Economia| 12/12/2007 | Copyleft

EDITORIAL

A batalha e a guerra da CPMF

As grandes empresas, representadas pela FIESP, não querem que 35 bilhões de reais de sua contribuição corram o risco de ir para investimentos sociais, nem mesmo para seus apaniguados sob a forma de retorno ao capital financeiro através dos títulos da dívida pública. É uma luta de classes que ninguém confessa, mas todo mundo faz.

Fico pensando como devem ser as reuniões de pauta dos grandes jornalões brasileiros. Antes se perguntava: o que vamos publicar? Agora se perguntam: o que não vamos publicar? Imagino que deva haver uma prioridade na agenda, assim estabelecida: 1) o que não podemos nem devemos publicar de jeito nenhum; 2) o que não publicaremos a não ser que seja muito vergonhoso; 3) o que não tem jeito, temos que publicar; 4) o que queremos publicar, contra o governo Lula e a esquerda, etc. E por aí vai. No caso em pauta, a votação da CPMF, é por aí.

Por exemplo, os jornalões não podem publicar o que a imprensa internacional alardeia, que Lula é recebido no mundo inteiro como o representante legítimo do 3° Mundo. Não é Chávez, não é Evo, é Lula. Não podem publicar que a descoberta das novas jazidas petrolíferas na costa brasileira é um acontecimento tão ímpar quanto os achados de Monteiro Lobato na década de 30. Não podem publicar que o país vai dando certo, apesar de seus problemas, aliás provocados pelas políticas e governos (inclusive os ditatoriais) que esses mesmos jornalões sempre apoiaram.

Imagino as crises de gastrite e úlcera nestas redações ao se constatar que não só Lula sobreviveu aos ataques do suposto mensalão, como sua popularidade continua em alta, e vai bem obrigado. Que o que garantiu a reeleição de Lula foram as políticas sociais do governo, que sem elas ele estava fora, e que com elas ele saltou por cima das campanhas para derrubá-lo na curva de 2006.

O mesmo acontece agora com relação à CPMF.

Não se pode noticiar que há uma batalha e uma guerra em torno da CPMF. Mais ou menos como se segue.

Os DEMos descobriram um campo de batalha. Eles são fortes no Senado. Pobres coitados nas alianças executivas com o PSDB, na Câmara Alta eles são fortes, e podem travar batalhas decisivas. Como são fracos nos executivos estaduais, podem rifar este caráter institucional da sua representação. Afinal, os senadores representam estados, por isso a representação numérica deles é igualitária, e Sergipe, constitucionalmente, tem tantos senadores quanto São Paulo. Mas os DEMos se sentem acima disso, rifam a sua representação institucional e constitucional e passam a agir em função de seus próprios interesses. Se sentem fortalecidos, porque nos estados e no plano federal, em termos executivos, são acaudilhados pelo PSDB. Mas no Senado podem ensaiar uma disputa para 2010, quando dois cargos do Senado, por estado, estarão em jogo, em pé de igualdade com seus aliados/adversários do PSDB. O PSDB se vê forçado a tergiversar na questão. Seus governadores, inclusive o menino dos olhos José Serra, quer a verba do imposto. Mas as alianças com os DEMos tanto em S. Paulo como no Rio periclitam. O que fazer?

Bom, uma coisa que podem fazer é recomendar moderação a seus arautos na imprensa. Outra não tem sido a posição dos jornalões, pela primeira vez surpresos numa crise que não sabem administrar completamente. Pior que isso, só na eleição de 2006, quando o povo atropelou-os na maior. Os editoriais do Estadão (4 e 7/12) e da Folha (3/12) sobre o assunto têm sido modelares na cautela. A Folha é conhecidamente serrista, e privar Serra da CPMF, inclusive pensando no futuro, é um problema. Já o Estadão foi mais claro, e disso logo trataremos. Os DEMos, como já se disse aqui, estão travando a batalha da CPMF: querem garantir seu espaço em 2010, que é no Legislativo, e no Senado, câmara alta cujo valor corporativo para si descobriram, rifando o caráter constitucional da sua representação. Acaudilham o PSDB, que se sente fraco para contrariá-los, pois precisa do seu apoio nas gestões estaduais que mantém, embora nelas precisem da CPMF.

Mas há uma guerra da CPMF, a velha guerra de classes. Isso, Estadão e FIESP representam. Vejam só. São 40 bilhões de reais num ano. A alíquota representa só 0,38% das transações com cheques e transferências bancárias. Graças a isso, as grandes empresas se vêm obrigadas a contratar profissionais caríssimos, especialistas em tributração, para driblar a CPMF. O editorial do Estadão foi claro: se for para garantir o superávit primário (para pagar a dívida pública, 80% dela em mãos de 15 mil clãs familiares), tudo bem quanro à arrecadação. Se for para “investimentos menos rentáveis”, leiam-se, os sociais, coisa que os jornalões não têm coragem de escrever, não.

Aí, nós estamos na guerra, isto é, na velha e querida luta de classes. 72% da CPMF é paga por pessoas jurídicas, sobretudo as grandes empresas. 28% pelas pessoas físicas. Dentro dos 28%, 22% são da classe média.
Ou seja, as grandes empresas, representadas nominalmente ou pela ação política da FIESP, não querem que 35 bilhões de reais de sua contribuição corram o risco de ir para investimentos sociais, nem mesmo para seus apaniguados sob a forma de retorno ao capital financeiro através dos títulos da dívida pública. É uma luta de classes que ninguém confessa, mas todo mundo faz.

