ANÁLISE DA MÍDIA
O Santo Ofício da TV Globo
O "Tribunal do Santo Ofício" global revela-se por completo em uma entrevista. Insatisfeito com uma resposta, o repórter pergunta: "Esse é um compromisso que o senhor assume perante o público do Jornal da Globo?". Eis um belo momento de auto-representação da mídia. Cabe a ela, e somente a ela, o papel da justiça. A análise é de Gilson Caroni Filho.
Gilson Caroni Filho
Se o objetivo de uma entrevista é assegurar o direito do público em ser informado, fica difícil definir qual a natureza do exercício praticado pelo repórter Heraldo Pereira ao entrevistar o deputado Luiz Sérgio (PT-RJ), indicado pela liderança do partido para relatar a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos cartões corporativos.
O que assistimos no Jornal da Globo (28/02/2008) guarda alguma semelhança com prática jornalística ou obedece a construções simbólicas que têm por objetivo caracterizar parlamentares governistas, em especial os do Partido dos Trabalhadores, como delinqüentes contumazes? Pessoas sob permanente suspeita, que devem ser inquiridas com técnicas policiais de interrogatório.
O que procurava Heraldo Pereira? Um contato informal, sem pré-julgamentos, visando à obtenção de informações relevantes ou estabelecer ligações com o “suspeito", valendo-se de uma conversa aparentemente descontraída, que não oculta uma atmosfera carregada de intimidação?
A trama começa com William Waack, no estúdio, perguntando ao repórter qual teria sido o cálculo político que levou o governo a aceitar que a presidência da Comissão fosse ocupada por um parlamentar do PSDB. Pereira, em Brasília, desfia uma série de motivos mostrando um “governo acuado”, sem alternativas e em seguida é apresentada a entrevista com o deputado petista.
O tom jocoso reforça a suspeição prévia. O que se pretende é consolidar a premissa da cobertura. Há um parlamentar que, pela própria filiação partidária, não inspira confiança. A postura é inquisitorial como veremos a seguir
A primeira pergunta não deixa dúvidas quanto a motivações “Acordo do PT e PSDB. Vai ter acordo na CPI também"? Estamos diante de um questionamento jornalístico ou de uma provocação política? A desqualificação prévia do entrevistado revela argúcia do entrevistador? Cremos que uma afirmação de Nílson Lage se encaixa como luva nesse caso:
"O comportamento de alguns repórteres de vídeo deixa dúvidas sobre quem deve ser a "estrela" da entrevista. Todos sabem que a "estrela" deve ser sempre o entrevistado, "por mais conhecido e vaidoso que seja o repórter".
As demais seguirão a mesma toada: "A investigação vai ser mesmo pra valer ou muita coisa vai ser colocada debaixo do pano por causa do acordo político?" Notemos que o entrevistado já havia declarado inexistir qualquer tipo de acordo. Trata-se, portanto, de deixar evidente que o suspeito tem motivos para cometer o crime.
Quando Luiz Sérgio afirma que "não está na CPI para ser advogado de ninguém", Heraldo indaga: "nem do governo?". Estamos diante de um profissional que não quer respostas e muito menos aceita objeções. O fundamental é extrair do entrevistado algo que pareça confissão de culpa. O repórter vive seu momento de inquisidor e se diverte com o papel.
O “Tribunal do Santo Ofício" global se revelará por completo nas duas últimas interpelações feitas ao deputado.
“O senhor vai proteger alguém como relator?" Diante da negativa, Heraldo Pereira arremata: "Esse é um compromisso que o senhor assume perante o público do Jornal da Globo?". Eis um belo momento de auto-representação da mídia. Cabe a ela, e somente a ela, o papel de justiça em última instância. Esqueçamos a supremacia do interesse coletivo sobre o privado. O que conta é elaborado nas grandes oficinas de consenso.
Nos processos da inquisição, a denúncia era prova de culpabilidade, cabendo ao acusado a prova de sua inocência. O "Directorium Inquisitorum"( Manual dos Inquisidores) definia normas processuais, termos e modelos de sentença a serem utilizados. Pelo que temos presenciado - e essa entrevista está longe de ser uma prática desviante- cabe às corporações midiáticas reescrever o direito canônico contemporâneo. Para tanto é preciso audiência e bastante fervor na fé mercantil.
Oremos por todos.
02/09/2010
• Novo escândalo atinge governo tucano no Rio Grande do Sul :
Ação conjunta do Ministério Público Estadual do Rio Grande do Sul, do Ministério Público de Contas e da Polícia Federal aponta existência de uma quadrilha no interior do Banco do Estado do RS (Banrisul). A força tarefa constituída pelos três órgãos investiga a ação de uma suposta organização criminosa, integrada por um alto funcionário do banco, agências de publicidade e prestadores de serviços, que pode ter causado um prejuízo de mais de 10 milhões de reais nos últimos 18 meses. Três pessoas foram presas em flagrante por peculato e lavagem de dinheiro. A PF encontrou em suas residências e empresas cerca de R$ 2 milhões sem origem identificada (foto).
01/09/2010
• Jornal JÁ: como calar e intimidar a imprensa :
Ação movida pela família do ex-governador Germano Rigotto, candidato ao Senado pelo PMDB gaúcho, está asfixiando financeiramente o jornalista Elmar Bones (foto), editor do Jornal JÁ, de Porto Alegre. Motivo de ação é uma premiada reportagem de Bones sobre aquela que seria uma das maiores fraudes da história gaúcha, ocorrida durante o governo de Pedro Simon: a licitação manipulada de 11 subestações da Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE), que teria causado um prejuízo de R$ 840 milhões aos cofres do Estado, segundo investigações realizadas na época. Em recente decisão judicial, contas pessoais de Bones e sócio foram bloqueadas online para pagar advogados. O artigo é de Luiz Claudio Cunha, do Observatório da Imprensa.
30/08/2010
• O Globo se perde entre o céu e o inferno de São Conrado :
O jornal da família Marinho superou-se em sua edição de 22 de agosto ao dedicar em uma mesma edição um caderno para enaltecer a ótima qualidade de vida no bairro nobre de São Conrado e outro caderno para denunciar a “guerra do tráfico” e a insegurança no mesmíssimo bairro. A matéria do jornal especial sobre São Conrado começa indagando “o que leva alguém a escolher o bairro para viver”. Publicada no mesmo, dia a matéria sobre a “guerra no Rio” deixa essa pergunta sem resposta.