Colunistas| 11/01/2010 | Copyleft

DEBATE ABERTO

Comissão da Verdade: não é hora de transigir

É fundamental que o capuz que protegeu o arbítrio seja rasgado pela democracia. Há um espaço social que se abre. Deixar de ocupá-lo, sob qualquer pretexto, não é apenas um erro tático, mas uma injustificável apologia da inércia.

São conhecidos os setores da sociedade brasileira que reagiram negativamente às propostas contidas no 3º Programa Nacional de Direitos Humanos, divulgado há três semanas pelo governo. A gritaria engloba a grande imprensa corporativa, segmentos conservadores da Igreja Católica, além de ilustres representantes do latifúndio. Todas essas forças e personalidades compreenderam lucidamente, de acordo com seus interesses, que o objetivo do texto não era o alardeado revanchismo contra os militares, mas a fixação de diretrizes que consolidam avanços democráticos. E é contra isso que se debatem, através de suas entidades representativas e de uma imprensa que vê no jornalismo decente o anátema mais temido.

A criação da Comissão de Verdade e Reconciliação para investigar os crimes da ditadura militar no Brasil não pode ser entendida como precipitação de uma “esquerda radicalizada". Sem se intimidar com pressões estreladas, a proposta tem como principal mérito estabelecer, no papel, a diferença entre combate e covardia, entre a verdade e a mentira. Com uma transparência antes inalcançada a questão democrática revela-se inextricavelmente entrelaçada ao resgate da memória histórica.

Longe de representar uma rachadura no núcleo progressista do governo, a postura da secretaria dos Direitos Humanos configura uma linha de comportamento político-ideológico coerente, corajoso e responsável. Não há por que recuar por conta de uma possível contaminação eleitoral, pela associação da iniciativa com a candidatura da ministra Dilma Rousseff. Não há imagem arranhada quando os procedimentos são nítidos e cristalinos. Como depende de produção legislativa para ser efetivado, o Plano, em toda sua larga extensão, não é um pacote jogado sobre as instituições. Mas um rico apanhado sobre as demandas efetivas da sociedade civil. Mais democrático, impossível.

Publicamente a cidadania se confronta com um fato: não se constrói democracia com ”prestativas" notas de clubes militares. Não é possível a eterna conciliação em uma arquitetura engenhosa e heterogênea como a que foi montada no governo Lula. Chega a hora da apresentação da fatura e, em momentos decisivos, é preciso firmeza para ratificar o combate de uma esquerda que se caracterizou por sua luta no pantanoso terreno dos direitos cívicos plenos. Se a verdade não é bem-vinda para direita, não há que se sufocá-la por um perdão decretado como "amplo, geral e irrestrito" O realismo político não pode prescindir da arte de se reinventar.

No calor do enfrentamento, duas propostas voltam a moldar o debate. A primeira defende que o campo democrático-popular deve escamotear sua busca pela verdade, postergando-a para quando as “condições o permitirem". Essa é uma proposta capitulacionista. Não enfrenta o problema real de uma sociedade que se quer ver livre de um arcabouço legal arbitrário e anacrônico. Além disso, tem um viés marcadamente golpista, ao procurar manipular e instrumentalizar o movimento democrático, sugerindo que, passados mais de 26 anos, as questões centrais da democracia brasileira devem permanecer em uma obscura clandestinidade.

Como escreveu Mino Carta, “é da natureza da tortura, portanto, que o torturador e o Estado que acoberta a tortura sejam levados a mentir". Em janeiro de 2010, em face das situações concretas colocadas pelo processo político, é fundamental que o capuz que protegeu o arbítrio seja rasgado pela democracia. Há um espaço social que se abre. Deixar de ocupá-lo, sob qualquer pretexto, não é apenas um erro tático, mas uma injustificável apologia da inércia. Não se constroem instituições democráticas, pluralistas, livres e participativas cortejando quem pretende destruí-las.


Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Jornal do Brasil


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COMENTÁRIOS (38 Comentários)
       
Opinião Comentário Autor Data
O problema agora tatado a "... Marcia Eloy 18/01/2010
Dani, entendo sua posição. ... Ana Helena Tavares 18/01/2010
Ana Helena querida, não há ... Dani Tristão 18/01/2010
Dani Tristão, conheço e res... Ana Helena Tavares 16/01/2010
Ana Helena, igual ao seu pa... Dani Tristão 16/01/2010
Gilson como sempre relatand... Regina 15/01/2010
Me deslocando um pouco do f... AMAURI 15/01/2010
Parabéns pelo texto! É prec... Gilson 15/01/2010
Ana.....lamento por seu fam... Ricardo 14/01/2010
Parabéns Gilson Caroni pela... Ronaldo maciel 14/01/2010
Quando a Folha lançou o ter... Francisco Antonio ... 14/01/2010
Parabéns Ana Helena Tavares... Lúcia Adélia 14/01/2010
A direita delira. Quaresma ... Ricardo Oliveira 14/01/2010
Ricardo, sobre o que você f... Ana Helena Tavares 14/01/2010
Quer saber... Se essa direi... Dani Tristão 14/01/2010
Ao paredão com todos eles. ... Fernando Gil 14/01/2010
Quaresma e manso, estudem m... Lúcia Adélia 13/01/2010
Caros Quaresma e Manso, pro... alfio 13/01/2010
Muito bom o comentario e a ... Luis Renato 13/01/2010
É vital que nesse momento a... Jonne Vidal 13/01/2010
Os senhores Manso e Quaresm... Francisco Antonio ... 13/01/2010
A cada comentário fascista,... Renato Mendes 13/01/2010
CONTINUAÇÃO : AINDA PODEMOS... Carlos Henrique Si... 13/01/2010
APÓIO CADA LINHA DO SEU COM... Carlos Henrique Si... 13/01/2010
Essa direitalha se supera a... sabrininha xxx 13/01/2010
De pleno acordo com as idéi... Maria Lucia 13/01/2010
Ricardo Oliveira....seus ar... Arthur Quaresma 12/01/2010
Esse papinho que essa esque... Roberto Manso 12/01/2010
Os militares não queriam o ... Ricardo 12/01/2010
Gilson, como sempre, com su... Rômulo Mafra 12/01/2010
Finalmente uma certa senhor... Ricardo 12/01/2010
Gostei muito da argumentaçã... Jair de Souza 12/01/2010
O Serra está deitando e rol... José Ricardo Romer... 12/01/2010
O problema maior, professor... Francisco Antonio ... 12/01/2010
O PNDH3 não pode ser altera... Ricardo Oliveira 12/01/2010
Concordo com tudo, mas tamb... Lúcia Adélia 12/01/2010
Sendo o crime de tortura im... alfio 11/01/2010
Parabéns Gilson, concordo c... Dani Tristão 11/01/2010
 
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