Uma coisa nisso tudo nos surpreende: os defensores do governo no Congresso, no Senado, nos partidos, foram incapazes de produzir um discurso coerente sobre a CPMF. Um sinal: lá atrás, se opuseram a ela porque era “dinheiro para o FHC”, não por uma visão estratégica do tributarismo brasileiro. As esquerdas não têm proposta para a reforma tributária, essa é a verdade verdadeira. Tudo fica na dependência das ações de Lula darem certo. Tomara que dêem. 40 bilhões de reais nas mãos do primeiro governo distributivista de renda desde Vargas não é de jogar fora.



 

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COMENTÁRIOS (55 Comentários)
       
Opinião Comentário Autor Data
Concordo que as empresas re... Ana Paula Springer 07/01/2008
A Messias Franca de Macedo ... ONILDO MENDES 22/12/2007
PSDB reage a Lula e ameaça ... Messias Franca de ... 17/12/2007
Em meio à fatídica sessão d... Messias Franca de ... 17/12/2007
LUTA DE CLASSES [uma contri... Messias Franca de ... 17/12/2007
UM ATENTADO CONTRA O PACTO ... Francisco Hugo Vie... 17/12/2007
Vejam a manchete capciosa, ... Humberto Codagnone 15/12/2007
Cheila, vejamos. Segundo vc... Bruno Alencar 14/12/2007
Infelizmente venceu o falso... Ronaldo Maciel 14/12/2007
Quem é este Wendell Setubal... Fabiano Duaarte 14/12/2007
Caro Bruno Alencar, se o go... Cheila Rio 14/12/2007
José Neri (senador desconhe... sergio luiz dos s... 14/12/2007
Venceu o capital! Luiz F. Taranto 14/12/2007
Qual tipo de carne está deb... Messias Franca de ... 14/12/2007
Legal...agora os serviços p... E Junior 13/12/2007
Após a queda ( da CPMF), ve... Raimundo W. S. Mel... 13/12/2007
Mas porque o pessoal da Fie... Rafael Chat 13/12/2007
Toda a arrecadação da CPMF ... Nelson Canesin 13/12/2007
"Não se trata de direitos e... Bruno Alencar 13/12/2007
Fico envergonhado com esses... Marcelo Kneip 13/12/2007
Interessante como muitas di... Luis Dzulinski 13/12/2007
Excelente análise. Quando s... alfio 13/12/2007
A CPMF tem como ponto princ... Rubens Andrade 13/12/2007
Leonaro : Você quer que Ca... Çecilia Cruz 13/12/2007
Mais um fora dos amigos do ... Christiano Gouveia... 13/12/2007
Estes que votaram contra a... Messias Franca de ... 13/12/2007
O senado é arcaico e repre... altamiro souza 13/12/2007
no dia em que o País exibe ... jose carlos lima 13/12/2007
Qualquer tentativa de distr... conceicao 13/12/2007
Em Montes Claros onde moro,... Gersier 12/12/2007
Grande Professorjornalista ... Maria Ronilda de O... 12/12/2007
Quem diz que o atual govern... Wendell Setubal 12/12/2007
Por que este site era con... Lucas Teixeira 12/12/2007
Flávio, seu comentário é mu... luiz pinheiro 12/12/2007
Allan. Não senti firmeza n... Marcio Guerra 12/12/2007
Com ou sem luta de classes,... Paulo Possar 12/12/2007
Caro Flavio, parabéns pela ... donizeti 12/12/2007
Um imposto provisorio nunca... c. figueiredo 12/12/2007
De fato, precisamos que ess... Regina Nóbrega 12/12/2007
Talvez o Marcio também não ... Allan 12/12/2007
O Bruno Alencar não entende... Marcio Guerra 12/12/2007
Interessante, não sou filia... Bruno Alencar 12/12/2007
Se fosse verdade que o PSDB... Carlos Henrique Xa... 12/12/2007
Dois temas ocupam, nos últi... Magda Menezes 12/12/2007
O discurso do eminente médi... Messias Franca de ... 12/12/2007
Não é crível! É crível! O s... Messias Franca de ... 12/12/2007
É isso aí caro Flávio, belo... Lúcia Adélia 12/12/2007
a carta maior não está faze... leonardo lobianco 12/12/2007
Gostei mesmo do editorial. ... Pietro 12/12/2007
A bem da verdade, devemos d... Fernando Gonzales 12/12/2007
Muito bom. É disparado o me... Rui Sereno 12/12/2007
Caro Flávio, você diz: R... Marcelo de Matos 12/12/2007
A grande aposta dos ... Carlos Henrique Si... 12/12/2007
Pera aí!A CPMF não foi cria... Haremhab 12/12/2007
Finalmente. Opino da mesma ... Renato Astray 12/12/2007
 
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30/08/2010

Aloysio Biondi: ausência lembrada, obra revisitada : Textos publicados em julho e agosto rendem homenagem a Aloysio Biondi e lembram os dez anos de ausência do jornalista revisitando sua obra. Em "O Brasil Privatizado", Biondi mostrou o processo de desmonte de empresas públicas no país durante os governos de FHC e suas consequências para a população: "Os prejuízos que o achatamento de tarifas e preços trouxe para as estatais teve efeitos que o consumidor conhece bem: nesses períodos, elas ficaram sem dinheiro para investir e ampliar serviços. Ou, dito de outra forma: não é verdade que os serviços das estatais tenham se deteriorado por incompetência".

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