Política| 09/10/2006 | Copyleft

ANÁLISE DA NOTÍCIA

O debate do debate

Lula x Alckmin: quem foi melhor? Na análise da maior parte da imprensa sobre os debates em eleições presidenciais, predomina a visão do desempenho dos candidatos sobre as idéias que põem em jogo. O buraco é mais embaixo.

A repercussão dos blogues, manchetes de jornal, tevês, sobre o primeiro debate do segundo turno da eleição presidencial, privilegiou, como é costume, o desempenho cênico dos candidatos. Quem estava “calmo”, quem ficou “nervoso”, são expressões recorrentes. Em segundo lugar, vem “quem fez mais perguntas que o outro não respondeu”. Só depois, se e quando se chega lá, vem a questão das idéias apresentadas.

Aqui, neste campo, a coisa se complica. Porque para os analistas é interessante debater os dois primeiros tópicos, porque eles “naturalizam” a sua posição. É mais fácil dizer que um dos candidatos levou a melhor sobre o outro porque este ficou mais nervoso no começo, ou o contrário, que o segundo levou vantagem porque se equilibrou no final, do que discutir as idéias colidentes que ambos apresentaram.

No debate da Bandeirantes, realizado no domingo, as poucas idéias prospectivas que entraram em cena, apesar de parcas, demonstraram tendências diversas do dois candidatos quanto ao Brasil que projetam. Na verdade, mais importante do que discutir quantos graus Lula ficou nervoso com a pergunta sobre a origem do dinheiro, foi observar que na verdade ele demonstrou um ponto fraco em seu governo (não em sua pessoa) na questão da saúde, que ficou pendente. Sobre a origem do dinheiro Lula deu a resposta conceitualmente correta, a de que ele é o Presidente da República e não o delegado de plantão.

Sobre Alckmin, importa menos o disparate falado sobre a compra do avião da presidência (e a sua venda para construir quatro hospitais, o que beira a piada) do que a concepção completamente autoritária de governo que ele revelou manter. Alckmin cobrou uma postura arrogante em relação à Bolívia, embora seu partido pregue uma postura subserviente aos Estados Unidos em relação à Alca. Mais grave, demonstrou profunda e autêntica insatisfação com os procedimentos jurídicos que visam garantir os direitos humanos em relação a prisões de jovens e defendeu um “aperfeiçoamento” do ECA na direção autoritária, lembrando mesmo uma pessoa que tem saudades dos ritos sumários do tempo da ditadura. Pior ainda: defendeu o escândalo que é o sistema penitenciário do Estado de S. Paulo, com o bordão de que retirou os criminosos das ruas, só esquecendo de se referir a que seu governo transformou as prisões em centrais do crime.

No campo das propostas, Alckmin formulou pouquíssimas propostas, ficando no campo dos “genéricos”, que são expressões como “eficiência”, “choque de gestão”, chegando a falar em combate à corrupção como parte de “corte de gastos”, o que é uma frase de efeito sem efeito nenhum, porque o que importa é discutir como melhorar o que o governo de Lula já fez, que foi aparelhar melhor – do ponto de vista de efetivo e do aparato conceitual – a Polícia Federal e liberar o Ministério Público das amarras com o Executivo.

Por último, vale notar que no fim de contas o “tom” de um desempenho também revela um conceito. E nisto Alckmin, mesmo que não quisesse, revelou novamente seu vezo autoritário. Excedeu-se no tempo muitas vezes; manteve o tom de “ponha-se no seu lugar” o tempo inteiro, demonstrando que seu decoro é o da Casa Grande. Neste ponto Lula talvez tenha hesitado demais, pois ninguém pode se dirigir ao Presidente da República na base do “você mente”, “não minta”, etc. Na primeira vez Lula já deveria ter pedido o direito de resposta, pelo menos para sinalizar que nesse tom um debate não pode nem deve prosseguir.

Mas talvez não haja mesmo a possibilidade de um debate. O mundo que Alckmin projeta para seu governo é tão diverso daquele em que Lula vive, que os pontos de contato (que permitem na verdade o confronto) em termos da situação em que estamos, são de fato quase inexistentes. O autoritarismo do primeiro fica evidente até na promessa feita de que não vai privatizar a Petrobrás, nem a Caixa Econômica Federal, nem o Banco do Brasil. É demais exigir que a gente acredite nisso, vindo de quem acabou de privatizar a linha 4 do Metrô de S. Paulo antes que ela exista e deixou pronto o plano de vender à iniciativa privada ações da Nossa Caixa estadual para cobrir o rombo de 1,2 bilhão nas contas de S. Paulo.



