CRÔNICA - LUIZ GUERRA
Palpite feliz
O certo é que não entendo nada da simbologia dos sonhos!
Luiz Guerra
Telefonema de uma amiga do peito.
Há duas ou três noites Minuca sonhou com Allan Poe e, no dia seguinte, ganhou uns trocados no bicho: jogou oito reais no gato, e deu gato na cabeça.
Tempos de Operação Furacão, lembrei-lhe com delicadeza que não era uma boa tratarmos do assunto pelo telefone, podia dar bode. Ainda assim, para não perder a oportunidade de aprender mais sobre isso, arrisquei um breve comentário:
"Eu não sabia que sonhar com Allan Poe dava gato. Qual é a relação?"
"Não há relação alguma, é palpite direto", respondeu Minuca. Mas logo se deu conta do meu engano, caiu na risada e explicou: "Me desculpe. Esse Allan Poe que eu estou falando é o nome de um gato preto que tem aqui na pracinha perto de casa."
"Tudo bem", disse eu. "Só que a pessoa que batizou ele devia estar pensando naquele conto do escritor norte-americano. Você sonhou com um trocadilho de primeira."
"E acertei!", concluiu Minuca, toda exultante, brasileira feliz com os 144
reais que embolsou.
Contou-me o sonho.
Fazia uma caminhada com o filho e o dachshund deles. A pedido do garoto, pararam um instante num banco da tal pracinha. Muito inquieto, Bartolomeu livra-se da coleira e sai em disparada de um lado para outro, farejando tudo o que encontra pelo chão, inteiramente surdo aos chamados da dona. Late, deita e rola na grama, cheira a bunda da vira-lata de um vizinho, corre atrás das borboletas, mija, faz cocô, um porre de desassossego. Súbito, como um anjo negro dos parques, Allan Poe aparece de lugar nenhum, posta-se diante do cãozinho frenético e começa a hipnotizá-lo, descaradamente. Bartolomeu pára de repente, imobiliza-se, não dá um pio, subjugado pelo obstinado fulgor daqueles olhos felinos. Talvez para deixar bem claro todo o seu desprezo pelo dachshund petrificado à sua frente, Allan Poe abre um enorme bocejo, volta-se para o lado de Minuca, que admira a cena cheia de pressentimentos, e abocanha o bolo de dinheiro que ela trazia na mão, comendo-o em seguida. (*Pano*.)
Pelo cuidadoso relato do sonho, percebi que o papo de minha amiga era outro. Não me ligara só para contar que tinha dado uma mordida no bicho (no jogo do bicho, claro). Queria, sim, é que este pobre cronista decifrasse toda a simbologia do que ela havia sonhado. Meu Deus, que posso dizer?
Desde os tempos da faculdade (cá entre nós, coisa de uns trinta anos) Minuca não tirou mais da cabeça a idéia de que eu sou melhor do que Freud na interpretação de sonhos. Bebia-se muito naquele tempo. Quantas e quantas vezes ela, Alvanísio e eu não saltávamos da barca em Niterói e, em vez de seguir até o Ingá, onde ficava nossa escola, parávamos sedentos no boteco do Cabral, de onde só saíamos para pegar a última barca de volta ao Rio. Não é impossível que depois de meia garrafa de conhaque, além das cervejas, eu me pusesse descaradamente, como o outro, a interpretar sonhos e até pesadelos. Deve ser isso. Tenho uma vaga lembrança de passar um pouco essa impressão, mas era coisa de bêbado, mesmo levando-se em conta que os bêbados não deixam
de ter uma certa cumplicidade com o inconsciente. Mas Minuca também ficava de carinha cheia, não era para ter levado tão a sério o meu exibicionismo. Ou será que andei interpretando sonhos que na vida real, por assim dizer, se revelaram compatíveis com a minha leitura e ela nunca me contou?
Sei lá... O certo é que não entendo nada da simbologia dos sonhos, minha
doce Minuca. Mas vá sonhando e aproveitando os seus palpites felizes. Se
bobear, quando os fortes ventos da Operação Furacão passarem por esse ponto do bicho, você já arrebentou a banca.


