Colunistas| 06/09/2009 | Copyleft

DEBATE ABERTO

Heliópolis, uma aula de reforço do serrismo

O extermínio como medida profilática é o projeto dos que defendem um mínimo de Estado e um máximo de barbárie. É o "pós-lulismo" da direita vestida com figurino modernizante. É bom examinar com atenção o que se desenha para 2010. Heliópolis dá excelentes pistas.

Heliópolis, palco recente de uma seqüência de protestos gerados pelo assassinato de Ana Cristina Macedo, uma adolescente de 17 anos, não é apenas uma megafavela encravada na divisa entre São Paulo e São Caetano do Sul. Mais que isso, é um conto reescrito pelo Poder Público em periferias urbanas. O cenário privilegiado para o estudo de um contexto que caracteriza o modo de existência das classes populares. Suas lutas para se constituírem como sujeitos políticos e a desenvoltura com que age um aparelho policial que jamais se deixou permear pela democratização de seus métodos.

Os 120 mil moradores de Heliópolis, a maioria oriunda do Nordeste, não têm acesso aos serviços básicos de infra-estrutura, moradias dignas, espaços de lazer comunitários, serviços de saúde e educação. O que está presente no cotidiano desse contingente é o desejo de mudar de vida aliado à concepção que se está vivendo uma situação transitória.

Quando a nordestina Antonia Cleide Alves presidente da União de Núcleos, Associações e Sociedades de Moradores de Heliópolis e São João Clímaco diz que “a comunidade exige ser tratada com dignidade" estamos diante de uma prática discursiva que expressa a crença de que para mudar de vida talvez seja preciso mudar a vida e que esta tarefa cabe a novos atores que antevêem, na negação diária da cidadania, um poder provável dos sem-poder. É contra isso que se volta a política de segurança de José Serra.

É para reproduzir essa violência estrutural, cotidiana, que aparece nas "páginas de cidade" da grande imprensa, que nasce e morre sem que os responsáveis sejam definidos ou apontados, que as polícias Civil e Militar do provável candidato tucano nas próximas eleições presidenciais estão” dando um duro danado". Menor não tem sido o esforço da grande mídia que o apóia. Mesmo em períodos de plenas garantias constitucionais o descaso com a proteção aos indivíduos de classe subalternas deve ser compreendido como um esforço higienizador de um desejável controle social dos setores populares.

Heliópolis é ainda uma aula de história. Deixa evidente uma concepção de poder em que a questão social ainda é tratada com os mesmos métodos da Primeira República. A revolta da periferia paulistana não revela a existência de dois Brasis. O que é preciso manter intacto é o discurso que assegura que a violência é sempre externa à estrutura social brasileira. Pura anomia provocada por vândalos que insistem em macular a história de um país apresentado como produto limpo, enxuto, paraíso da conciliação e da cordialidade.

Heliópolis é também uma advertência aos movimentos sociais. Ônibus incendiados, pedradas, rojões, balas de borracha e bombas de efeito moral não são, como destaca o jornal Folha de S. Paulo, "cenas cada vez mais comuns em conflitos nas comunidades carentes de São Paulo". Ao contrário da banalização almejada por repórteres e editorialistas, a violência contra a população pobre e trabalhadora é uma prática sistemática.

É a força bruta requerida pelos defensores de uma democracia limitada. De uma forma de pensar a polis sob uma equação em que parece ser possível a existência de paz sem justiça social. São os mesmos que sempre vêem manifestações políticas de multidões urbanas como resultado da ação de “agitadores profissionais" ou dos " interesses dos traficantes"

Assim, nada mais resta às autoridades senão se livrarem deles (os “desviantes”) para que a harmonia da cidade volte a imperar. O extermínio como medida profilática é o projeto dos que defendem um mínimo de Estado e um máximo de barbárie. É o "pós-lulismo" da direita vestida com figurino modernizante. É bom examinar com atenção o que se desenha para 2010. Heliópolis dá excelentes pistas.


Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Jornal do Brasil


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COMENTÁRIOS (29 Comentários)
       
Opinião Comentário Autor Data
Infelizmente Heliópolis não... Jorge Ernesto Cout... 22/09/2009
Excelente! Mas, Pós-lulismo... Julio Ramon T da P... 18/09/2009
Ana, respondi uma vez mas n... Pietro Guerriero 17/09/2009
Heliópolis tornou-se mais u... José de Souza Júni... 16/09/2009
OS MORADORES DE HELIÓPOLIS ... Carlos Henrique Si... 15/09/2009
Tema complexo tratado de fo... Gilberto Martins 14/09/2009
Canudos-BA ecoa... Euclide... Marco Aurélio Alba... 14/09/2009
Culpa da chuva Custo a e... http://www.guilher... 13/09/2009
Querem fazer a 'civilização... Joao Paulo C Souza 12/09/2009
Pois é Gilson, ao horror co... José Roberto 11/09/2009
Mestre Gilson, é necessário... orazio Martini 11/09/2009
Aqueles que querem governar... janio ieso 10/09/2009
Mestre Gilson, bom lembrar ... Marcelo Salles 10/09/2009
Caro Gilson, eu não tenho n... Lúcia Adélia 10/09/2009
Concordo com tudo o que o í... Alceste Pinheiro 10/09/2009
A violência não é obra do a... Tiago Freitas 09/09/2009
É, isso se alastra por todo... Maurício Gonçalves 09/09/2009
Eu achei o texo interresant... Augusto Cesar 09/09/2009
E a Bahia, hein, que coisa! willian 09/09/2009
Eu falo há bastante tempo q... Antonio - SP. 08/09/2009
Se um raio cair na cabeça d... orazio Martini 08/09/2009
Pietro Guerreiro, tu tens c... Ana 08/09/2009
Interessante notar as recor... Pedro de Quadros D... 08/09/2009
Caro Eduardo Oliveira, não ... Ana Helena Tavares 08/09/2009
Politizar a questao (comple... Pietro Guerriero 08/09/2009
Gilson, quem entrou - ilega... eduardo oliveira 07/09/2009
Mesmo com este jeito tucano... Francisco Antonio ... 07/09/2009
Gilson, gostaria de fazer s... Eduardo 07/09/2009
Os tucanos têm a mesma visã... Fernando Pinto 07/09/2009
 
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