 

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COMENTÁRIOS (78 Comentários)
       
Opinião Comentário Autor Data
DEMOCRACIA! DEVERÍAMOS REPE... ANGELA RODRIGUES 18/10/2006
É clrividente que o picolé ... Paulo Rogério Azev... 11/10/2006
O Lula foi muito mais convi... Luiz Gonzaga de As... 11/10/2006
Flávio você esqueceu da CTE... Adnan El Kadri 11/10/2006
O artificialíssimo candidat... Manoel Nunes 11/10/2006
Como assim ninguém pode se ... Nelson Filho 11/10/2006
Eu não teria descrito o deb... Daniel Campos 11/10/2006
O ex governador estava pate... max 10/10/2006
O debate foi fraco mais mui... Eldo Luiz 10/10/2006
corrupção não é item da des... clarice mattos 10/10/2006
O autoritarismo de Alckmin ... Alexandre Porto 10/10/2006
COMO É MAL EDUCADO O NOSSO ... bete 10/10/2006
Correta análise. O tal do G... Francis Vale 10/10/2006
Lula soube manter a tranqui... Dina 10/10/2006
O debate só demonstrou mais... Anderson Sant´Ana 10/10/2006
O Quiabo de Plástico mentiu... Valdir 10/10/2006
O Alckmin estava muito fals... ana 10/10/2006
A opinião anterior (Diego) ... Neto 10/10/2006
Lula foi muito melhor no de... marcos 10/10/2006
Flavio, aprecio muito os te... gilberto nasciment... 10/10/2006
O Brasil assistiu ontem a u... Carlinhos Medeiros 10/10/2006
Só uma pequena correção: Lu... Luiz Seixas 10/10/2006
É Lula de novo!!! isso foi ... Alexandre Tiné 10/10/2006
Lúcida a observação.Acresce... Pedro Tarachuque 10/10/2006
Sou a favor do articulista.... Rosa Maria Cocco 10/10/2006
Alckmin se mostrou no debat... Emanuel 10/10/2006
O nariz do Pinóquimim cresc... João Neto 10/10/2006
Basta ver a foto do rosto d... Antonio Pinto de O... 10/10/2006
DOIS ESTILOS Alckmin: "É f... AUGUSTO FERREIRA 10/10/2006
Antes de qualquer coisa já ... Lucas Gonçalves Gu... 10/10/2006
Lula tem carisma para gover... Pierdoná 10/10/2006
Achei a performance teatral... Robson Bittencourt 10/10/2006
CNI: FAMÍLIAS DE BAIXA REND... edson 10/10/2006
eu tinha uma visão diferent... Guilherme José de ... 10/10/2006
Infelizmente, caro amigo, o... Esmeraldo Neto 10/10/2006
Eu estou muito feliz em fin... Américo Oliveira J... 10/10/2006
Se alguém ainda não percebe... Carlos 10/10/2006
Chega a beira o ridículo es... Diego 10/10/2006
Análise perfeita! A democra... Sergio Azevedo 09/10/2006
1. Eu tinha respeito pelo A... Alexandre José Rib... 09/10/2006
De fato deve-se fazer uma a... Ernesto Jazadji 09/10/2006
Meus amigos, o Alckmin apen... Omar 09/10/2006
Só posso dizer que concordo... waleria torres 09/10/2006
Lula se portou como um gran... arlete 09/10/2006
Blablablá... O candidato Al... jorge monticeli da... 09/10/2006
Engraçado. A Veja e a Época... Robson Luís Hiath ... 09/10/2006
Deve ser dolorido para as e... José Caetano Silva 09/10/2006
Em muitos momentos o sr. Al... Eugenia silva 09/10/2006
O Brasil é tão grande e tão... Pedro Moacyr Pérez... 09/10/2006
Vc foi o único jornalista q... Jaqueline 09/10/2006
Uma conclusão pude tirar do... Paulo 09/10/2006
Quando o Alckmim disse que ... Joaquim Gomes 09/10/2006
Você acha que "eficiência" ... Genro 09/10/2006
A mídia como devemos ver, n... Alex 09/10/2006
O debate da band revelou de... Jairo Cabral 09/10/2006
Achei que o Alckmin acertou... Zitelli 09/10/2006
Faltou Lula informar que se... carlos wagner da s... 09/10/2006
Ficou claro a inteligência ... Odete 09/10/2006
Muito pertinentes as observ... Ângelo Andrade 09/10/2006
Dizer que é lúcido esse com... ana 09/10/2006
O que mais chamou atenção, ... joão rosa 09/10/2006
Excelente análise, mais uma... Mariah 09/10/2006
Brasil é que saiu perdendo.... pedro luiz todero 09/10/2006
Só faltou o autor dizer que... Vladimir Azevedo d... 09/10/2006
LULA VENCE DE NOVO! Será qu... JPassos 09/10/2006
O tom usado por Alckmin ont... Mariana 09/10/2006
Gente, esse tal de Geraldo ... Geovaneto 09/10/2006
Desculpe, mas o jornalista ... Wendell Setubal 09/10/2006
O comportamento autoritário... Ricardo 09/10/2006
Pra apontar erros, sem dúvi... joao barradas 09/10/2006
Sou leitor desta revista el... Alexandre Rudge Ca... 09/10/2006
Viva a Democracia! Por que... eson 09/10/2006
E Lula? Será que o articuli... André Cordery 09/10/2006
Realmente, foi constrangedo... Marta Maria Sales 09/10/2006
É mesmo, ótimo o enfoque de... moacyr pinto da si... 09/10/2006
LULA PERDEU O DEBATE. NÃO T... JOSÉ CARLOS 09/10/2006
estas são as observações ma... vera 09/10/2006
Professor, mais uma vez su... Wanda Rodrigues 09/10/2006
 
