DEBATE ABERTO
A designação genérica de “convergência de crises”, presente nos debates do FSM Temático da Bahia, pode ser melhor classificada como crise do capital. Para não parecer um bordão de esquerda, é preciso lembrar que capital não é dinheiro apenas.
Gilberto Maringoni
Se passarmos uma régua nas duas edições brasileiras do Fórum Social Mundial deste ano – sempre lembrando que acontecem nesses dias 27 iniciativas simultâneas em diversos países – podemos dizer que a etapa de Porto Alegre foi uma espécie de Fórum no divã e a de Salvador representa o Fórum indo à luta.
A frase é um tanto reducionista, mas não foge muito da realidade. Tanto no sul quanto no nordeste aconteceram centenas de mesas redondas, debates, iniciativas, colóquios, oficinas e manifestações artísticas e culturais. Mas a agenda gaúcha foi tomada principalmente por reflexões sobre o caminho percorrido nos últimos dez anos, enquanto que na Bahia destacaram-se temáticas ligadas à crise e ao desenvolvimento.
Esforço coletivo
Nesses dias tórridos da capital baiana, um evento em especial funciona como uma espécie de eixo aglutinador dos demais. Trata-se do seminário “Crises e oportunidades”, promovido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), pelo Instituto Paulo Freire e pelo Unitar, órgão ligado à ONU. Dirigido pelo economista Ladislau Dowbor, professor da PUC-SP, a iniciativa aglutina mais de 30 pesquisadores e ativistas em uma articulação de pelo menos dois anos. Entre estes estão Ignacy Sachs, Susan George, Tania Bacelar, Paul Singer, Joaquim Palhares, Arthur Henrique, Ricardo Abramovay Marcio Pochmann, Nicola Bullard, Jorge Beinstein, José Eli da Veiga, entre outros.
Os diagnósticos centrais do grupo são sintetizados no documento “Crise e oportunidades em tempos de mudança”, um notável esforço de consolidação teórica sobre as causas da crise e uma tentativa de se apontarem rumos de sua superação através de medidas políticas e econômicas. O documento é uma espécie de texto-base, em torno do qual acontecem os debates do Fórum de Salvador. Tal dinâmica tende a disciplinar as intervenções dos diversos participantes e a fazer deste conjunto de mesas uma sequência consistente de análises. Há a preocupação e se gerar um projeto coletivo a partir das diversas contribuições.
A convergência de crises
Há uma idéia básica colocada pelos participantes. É a de que haveria uma convergência de diversas crises concomitantes na atualidade. O documento-base arrola algumas: “São as crises dos valores, das pandemias, da demografia, da economia, da energia, da especulação financeira, da educação, da pasteurização cultural, de identidades, da banalização da vida, da miséria que explode no mundo, da falta de água que já atinge mais de um bilhão de pessoas”.
O diagnóstico da “convergência de crises” é interessante por tentar captar uma série de turbulências pelas quais o mundo passa nesta década inicial do século XXI. No entanto, apesar de buscar enquadrar um conjunto variado de manifestações, ele pode classificar em um mesmo diagnóstico o que seriam os pontos causas e manifestações exteriores de fenômenos mais profundos. A crise climática, por exemplo, não é uma crise do clima em si, mas da exploração predadora da natureza por conta da instalação desordenada de plantas industriais, de devastações promovidas pelo agronegócio, pela especulação imobiliária, pela incentivo ao transporte individual etc. Ou seja, o meio ambiente não entrou em crise sozinho. Há um modelo de desenvolvimento que, na busca acelera da de mais e maiores lucros, devasta o que está a sua frente e se torna insustentável.
O mesmo pode ser dito da crise dos alimentos. O aumento do consumo de víveres, fruto do crescimento econômico mundial, provocou uma alta generalizada nos preços. Logo, especuladores financeiros desviaram seus recursos para as bolsas de mercadorias, levando os preços das chamadas commodities às alturas.
O mesmo raciocínio pode ser desdobrado para outras frentes. Assim, a designação genérica de “convergência de crises” pode ser melhor classificada como crise do capital. Para não parecer um bordão de esquerda, é preciso lembrar que capital não é dinheiro apenas. É uma relação social. Assim, podemos dizer que estamos em meio a uma crise de determinada relação social, baseada no capital.
Ela será superada por algum tipo de ordenamento “para além do capital”, como sugere o livro do marxista húngaro István Mészàros? É impossível prever. A ordem do capital sempre foi flexível e elástica o suficiente para, mesmo em situações extremas, conseguir se autorreformar e seguir adiante. Esta ordem, o capitalismo, sofreu abalos e choques extremamente violentos ao longo dos últimos 200 anos. Sua superação dependerá não apenas da emergência de abalos profundos, mas de fatores subjetivos que, por enquanto, estão no terreno da estratégia de algumas correntes de opinião.
O centro dos abalos
Importa examinar que a “convergência de crises” representa uma série de manifestações de uma crise maior e articuladora de todas as outras. Tal constatação não é apenas um exercício escolástico. Ele se torna necessário para hierarquizar um diagnóstico que possibilite planejar tanto ações localizadas quanto soluções abrangentes.
De certa maneira, o documento localiza o ponto de articulação dos problemas. “Trata-se de uma crise civilizatória”, diz o texto. Mais preciso seria dizer que estamos diante de uma crise civilizatória baseada no capital. Isso é apenas o começo de um grande debate.
Por sua dinâmica e pelos participantes envolvidos, o seminário “Crises e oportunidades”, que deve prosseguir para além do Fórum, dará uma contribuição significativa para a luta política real, que se ramifica por toda a sociedade, em diversos países.
Gilberto Maringoni, jornalista e cartunista, é doutor em História pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de “A Venezuela que se inventa – poder, petróleo e intriga nos tempos de Chávez” (Editora Fundação Perseu Abramo).
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