DEBATE ABERTO
Jornalistas togados?
Quando cotejamos a cobertura das quatro revistas semanais de informação e as capas dos principais jornais diários nestes últimos três meses vemos que existem tiros demais, vítimas demais. E também verdade de menos, isenção de menos, muito menos.
Washington Araújo
Inúmeros são os casos em que a imprensa tem se arrogado o papel da Justiça. Assumir funções típicas da Justiça é recorrente na atividade jornalística. Há certa compreensão de que jornal é fórum, repórter é magistrado, editor é ministro de tribunal superior. E quando este é o quadro resta-nos apenas ver o desvirtuamento da informação fidedigna em atos de autoridade prepotente.
Em 1993 escrevia Joaquim Falcão em artigo publicado na imprensa carioca e que permanece tão atual quando à época de sua publicação: "Não raramente hoje, alguns jornais, ao divulgarem a denúncia alheia, acusam sem apurar, processam sem ouvir, colocam réu sem defesa na prisão da opinião pública; enfim, condenam sem julgar". E quando isto ocorre vemos justiçamento e não justiça. É imensa a distância separando um conceito do outro.
Estas percepções surgem quando cotejo a cobertura das quatro revistas semanais de informação e as capas dos principais jornais diários nestes últimos três meses. Existem tiros demais, vítimas demais. E também verdade de menos, isenção de menos, muito menos. Isso me faz lembrar afirmação do jornalista inglês Paul Johnson quando em meados dos anos de 1990 em um artigo afirmava que "a mídia é uma arma carregada quando dirigida com intenção hostil contra um indivíduo". E há muita intenção hostil no noticiário, daí que estamos sempre há bem poucos metros do pelotão de fuzilamento instituído pela mídia.
Cláudio Abramo personificava sua própria máxima ao dizer que o jornalismo era "o exercício diário da inteligência e a prática cotidiana do caráter". É que não havia distância entre intenção e gesto no caso do autor da frase. Ele sabia muito bem a regra do jogo (sem trocadilho com o famoso livro). É bem desagradável o sentimento que temos quando vemos campanha lançada por jornal defendendo ou acusando esta ou aquela ideologia, este ou aquele pensamento político, filosófico, religioso. Parece faltar inteligência ou a quem criou a campanha ou ao distinto público-alvo da mesma. E faltou coragem de dizer com todas as letras quem está por trás da tal campanha.
Para ser coerente com a definição de Abramo somente aceitando que estamos diante de qualquer coisa, mas não de jornalismo. Quando revista semanal se transforma em porta-voz de partido político algo de muito errado está acontecendo. Da mesma forma quando rede de televisão se notabiliza na defesa intransigente de ponto de vista eminentemente religioso, logo somos alcançados pelo mau odor exalado pelo preconceito e o fanatismo.
E só não há erro se o veículo de comunicação atua com transparência deixando o público saber a serviço de que agremiação se encontra. É aqui que mora o perigo: não temos tradição de nossos jornais e revistas cerrarem fileiras com esta ou aquela corrente política. É sempre por debaixo do pano que a verdade é contrabandeada – e a credibilidade do veículo de comunicação começa a decair quando seu público reconhece por si mesmo que há um marketing por trás dessa ou daquela capa, dessa ou daquela cobertura.
É o marketing do escândalo. As vítimas serão sempre aquelas que se atrevem a discordar da opinião, da crença defendida pelo canal de televisão, jornal, revista, emissora de rádio, portal na internet. O procedimento padrão aplicado é minimizar ao máximo o contraditório, garantia mínima que é para o Estado democrático, deixar passar ao longo da cobertura qualquer pluralidade de pensamento, qualquer fato novo investigado que tenha força suficiente para frustrar o resultado desejado. Procedimento que maximiza as opiniões que fortalecem a linha editorial pretendida, que lhe concede repercussão indevida como forma de atender a interesses outros que não aqueles defendidos pelos que praticam o bom jornalismo.
