Colunistas| 22/11/2008 | Copyleft

DEBATE ABERTO

Não diga bobagem, Fernando Henrique.

Atribuindo a Lula um suposto alheamento da crise econômica, o ex-presidente tenta ser irônico ao chamar seu sucessor de "grande economista". Falta um amigo que, em ocasiões como essa, lhe sussurre discretamente: "Não diga bobagem, Fernando Henrique, você continua nu".

A psiquiatria define obsessão como idéias ou imagens que ocorrem repetidamente e parecem estar fora de controle. A compulsão surge, então, para aliviar a angústia que essas idéias e imagens provocam. As últimas críticas de Fernando Henrique Cardoso ao presidente Lula estão inseridas em recorrentes esforços de apagar e reescrever a triste história dos seus dois mandatos sucessivos.

Ao aproveitar um encontro com prefeitos eleitos pelo PSDB paulista para atacar o atual governo, FHC comporta-se como uma pessoa que apresenta duas ou mais personalidades, sendo que a função de uma delas é dissimular seu verdadeiro estado, escondendo-se do mundo exterior, de sua própria realidade. Curiosamente, parece viver somente agora o seu verdadeiro exílio. Aquele que o distancia do que foi - e ainda é - para aproximá-lo do que gostaria de ter sido. No imaginário se reconcilia com a imagem cultivada à sombra das ilusões uspianas e escapa da pequenez política que adquiriu.

Atribuindo a Lula um suposto alheamento da crise econômica, o ex-presidente tenta ser irônico ao chamar seu sucessor de "grande economista". O tom jocoso presente em "veste a roupa, rei. Pare de falar bobagem", resvala para o patético quando afirma que "aqui não é marola, não. Vai perguntar pra quem está perdendo o emprego hoje, que é mineiro da Vale, se é marola. Não é marola. Marola é quando você não é afetado. Está afetando."

Provavelmente estamos diante de um lapso. O “conselheiro" do presidente parece ter apagado da memória que, em seu governo, o país se superou em matéria de malversação do dinheiro público, socialização de prejuízos e entrega do patrimônio nacional. Que foram oito anos de securitização de dívidas de latifundiários inadimplentes (o "agrobusiness") com o Banco do Brasil. Oito anos de crescimento mínimo e endividamento externo máximo.

Esquece também que, como em nenhuma outra, sua gestão promoveu a dependência do país ao capital especulativo, sucateou a Previdência, jogou o país na recessão, e submeteu o destino da nação aos ditames do FMI para conseguir empréstimos de socorro. A nudez presidencial nunca foi tão escandalosa como no período compreendido entre 1994 e 2002.

O tucanato no poder, e é bom que nunca esqueçamos disso, fez das teses monetaristas uma religião. Seu legado foi uma inflação camuflada, desequilíbrios imensos tanto no plano interno quanto no externo. A desnacionalização de partes substantivas da produção e serviços nacionais foi a tônica de uma época que insiste em se apresentar como a “era da estabilidade”.

Aumento do desemprego, congelamento - ou irrisórios reajustes salariais dos servidores públicos - e uma escalada sem precedentes da violência urbana foram algumas das obras marcantes de FHC. Esse mesmo que, em tom professoral, pretende ensinar ao presidente como se comportar em uma crise.

Segundo o economista M. Pochmann, comparando-se os dados do Censo Demográfico de 2000 com os de 1994, encontrava-se um adicional fantástico de sete milhões de novos desempregados gerados durante sete anos. Quantos destes foram ouvidos pelo presidente tucano? Perto da política arrasada do neoliberalismo, o que temos hoje ainda é marola, sim.

Talvez fosse conveniente o ex-presidente ler publicações antigas. Na IstoÉ, de 20 de junho de 2002, o industrial Eugênio Staub, da Gradiente afirmava: "Estamos no sétimo ano de um governo que, em 2002, entregará um país em piores condições do que recebeu. O responsável pela situação atual não é o pobre, nem o americano, nem o militar, somos nós, a elite brasileira". Segundo Staub, a única saída era “a eleição de um líder que fosse capaz de mobilizar a força transformadora". Em suma, alguém capaz de consertar os estragos deixados pelo “grande sociólogo". O ex-presidente que, ao deitar falação, reaviva a memória de quais foram as vestes usadas em seu reinado.

Falta um amigo que, em ocasiões como essa, lhe sussurre discretamente: “Não diga bobagem, Fernando Henrique, você continua nu”.


Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Jornal do Brasil


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COMENTÁRIOS (38 Comentários)
       
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O Noblat poderia publicar e... Osvaldo Cruz 02/12/2008
Muito bom professor! Coitad... Socorro 28/11/2008
FHC é uma unanimidade: ning... Marco Acco 27/11/2008
Roberto Barboza, você errou... Fernanda Araujo 27/11/2008
Grande artigo do Gilson Car... Marcos Vinicius 27/11/2008
Brilhante articulista. Pedi... Priscila Lins 27/11/2008
Não sejamos cruéis com o "p... Roberto Barboza 26/11/2008
Amarre a boca, FHC! Luanna Silva 25/11/2008
O FHC é igual à "Maria Mass... Ivan Pimentel 25/11/2008
Gosto como o Gilson trucida... Bianca Reis 25/11/2008
FHC é um caso doentio de me... Eduardo Gonzaga 25/11/2008
Com a ironia habitual e a b... Raphaela Dias 25/11/2008
No que diz respeito ao prim... Israel 25/11/2008
Gente, esse cara, o tal de ... EDSON CASTRO 25/11/2008
Mais um texto lúcido e pert... Alberto Almeida 25/11/2008
Esse boca de sovaco não per... Fernando Gil 25/11/2008
FHC é o barulho de um passa... Marcelo Maia 24/11/2008
Prezado Gilson, É sempre... Marcilio Serrano 24/11/2008
Fernando Henrique foi desau... Alexandre Mello 24/11/2008
Por essas e outras é que FF... Ary da Silva marti... 24/11/2008
Fernando Henrique sabe como... Pietro 24/11/2008
Boa Gilson Caroni, é sempre... Lúcia Adélia 24/11/2008
Todos sabemos que FHC é um ... Ricardo OLiveira 24/11/2008
Um analfabeto administrou o... JULIANO 24/11/2008
Agora viúvo, quem sabe ele,... Tomás 24/11/2008
Fernando Henrique sabe que ... Frederico Macedo 24/11/2008
Ontem, navegando ao acaso p... Euclides Oliveira 24/11/2008
Cada vez que o FHC abre a b... Francisco Antonio ... 24/11/2008
O engraçado é que o Serra d... Eduardo Romero 24/11/2008
Se Fernando Henrique tivess... Bruna Ferreira 23/11/2008
Caroni Filho, analisa com p... Onete Lopes 23/11/2008
Caro Gilson, se é para faze... Jair de Souza 23/11/2008
Já pensou se a mídia fosse ... Dani Tristão 23/11/2008
Esse senhor só agrada aos... salete 23/11/2008
Quando FHC abre a boca, o g... Carlos Mendes 23/11/2008
Não posso comentar. Não se... Francisco Bezerra 23/11/2008
mais uma excelente analise ... altamiro 23/11/2008
Não adianta, professor. É m... Helena Moreira 23/11/2008
 
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