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02/09/2010

Novo escândalo atinge governo tucano no Rio Grande do Sul : Ação conjunta do Ministério Público Estadual do Rio Grande do Sul, do Ministério Público de Contas e da Polícia Federal aponta existência de uma quadrilha no interior do Banco do Estado do RS (Banrisul). A força tarefa constituída pelos três órgãos investiga a ação de uma suposta organização criminosa, integrada por um alto funcionário do banco, agências de publicidade e prestadores de serviços, que pode ter causado um prejuízo de mais de 10 milhões de reais nos últimos 18 meses. Três pessoas foram presas em flagrante por peculato e lavagem de dinheiro. A PF encontrou em suas residências e empresas cerca de R$ 2 milhões sem origem identificada (foto).

Banrisul foi vítima de uma quadrilha, diz delegado : Banco público gaúcho foi vítima de uma quadrilha formada por funcionários públicos e privados que retiravam dinheiro do banco para usar de maneira particular, diz superintendente da Polícia Federal do RS. A investigação iniciou por meio da denúncia feita ao MP Estadual por uma das pessoas subcontratadas neste esquema e que não recebeu o que deveria. A PF entrou na investigação, explicou o delegado, em função da suspeita de prática de crimes federais como evasão de divisas e lavagem de dinheiro.

01/09/2010

Jornal JÁ: como calar e intimidar a imprensa : Ação movida pela família do ex-governador Germano Rigotto, candidato ao Senado pelo PMDB gaúcho, está asfixiando financeiramente o jornalista Elmar Bones (foto), editor do Jornal JÁ, de Porto Alegre. Motivo de ação é uma premiada reportagem de Bones sobre aquela que seria uma das maiores fraudes da história gaúcha, ocorrida durante o governo de Pedro Simon: a licitação manipulada de 11 subestações da Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE), que teria causado um prejuízo de R$ 840 milhões aos cofres do Estado, segundo investigações realizadas na época. Em recente decisão judicial, contas pessoais de Bones e sócio foram bloqueadas online para pagar advogados. O artigo é de Luiz Claudio Cunha, do Observatório da Imprensa.

O sucateamento da saúde pública de São Paulo : Avaliação de 350 mil usuários do SUS de São Paulo, efetuada pela própria Secretaria de Estado da Saúde (SES) relata ausência de vacinas do calendário básico em diversas unidades de saúde da Secretaria, analgesia durante o parto realizada com “panos quentes” e a demora absurda na realização de diversos exames complementares. No município de São Paulo, o atual prefeito Gilberto Kassab pauperizou a tal ponto alguns dos hospitais sob tutela da Autarquia Municipal, que há vários meses, por exemplo, não existem colchões em hospitais da Zona Leste da cidade. O artigo é do médico João Paulo Cechinel Souza.

30/08/2010

O Globo se perde entre o céu e o inferno de São Conrado : O jornal da família Marinho superou-se em sua edição de 22 de agosto ao dedicar em uma mesma edição um caderno para enaltecer a ótima qualidade de vida no bairro nobre de São Conrado e outro caderno para denunciar a “guerra do tráfico” e a insegurança no mesmíssimo bairro. A matéria do jornal especial sobre São Conrado começa indagando “o que leva alguém a escolher o bairro para viver”. Publicada no mesmo, dia a matéria sobre a “guerra no Rio” deixa essa pergunta sem resposta.

Deputado propõe Conselho Parlamentar de Comunicação em SP : O projeto do deputado Antonio Mentor tem como base iniciativas semelhantes, em alguns outros estados brasileiros como Rio de Janeiro e Piauí, bem como as deliberações da 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom). O objetivo é contribuir no processo de democratização das comunicações no Estado de SP. Segundo o projeto, caberá ao Conselho, entre outras coisas, a fiscalização, avaliação e proposição de políticas estaduais de Comunicação e a promoção dos direitos humanos.

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