IMPRENSA
O que diz a reportagem sobre Octavio Frias de Oliveira
Texto que relata a polêmica relação do publisher da Folha de S. Paulo com a Ditadura Militar resultou na demissão do editor-chefe do jornal Meio&Mensagem.
Marcel Gomes e Maurício Reimberg – Carta Maior
SÃO PAULO – A reportagem de duas páginas do Meio&Mensagem, intitulada “O último barão”, descreve Octavio Frias de Oliveira como “um homem pragmático, de hábitos simples, dono de inteligência intuitiva e tino comercial”. O autor do texto, Edgar Olimpio de Souza, contou à Carta Maior que trabalhou durante quatro dias para prepará-lo, quando pesquisou em “sites, história da Folha e várias matérias a respeito da personagem”.
“Procurei mostrar uma personagem que tem uma trajetória vitoriosa, que pegou um jornal inexpressivo e transformou no principal jornal do Brasil. Nesta apuração, percebi também que ele não era uma pessoa que desfrutava de consenso. Por isso, quis mostrar esse personagem bidimensional, com equilíbrio, o que dá humanismo a ele”, explicou Souza.
A polêmica maior, sobre a participação do jornal na Ditadura Militar, está concentrada num box inserido na reportagem principal e que tem como título “Nem tão liberal assim” – uma expressão usada por outro jornalista, Mino Carta, ao se referir a Frias numa entrevista que concedeu à revista Caros Amigos.
Esse box descreve, por exemplo, o conflito entre a Folha e guerrilhas de esquerda durante a ditadura. Na época, a Folha da Tarde, outro jornal do grupo, publicava notícias falsas sobre “morte de terroristas em emboscadas policiais” quando eles ainda estavam na prisão, de modo a encobrir torturas.
Segundo a reportagem do M&M, “grupos armados, como resposta, incendiaram três peruas da empresa, usadas não só para transportar o jornal como para recolher torturados ou pessoas que seriam torturadas na Operação Bandeirantes (Oban), órgão de segurança que combatia a subversão, inaugurado em 1968”.
A família de Frias, assustada, foi morar no prédio do jornal, onde, em seu oitavo andar, foi construído um apartamento. A moradia provisória existiu de setembro de 1971 até fevereiro do ano seguinte. Nessa época, foi publicado um editorial atacando o “terrorismo” e defendendo o “governo sério, responsável, respeitável e com indiscutível apoio popular”.
A reportagem do M&M aponta, porém, que Otavio Frias Filho, hoje diretor editorial do jornal, refuta as acusações, alegando que os veículos da empresa foram usados pelos órgãos da ditadura à revelia de seu pai.
Pequena biografia
O texto principal conta a trajetória do empresário desde seu nascimento, em agosto de 1912 no Rio de Janeiro, filho de uma decadente família de aristocratas, a compra da Folha de S. Paulo, em 1962, então um jornal de pouca expressão, até a transformação desse veículo num dos mais influentes do país.
A Folha foi pioneira, por exemplo, na impressão ofsete em cores, utilizada em larga tiragem pela primeira vez no país, na adoção do sistema eletrônico de fotocomposição e, sobretudo, nas mudanças editoriais conduzidas pelo jornalista Cláudio Abramo nos anos 70.
“Basicamente, a reforma consistia na injeção de opinião, levar o debate para dentro do jornal, celebrar a pluralidade. Surgiram editoriais, artigos opinativos, colunas com foco na crítica (...) A Folha de S. Paulo renasceu e ganhou a credibilidade que faltava”, diz a reportagem.
Mais tarde, com Otavio Frias Filho na direção do jornal, foi implantado o Projeto Folha, que defendia princípios de um jornalismo crítico, moderno, apartidário e pluralista. Apesar disso, a reportagem afirma que a Folha não se eximiu de tomar posição diante dos presidentes civis que se sucederam, e “concedeu tratamentos distintos” a eles.
“Em um primeiro momento, apoiou o ‘caçador de marajás’ Fernando Collor como única forma de derrotar Luiz Inácio Lula da Silva. Em seguida, engrossou o cordão do impeachment. Durante os oito anos de Fernando Henrique Cardoso, pregou a ortodoxia macroeconômica. Com Lula, porém, parece ter caminhado convicto para a direita, ampliando as vozes oposicionistas tucanas e pefelistas”, relata o texto.
Há ainda referência ao episódio em que Lula, às vésperas das eleições de 2002, levantou-se da cadeira e foi embora de um almoço oferecido pelo jornal, após ser questionado por Otavio Frias Filho se se sentia preparado para exercer a presidência, mesmo não tendo curso superior.
Sobre a disputa presidencial de 2006, cita os dados de dois institutos de pesquisa, o Datamídia e o Observatório Brasileiro de Mídia, apontando que o noticiário da Folha foi mais positivo à Geraldo Alckmin, do PSDB, do que a Lula, que buscava a reeleição.
Por fim, a reportagem relata os elogios feitos por Octavio Frias de Oliveira a outros “barões da mídia”, como Assis Chateaubriand, que construiu um império de mídia que sucumbiu à morte dele. “No fundo, quem sabe, Frias lutou a vida toda se espelhando nesse exemplo”, termina o texto.
| COMENTÁRIOS (5 Comentários) | |||
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