Colunistas| 15/12/2008 | Copyleft

DEBATE ABERTO

Faltou um divã para FHC?

Deve ter sido muito doloroso para o “príncipe uspiano” descobrir que a sociedade nova não só estava com Lula como, após seis anos de governo, continua a apoiá-lo. Como nunca antes na história desse país.

No dia em que saem mais duas pesquisas dando conta da aprovação recorde do governo e do aumento da popularidade do presidente, o que deve calar mais fundo na oposição é a lembrança do passado recente. E o quanto os seis anos de governo petista representaram de ruptura com ele. Das prioridades internas, com ênfase no mercado interno e nas políticas redestributivas, à inserção externa soberana e bem orientada, as mudanças foram por demais substantivas para serem ignoradas. Assim, é hora de, no final de 2008, relembrarmos o ocaso de um governo que levou o país à bancarrota.

Vivíamos o ano de 1999. Num quadro de crise de ideologias, de fim de utopias, de aumento de desemprego, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso deitava falação sobre as mudanças ocorridas no Brasil. Detectava o surgimento de uma nova sociedade e acreditava que a parte moderna dela iria aderir ao projeto neoliberal. Aquele em que a arquitetura política era vista como defeituosa e as virtudes deveriam ser creditadas aos agentes do mercado, os empreendedores, “heróis” do capitalismo de massa, que deixariam perplexos tanto a esquerda quanto a direita conservadora. Seriam eles "os heróis de nossa gente", filhos do "silêncio" e do "medo da noite".

Correto ao diagnosticar as transformações em curso no país, FHC se equivocava em acreditar que os novos e emergentes setores da sociedade, quando se organizassem efetivamente, apoiariam seu projeto de reformas. Como bem destacou, na época, a cientista política Maria Vitória Benevides, as afirmações de que a crise de representação era algo novo no país e a de que os movimentos sociais, em especial o MST, estavam
enfraquecidos eram falácias tão gritantes que deixavam no ar uma impressão de bonapartismo sugerido. O que o ex-presidente insinuava era que o velho não estava com ele, mas o novo só não o apoiava por falta de organicidade. A incapacidade de pensar o país foi a marca do governo tucano.

O cenário era desolador. O ambiente pós-desvalorização ficou confuso. Sem crescimento, não se recuperava o nível de emprego. O desemprego que explodiu em janeiro de 1998 por causa da crise asiática, não dava sinais de reversão. A combinação de queda na renda e desemprego atingia o setor produtivo. O comércio registrava perdas expressivas durante 18 meses. Com vendas fracas, indústria e comércio tendiam a segurar os preços, deixando claro que só com ambiente recessivo o governo tucano conseguia reduzir a taxa de inflação. Diante disso, é possível falar em continuidade de modelo?

Nesse quadro, os partidos de apoio ao Governo-PSDB, PFL (DEM) e parte expressiva do PMDB - atribuíam à falta de comando do então presidente as disputas e brigas na base aliada. O distanciamento de Fernando Henrique do dia-a-dia da política e a crise econômica minaram sua autoridade, e resultado foi um verdadeiro tiroteio entre os principais políticos desses partidos. Aécio Neves, lembram disso?, se dizia inconformado com o processo de privatização de Furnas. No PFL, a comoção se dava por conta da não nomeação do ex-ministro Luiz Carlos Santos para nenhum cargo, depois de lhe terem prometido a presidência da BR Distribuidora. No PMDB, o desconforto foi causado por uma promessa não cumprida de FHC a Michel Temer de nomear um amigo do ex-presidente da Câmara para a direção da Petrobrás. O acúmulo de ressentimentos sinalizava para uma conclusão melancólica de governo.

As digressões de Fernando Henrique soavam a alheamento da realidade. Pior, uma fuga dela pelo discurso diletante. A situação se apresentava como nunca antes navegada: a impopularidade do presidente era maior que a do seu Governo, o real se contaminava com tudo isso e a bloco de poder contemplava a rota de afastamento. E nenhum jornal pensou em chamar um psicanalista para analisar um presidente em seu ocaso. Ou ouvir a população que, ao reprová-lo, mostrava não fugir da realidade. Um Jacob Pinheiro Goldberg para falar em “mecanismos de negação freqüente quando se enfrenta uma situação de impotência".

Afinal, deve ter sido muito doloroso para o “príncipe uspiano” descobrir que a sociedade nova não só estava com Lula como, após seis anos de governo, continua a apoiá-lo. Como nunca antes na história desse país.

Aos leitores de Carta Maior, um Feliz Natal e um próspero 2009.


Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Jornal do Brasil


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COMENTÁRIOS (61 Comentários)
       
Opinião Comentário Autor Data
As vitórias de Lula nas ele... Jorge Ernesto Cout... 07/01/2009
Quem ainda não leu deve ler... Marcus Vinicius 30/12/2008
Nem mil divãs dariam conta ... Anão Corcunda 28/12/2008
Parabéns, professor e Carta... Andrea Guedes 24/12/2008
Não faltou só um divã não, ... Fernanda Araujo 23/12/2008
Retrospectiva 2008. Qual a ... Ronaldo Maciel 23/12/2008
E pensar que um dia eram e... Américo Jurca 23/12/2008
Retrospectiva 2008 - qual a... EDUARDO OLIVEIRA 23/12/2008
Pelo conjunto de artigo pub... Chisthiana Dias 23/12/2008
Caro professor Gilson Caron... Lúcia Adélia 21/12/2008
A oposição a Lula ocupa a c... alfio 20/12/2008
Os "demotucanos" assim como... CLOVIS 19/12/2008
Como o Marcos Eugênio conse... Luiz Carlos 19/12/2008
O Noblat tá xingando Lula d... Antonio Carlos Sil... 19/12/2008
É normal que o sucesso de L... Renata Lins 19/12/2008
Marcos, como pode uma pesso... Ronaldo Maciel 19/12/2008
Professor, um feliz ano nov... Fábio lemos 19/12/2008
Ronaldo, tambem nao disse q... Pietro 19/12/2008
Pietro, Tenho que discordar... Ronaldo Maciel 19/12/2008
Este cara deve ser louco ou... Marcos Eugenio 19/12/2008
Defender o Lula é algo ulul... alfio 19/12/2008
Se FHC fosse para o divã ab... Joana 18/12/2008
Maravilha, Cleila. O único ... Andrea Guedes 18/12/2008
Fernando, o meu ponto foi m... Pietro 18/12/2008
É por essas e outras que es... henrique de olivei... 18/12/2008
E ainda há quem de forma ir... Cleila Maria Foche... 18/12/2008
Parabéns Professor! Mais... Henry 18/12/2008
Pietro, a aula que vc diz t... Fernando Augusto 18/12/2008
O Senhor fala da proclamada... Arlindo Luiz Marti... 18/12/2008
É de extrema preocupação, a... Daniel Cançado 18/12/2008
Fernando Henrique em um div... Raphael Dias 17/12/2008
FHC e os tucanos de rapina ... Marcos Alexandre 17/12/2008
Senhor Caroni, nada melhor ... Pascoal 17/12/2008
Enquanto isto, Josué Maranh... Pascal 17/12/2008
Parabens Gilson vc retratou... Roberto Santos 17/12/2008
FHC, o mulatinho do jegue (... Ricardo Oliveira 17/12/2008
Fernanda, como nao leio o G... Pietro 17/12/2008
Perfeito diagnóstico do Gov... Carlos Henrique Si... 17/12/2008
O melhor comentário foi de ... Fernanda Aarujo 17/12/2008
Mais um belo texto do Gilso... Jonas 17/12/2008
Eh isso aí, cadê a cadeia p... Luis José Ariosto ... 17/12/2008
Espero que o "príncipe uspi... Izabel Guedes 17/12/2008
O sapato iraquiano dele eh ... Ivan Moraes 17/12/2008
Acho que faltei nessa aula.... Pietro 17/12/2008
E estamos só começando,a es... MARIA GORETTI 13AM... 17/12/2008
Na minha opinião a vitória ... Clotilde Pimenta 17/12/2008
Só tenho a parabenizar tama... Selma 17/12/2008
Parabéns, prezado Gilson, p... João Batista 16/12/2008
Ótimo professor, como sempr... Carlos Nogueira 16/12/2008
Caro Gilson, saiba que nest... Ricardo Pereira 16/12/2008
Nada melhor que ler dados t... Ruy Barbosa Maciel 16/12/2008
Gilson, concordo com seu pe... Anderson 16/12/2008
Quem diria hein... esse gov... gisele cristiane p... 16/12/2008
E o melhor de tudo isso era... Francisco Antonio ... 16/12/2008
OI Gilson, Como sempre um ... Luci 16/12/2008
Feliz Ano Novo, professor. ... Alexandra Ramos 16/12/2008
um excelente natal e um fel... altamiro 16/12/2008
Encerrou com chave de ouro ... Dani Tristão 15/12/2008
É isso que dá ter um pé na... Ary da Silva Marti... 15/12/2008
fernandenrique é uma alma p... João Aguiar 15/12/2008
Admiro muito seus artigos, ... luiz savio 15/12/2008
 
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