Colunistas| 12/11/2008 | Copyleft

DEBATE ABERTO

Gilmar Mendes, quem são os terroristas?

Ao afirmar que “terrorismo também é crime imprescritível”, em alusão aos que participaram da luta armada contra o regime de 64, o ministro demonstrou que segue a semântica da ditadura militar. Um olhar menos indulgente sobre a ditadura lhe permitiria ver um regime que tinha como metodologia o terrorismo de Estado.

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Gilmar Mendes, tem se notabilizado por um sentimento de urgência no que julga ser seu principal papel como magistrado: dar sustentação jurídica às teses da oposição parlamentar e seu braço midiático no combate ao governo Lula. Mas o faz de forma tão atabalhoada que constrange até mesmo os “bons companheiros”.

Mendes tem sido alvo de crítica até de contumazes articulistas da grande imprensa, uma vez que o primarismo de suas manifestações desnuda, e expõe ao ridículo, uma estratégia traçada para se manter ativa até 2010. Não foi por outro motivo que o jornalista Elio Gaspari, conhecido pelo antipetismo raivoso, escreveu em sua coluna, na Folha de São Paulo, do último domingo:

“O ministro Gilmar Mendes, presidente do STF, precisa decidir qual é seu lugar no estádio. Ele pode ficar na tribuna de honra, de toga, lendo votos capazes de servir de lição. Pode também vestir as camisas dos times de sua preferência, indo disputar a bola no gramado. Não pode fazer as duas coisas”.

O alerta de Gaspari se respalda na experiência de quem conhece o jogo e tem noção mais acurada do "timing" exigido. Sabe que um juiz que emite prejulgamentos sobre processo em que terá que se manifestar oficialmente se expõe à perda de legitimidade. A judicialização da política guarda similitudes profundas com o noticiário editorializado. E a afinidade de dois campos distintos, quando se torna muito evidente, produz estragos consideráveis para os objetivos das forças conservadoras.

Ao afirmar que “terrorismo também é crime imprescritível”, em alusão aos que participaram da luta armada contra o regime de 64, o ministro demonstrou que segue a semântica da ditadura militar que recomendou aos jornais da grande imprensa a classificação de “terroristas” a todas as ações armadas praticadas por guerrilheiros. Em questão, além da isenção do presidente do Supremo, está seu embasamento conceitual sobre terrorismo.

Diante da confusão, é preciso discutir o que se entende como terror. Afinal, a resistência armada contra a opressão é admitida até pela Carta de Direitos Humanos da ONU. Qual a diferença disso em relação a atos terroristas tal como são definidos pelo direito internacional?

Como indagou o jornalista Cid Benjamim, em artigo publicado em 2001, no Jornal do Brasil, ”teria sido Marighella um terrorista, tal como os autores dos atentados nos Estados Unidos? Teria sido Lamarca um terrorista? E os sandinistas, que derrubaram a ditadura de Somoza? Estadistas hoje respeitados, que lideraram revoluções armadas – como Fidel Castro, por exemplo – foram também terroristas? E os combatentes da Resistência Francesa, também eram eles terroristas?

Seria interessante o presidente da mais alta corte do país ser apresentado aos protocolos das convenções de Genebra, onde não se confunde terrorismo com direito à resistência, pois neste "não se verifica a intenção de intimidação da sociedade, mesmo porque o que se pretende com o exercício de tal prerrogativa é exatamente o maior apoio possível da maioria da sociedade em favor da causa patrocinada”.

Um olhar menos indulgente sobre a ditadura de 1964 lhe permitiria ver um regime que tinha como metodologia o terrorismo de Estado. Altos comandantes militares fortaleciam e protegiam da vista da opinião pública e da precária justiça existente - com represálias e censuras - os centros de torturas e seus protagonistas mais conhecidos, como o falecido delegado Sérgio Fleury.

Com o governo Médici, o aparato repressivo chegou ao auge com a criação da Operação Bandeirantes. Ler sobre o caso Parasar, capitaneado pelo brigadeiro João Paulo Burnier, para que o serviço de salvamento da FAB entrasse na repressão política, matando ou jogando no alto-mar os corpos dos opositores políticos, talvez servisse como bom exercício de reflexão para Gilmar Mendes. Quem sabe contextualizando a tortura, o ministro não se dê conta de que anistiar quem a praticou seja defender o real terrorismo? É isso que a sociedade espera do judiciário brasileiro? Que se torne uma instituição típica de países conhecidos pela violação de direitos humanos?

Talvez seja o caso de recomendar ao ministro a leitura de “Eros e Civilização”. Nele, Herbert Marcuse afirma categoricamente:

“Esquecer é também perdoar o que não seria perdoado se a justiça e a liberdade prevalecessem. Esse perdão reproduz as condições que reproduzem injustiça e escravidão: esquecer o sofrimento passado é perdoar as forças que o causaram - sem derrotar essas forças”.

É disso que se trata. Ou acertamos nossas contas com o passado - e desse acerto reunimos condições para avançar - ou ficamos refém de um simulacro de democracia.


Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Jornal do Brasil


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COMENTÁRIOS (78 Comentários)
       
Opinião Comentário Autor Data
belo artigo. os "terrorista... Joao Paulo C. Souz... 19/11/2008
O Sr. Cassio deve ser reman... Gilson Martinez 18/11/2008
Muitos que usam como argume... Neuber de Souza 18/11/2008
Matou a pau. É lamentável, ... Sonia Montenegro 18/11/2008
Maravilhoso, Gílson Caroni!... Carlos Henrique Si... 18/11/2008
Quem tortura não deve conta... Juliana Mendes 17/11/2008
Seu Abelardo, meu nome é es... Cassio 17/11/2008
O Ministro deveria lembrar ... Gabriella Mendes 17/11/2008
Flávio, se dependesse do PT... Bruno Ferreira 17/11/2008
O terrorismo foi praticado ... Carolina Macedo 17/11/2008
Essa coluna defende a puniç... Jorge Ernesto Cout... 17/11/2008
O que é terrorismo não foi ... Marcelo hermes 17/11/2008
È profundamente lamentavel ... Eri Pereira 16/11/2008
"O terrorismo é uma ação, u... Abelardo Queiroz 16/11/2008
Como esses direitistas são ... Marcos Roma Santa 16/11/2008
Gilmar Mendes, propositadam... Carlos Martins 16/11/2008
Era terrorismo sim. Quem ... Cassio 16/11/2008
A comparação de líderes rev... Fernanda Araujo 16/11/2008
Augusto, eles acabaram com ... Bruno Ferreira 16/11/2008
òtimo artigo. Terror não é ... Marlene Soccas 16/11/2008
A discussão está saindo do ... Flávio Vieira 16/11/2008
Fidel e Guevara foram revol... Augusto Mello 15/11/2008
E eu gostaria de saber o qu... Augusto Mello 15/11/2008
Seria interessante que o G... Aluízio Valério da... 15/11/2008
Augusto, ambos foram assass... Bruno Ferreira 14/11/2008
E AGORA , GILMAR D' ANTAS ... ANTÔNIO aLBERTO (P... 14/11/2008
Lutar contra a dominação na... Lucas Maia 14/11/2008
Chora fascistada! A verdade... Ricardo Freitas 14/11/2008
Por um motivo simples, Brun... Augusto Mello 14/11/2008
A gente tem que entender um... Bruna Pontes 14/11/2008
Por que o autor não fala do... Bruno Ferreira 14/11/2008
O ministro quis dizer isso ... Augusto Mello 14/11/2008
o que seria tortura para o ... molina 14/11/2008
Acho que o que o ministro q... PJ 14/11/2008
Falou tudo professor Caroni... Lúcia Adélia 14/11/2008
Falam em revolução de 64, q... Fernando Augusto 14/11/2008
os fascistas continuam a me... altamiro 14/11/2008
Thomaz, ainda tem gente que... Beatriz Fontes 14/11/2008
Os terroristas, Gilmar Mend... Andrea Guedes 14/11/2008
Os verdadeiros terroristas ... Paulo Vargas 14/11/2008
Como ADVOGADO militante, há... Zeca Lisboa 14/11/2008
O de sempre. Dizer que a "l... Thomaz Magalhães 14/11/2008
Gilson, peço licença para f... Jair de Souza 14/11/2008
Com cidadãos como o Prof. G... Luiz 14/11/2008
O nosso Presidente Supremo ... Fábio Lemos 14/11/2008
"Quem tem a pretensão e o p... Flávio Maciel 14/11/2008
Caro Gilson, como você já d... Marcos Roma Santa 14/11/2008
E vamos que vamos porque a ... Rafael Pires 14/11/2008
Justiça! Esse artigo é a de... Abelardo Araujo 13/11/2008
O povo judeu não esquece ne... Adriano Soares de ... 13/11/2008
O Gilmar mendes deve estar ... luiz claudio pinhe... 13/11/2008
Existe um ditado que diz: "... Francisco Antonio ... 13/11/2008
"HIC ET NUNC" = AQUI E AGOR... ANTÔNIO ALBERTO (P... 13/11/2008
Porque os caras que "sentem... Gilson Martinez 13/11/2008
O Sr. Gilson... esqueceu da... Pietro 13/11/2008
Tirante a sútil defesa do g... Júlio Ramon T da P... 13/11/2008
Novamente, parabéns, Gilson... Jair de Souza 13/11/2008
A maior prova de que os ade... ernesto moraes 13/11/2008
Um petardo contra o cinismo... Arthur Fraga 13/11/2008
Realmente tem é gente que a... Fernando Gil 12/11/2008
Gilson, vc continua um prof... Dani Tristão 12/11/2008
Além da atabalhoada declara... Joaquim Henrique O... 12/11/2008
É isso aí FERNANDA, o tal F... Lúcia Adélia 12/11/2008
É verdade, então os liberai... antonio 12/11/2008
Estava faltando um artigo d... Rodrigo Almeida 12/11/2008
E o fernando é que continua... Fernanda Araujo 12/11/2008
MOVIMENTOS DE ESQUERDA TÊM ... ANTÔNIO ALBERTO (P... 12/11/2008
Essa é para o digníssimo Gi... Fernanda Araujo 12/11/2008
AVE ...STRUZ !!! >> OND... ANTÔNIO ALBERTO (P... 12/11/2008
O senhor Rodrigo, certament... Francisco Antonio ... 12/11/2008
Não é preciso concordar com... Eugênia 12/11/2008
Um bando armado lutava para... Jorge Nogueira Reb... 12/11/2008
Lembrando a todos, principa... Claudio Faria 12/11/2008
Esse Caroni, continua o mes... Fernando Gil 12/11/2008
Senhor rodrigo leme: qual s... salete 12/11/2008
Estimado Rodrigo, são as op... José Espare 12/11/2008
Quer dizer que a morte e to... Rodrigo Leme 12/11/2008
Um fato que o nobre autor e... Haremhab 12/11/2008
 
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