Colunistas| 17/06/2009 | Copyleft

DEBATE ABERTO

Aplausos censurados, o desespero da mídia

Em recente viagem a Genebra, o presidente Lula foi ovacionado ao discursar no Conselho de Direitos Humanos da ONU. Depois, foi aplaudido seis vezes ao criticar o Consenso de Washington e o neoliberalismo na plenária da OIT. O silêncio da grande imprensa foi gritante.

Os governos militares censuravam a imprensa para impedir a denúncia de torturas, de escândalos administrativos e quaisquer notícias que evidenciassem as crises e a divisão interna do regime. A censura política das informações, institucionalizada pela Lei de Imprensa e pela Lei de Segurança Nacional, foi um dos pilares de sustentação da noite dos generais. Esse era o preço imposto pela ditadura.

Passados mais de 20 anos da redemocratização, com a crescente centralidade adquirida no processo político, a grande mídia comercial tomou para si o papel de autoridade coatora. Sem qualquer pretensão de exercer papel decisivo na promoção da cidadania, não mais oculta seu caráter partidário e deixa claro quais políticas públicas devem permanecer fora do noticiário.

A construção negativa da persona política de lideranças políticas do campo democrático-popular tornou-se o seu maior imperativo. Invertendo a equação da história "republicana" recente, há seis anos a imprensa passou a censurar o governo. Esse é o preço imposto pelo jornalismo de mercado; pelas relações de compadrio entre redações e oposição parlamentar, e pela crise identitária dos que foram desmascarados quando se esmeravam para definir qual era a “democracia aceitável”.

Com o esgotamento do modelo neoliberal, sentindo-se cada vez mais ameaçada como aparelho privado de hegemonia, a edição jornalística já não se contenta mais em subordinar a apuração ao julgamento sumário de fatos e pessoas. Censurar registros que sejam incômodos aos seus interesses político-econômicos, deslegitimado uma estrutura narrativa viciada, passou a fazer parte da política editorial do jornalismo brasileiro.

Em recente viagem a Genebra, o presidente Lula foi ovacionado ao discursar no Conselho Nacional de Direitos Humanos da ONU. Depois, segundo relato da BBC, " foi aplaudido seis vezes" ao criticar o Consenso de Washington e o neoliberalismo na plenária da OIT. O silêncio dos portais da grande imprensa e a ausência de qualquer referência ao fato nas edições da Folha de São Paulo, Globo e Estadão foi gritante.

Representou o isolamento acústico dos aplausos recebidos. Uma parede midiática que abafa o “barulho insuportável" na razão inversa com que ampliou as vaias orquestradas na cerimônia de abertura dos Jogos Pan-Americanos em 2007, no Rio de Janeiro. Nada como um aparelho ideológico em desespero.

Se pesquisarmos as raízes do comportamento dos meios de comunicação, veremos que elas nos dirão o quanto já é forte a desagregação da ordem neoliberal a qual serviram desde o governo Collor, passando pelos dois mandatos de FHC. Durante doze anos (de 1990 a 2002), a sociedade civil sofreu rachaduras sob os abalos devastadores da "eficiência" de mercado. Elas afetaram a qualidade da história, as probabilidades de uma República democrática e de uma nação independente.

Lula aparece como condensação das forças sociais e políticas que se voltaram para a construção de um novo contrato social. O tucanato, com apoio de seus porta-vozes nas redações, figura como ator que tenta reproduzir o passado no presente, anulando ganhos e direitos sociais. O que parece assustar colunistas, articulistas e blogueiros é o crescente repúdio á truculência infamante que produzem diariamente. Salvo, claro, a parcela da classe média que tem no denuncismo vazio e no rancor classista elementos imprescindíveis à sua cadeia alimentar. Aquele restolho que costuma pagar a ração diária com comentários insultuosos, sob a proteção do anonimato.

É preciso ficar claro que estamos avançando. Ou os de cima aprendem a conviver com os de baixo, ou como na fábula da cigarra e da formiga, poderão descobrir o arrependimento tarde demais. Seria interessante para a própria imprensa que trocasse os insultos de seus escribas mais conhecidos pelo debate verdadeiramente político. Aquele que busca compreender as condições sociais, políticas, culturais e econômicas de uma modernização que, por não promover exclusão, representa revolução democrática combinada com mudança social. Isso inclui aplausos, mesmo que abafados.


Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Jornal do Brasil


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COMENTÁRIOS (62 Comentários)
       
Opinião Comentário Autor Data
Parabéns profesor, sou méd... jardel lopes 24/06/2009
Olha, Lucia Adélia! O senho... Francisco Antonio ... 24/06/2009
o que me causa mais revolta... adalberto lopes 24/06/2009
Meu caro Gilson, a imprensa... Jorge Ernesto Cout... 24/06/2009
Entendi bem do que é que o ... Lúcia Adélia 23/06/2009
Senhor Haremhab, me explica... Lúcia Adélia 23/06/2009
o bloqueio sistemático à di... JORGE CIOTI FILHO 23/06/2009
Cara, quisera poder fazer e... Chico Alencar 23/06/2009
Qual é a bronca do Sr. Robe... Marcos Peruzza 23/06/2009
A OIT é um órgão tripartite... Fábio Batista da C... 22/06/2009
Sr. Roberto! E o mensalão d... Francisco Antonio ... 22/06/2009
Esse artigo do Gilson acert... Zeza Estrela 22/06/2009
Roberto, você não concordar... Luis Sergio Martin... 22/06/2009
A big mídia se transformou ... Ricardo Oliveira 22/06/2009
Muito bem, é necessário com... GilbertoPuntel 22/06/2009
Mais uma vez, parabéns pelo... maria thereza 21/06/2009
Caro Gilson, eu não sei se ... Rosa Maria 21/06/2009
NO MOMENTO ELE EH "O CARA"E... CARLOS AUGUSTO 21/06/2009
Caro Bira, o senhor está en... Roberto 21/06/2009
Comparemos, por exemplo, a ... Pedro 21/06/2009
O que mais me espanta são a... Bira 20/06/2009
Pois é Sr.Umbelna, veremos ... Haremhab 20/06/2009
Concordaria com o autor se ... Roberto 20/06/2009
A grande imprensa agora é a... Maicon 20/06/2009
É INCRÍVEL E ESCANCARADAMEN... LEYLAH 20/06/2009
Talvez seja melhor assim po... Eleonice Facundo 19/06/2009
Parabens Gilson, sabemas qu... Jose Ribamar Brito 19/06/2009
É Caroni, enquanto suprimir... Lúcia Orpham 19/06/2009
Sarney não é homem para sof... alfio 19/06/2009
Silêncio maior que alinha a... Annah Rosa 19/06/2009
Pois é sr. Haremhab! Vejo ... Umbelina Oliveira 19/06/2009
Concordo com vc, Gilson. Ma... Sebastião Martins 19/06/2009
Realmente estes mafiosos nã... Antonio Carlos Sil... 18/06/2009
Parabéns por mais este arti... luiz pinheiro 18/06/2009
Claro que sou a favor, pois... Luiza da Rocha Nev... 18/06/2009
Essa PARCIALIDADE da mídia ... Eduardo 18/06/2009
A mídia brasileira mais uma... Gustavo Pina 18/06/2009
gilson, ontem as meninas do... clovis 18/06/2009
A questão não é tanto de no... zuleica jorgensen 18/06/2009
Gilson, mais uma vez vc fal... Sonia Montenegro 18/06/2009
Sabe o que é pior, que a al... Haremhab 18/06/2009
Caríssimos Gilson e comenta... alvaro marins 18/06/2009
Caro prof. Caroni! É necess... Francisco Antonio ... 18/06/2009
Concordo com Ana Helena Tav... salete 18/06/2009
Prof. Gilson,a direita burg... francisco 18/06/2009
Não ao monopólio da fala. O... jose carlos lima 18/06/2009
Ô CARONI, TU NÃO ACHA QUE D... Ananias Couto 18/06/2009
FOI UM CRIME O QUE ESSA MÍD... Carlos Henrique Si... 18/06/2009
O regime quase miltar impos... sabrininha xxx 18/06/2009
Gilson e colegas, talvez a ... Pietro Guerriero 18/06/2009
Veja a Folha de S.Paulo: ... Orestes Aquilino N... 18/06/2009
Olha,então pode assinar a ... Sonia Arqueiros 18/06/2009
Estou vendo gente por aqui ... Ana Helena Tavares 18/06/2009
Negar o bloqueio ao governo... Nei Barbosa 18/06/2009
Adlaberto, o Estadão eu não... Fernando Pinto 18/06/2009
Não saiu? Saiu sim... É só... Fernanda Leite 18/06/2009
E aos comentaristas abaixo,... Fernando Pinto 17/06/2009
Como não saiu em válrios jo... Adalberto C. Macha... 17/06/2009
Os comedores de ração apare... Fernando Pinto 17/06/2009
Desepero da mídia? Onde? No... Fernando Meira Cav... 17/06/2009
Olha, eu não vi silêncio nã... Ademilson Faria 17/06/2009
Bem, o discurso foi amplame... Luisa De Paula 17/06/2009
 
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