintonia ética.


Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Jornal do Brasil


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COMENTÁRIOS (26 Comentários)
       
Opinião Comentário Autor Data
Concordo totalmente com Gil... Jorge Ernesto Cout... 19/11/2008
Li o artigo na página do PT... Carla Rodrigues 12/11/2008
É, caro Gil, não tens nada ... Ana Helena Tavares 12/11/2008
Destaco esse parágrafo como... Alberto Costa 12/11/2008
Texto elucidativo. Leitura ... Roberta Guedes 11/11/2008
Ao contrário do que ocorre ... Eduardo Sander 11/11/2008
É, Caroni fº, tens um circu... Fernando Gil 11/11/2008
Finalmente ouço uma voz apo... Roberto Locatelli 11/11/2008
"Mas cremos ser mais precis... Fernanda Araujo 10/11/2008
Professor, seus textos sao ... Ricardo Pereira 10/11/2008
Concordo plenamente Gilson ... Lúcia Adélia 10/11/2008
Yes, we can. Nós também. Leonardo Amorim 10/11/2008
Um passo igualitarista. A r... walter morales ara... 10/11/2008
A gente sabe que democratas... Carlos Motta 09/11/2008
Essa eleição do Obama traz ... Gabriella Mendes 09/11/2008
Embora eu não acredite em r... Valéria Bastos 09/11/2008
Não cabe mais imperialismo ... Ana Helena Tavares 09/11/2008
São muitas as lições dessa ... Ana Letícia Leite 09/11/2008
O mundo está um pouco melho... Alexandra Gomes 09/11/2008
Sabe a que conclusão estou ... Edmundo Souto 09/11/2008
VEJAM COMO REAGE, “DESPIS... ANTÔNIO ALBERTO (P... 08/11/2008
MOVIMENTOS DE ESQUERDA TÊM ... ANTÔNIO ALBERTO (P... 08/11/2008
NO BRASIL ? MOVIMENTOS POPU... ANTÔNIO ALBERTO (P... 08/11/2008
Tem razão, Francisco. E mui... Mônica Fernandes 08/11/2008
O partido Democrata dos EUA... Francisco Antonio ... 08/11/2008
Perfeito. A partir do próxi... Andrea Guedes 07/11/2008
 
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