Penso haver tão-somente um antídoto a essa forma enviesada do fazer jornalismo no Brasil. E seria um choque de ética nas relações dos jornalistas com suas matérias, com suas fontes, com os fatos, com a idéia do contraditório, com a já esquecida prática de, antes da publicação, ter buscado, honestamente, ouvir o outro lado. Quando penso em ética não penso em consciência amordaçada. E nem penso em notícias em constante descompasso com a passagem do tempo. Penso, apenas, no direito que todos temos de ter acesso a notícia com maior qualidade, mais apurada, texto correto e preciso. Será pedir muito?
Os jornais, sejam impressos ou não, e também não importa qual a ferramenta em que está sendo disponibilizado, terminam por fazer eco uns aos outros. A mesma manchete e a mesma história repercutem como plantação de cogumelos. Já não nos identificamos com esta ou aquela linha editorial porque tudo passou a ser sinalizado pela mesmice.
Se o assunto do dia é um crime e, ainda mais, um crime hediondo, desses em que a filha de 13 anos mata o pai e a mãe enquanto dormem e, ainda, se para tal horrendo feito contou com a cumplicidade de seu coleguinha de parcos 8 ou 9 anos de idade… então, não precisamos ser muito espertos para sabermos que o assunto será divulgado até nos dar náusea por pelo menos as duas ou três semanas seguintes. Essa divulgação fará parte do que chamo de "jornalismo insano": uns repercutem os outros, uns querem a primazia da descoberta mais inesperada e temperada, preferencialmente com as cores fortes da escandalização da violência urbana.
Todo o arsenal de criatividade, estilos e formatos jornalísticos serão colocados a serviço da mais rápida difusão da notícia. Todos os assuntos serão colocados na geladeira da comodidade, aqueles temas que rendem poucos leitores serão relegados por obrigação do ofício ao arquivo redondo: descoberta de vacinas, políticas públicas que rendem mais que publicidade, iniciativas louváveis de indivíduos e de instituições para elevar a qualidade de vida da sociedade e por aí vai.
O jornalismo insano assemelha-se a uma praga de gafanhotos: ataca a mesma plantação, e no mesmo momento. Os fatos são pisoteados da mesma forma que as folhas – são destruídos quase instantaneamente. A nuvem que se forma ante os sempre desavisados receptores das notícias (leitores, ouvintes, espectadores e internautas) é espessa o suficiente para bloquear qualquer ínfima passagem de ar puro. Ocorre que não há espaço para outro assunto. Todo esforço maior é para continuar repercutindo o hediondo e o macabro. Quando não houver qualquer outro fato novo sobre a tragédia… então começam os comentários de especialistas de Direito ou de especialistas criados pela mídia, geralmente nomes de bom conceito na sociedade: juristas, pensadores, escritores, políticos, militantes de direitos humanos, educadores, sociólogos.
Algum antídoto para esse tipo de jornalismo? Sim. A prática de um jornalismo-cidadão. E aí temos amplo espaço para refletir sobre o que se encaixaria nessa categoria. Mas, com certeza, seria um jornalismo comprometido com a boa prática jornalística. E também com uma visão mais abrangente do mundo e de seus sinais: apreço por iniciativas que elevem a qualidade de vida da população; defesa das populações vulneráveis; espaço para a proteção do meio-ambiente e para o progresso científico.
A lógica do marketing do escândalo inclui, sim, a possibilidade de retificação do erro cometido, do excesso havido, mas sempre o fará de maneira frágil, envergonhada, vulnerável e inteiramente desproporcional ao impacto ou conseqüências do mal protagonizado.
Washington Araújo é jornalista e escritor. Mestre em Comunicação pela
UNB, tem livros sobre mídia, direitos humanos e ética publicados no Brasil,
Argentina, Espanha, México. Tem o blog http://www.cidadaodomundo.org
Email - wlaraujo9@gmail.com
| COMENTÁRIOS (6 Comentários) | |||
| Opinião | Comentário | Autor | Data |
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Senhor Washington Araújo, s... | Jorge Ernesto Cout... | 20/01/2010 |
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"Aquilo que deveria ser" dá... | Pedro | 17/11/2009 |
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excelente reflexão, retrato... | Wellington | 25/10/2009 |
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Muito bom o texto e a denún... | carlos Ayres | 25/10/2009 |
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O segredo dessa forma de co... | Tô de Olho na oPÓs... | 24/10/2009 |
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