Internacional| 30/04/2008 | Copyleft

CARTA DE BERLIM

De novo o velho muro

O muro de Berlim caiu em novembro de 1989, catalizando uma mudança na paisagem da geopolítica mundial que vem se desdobrando até hoje. Aparentemente o mundo do passado teria desaparecido de todo. Mas não é bem assim. O muro está de volta. Ou pelo menos a sua assombracäo.

BERLIM - Numa dimensão econômica algo floclórica, o caso é engracado. Em quase toda Berlim o muro foi erradicado. Hoje há quem lamente isso: pensa-se até em levantá-lo de novo em pontos estratégicos. Por quê? Porque ele significaria divisas para cidade, gracas ao afluxo de turistas, que procuram avidamente o que dele restou.

Mas há uma dimensão política que trouxe o muro de volta das cinzas em que ele repousava. Neste final de abril, no domingo 27, houve o primeiro plebiscito da história de Berlim. O tema envolvia um confronto entre projetos alternativos e excludentes para o antigo aeroporto de Tempelhof, encravado na cidade. O Senado berlinense aprovou uma proposta, tempos atrás, fechando o aeroporto, cujo uso hoje é residual, a partir do final de 2008. Seu destino seria incerto: há projetos para transformá-lo num parque, num museu, além de outros usos, que a cidade debateria e escolheira, através de consultas e de seus representantes. Entretanto a CDU – a conservadora União Democrata Cristã, da premiê Ângela Merkel – apresentou uma proposta alternativa, mantendo o aeroporto em funcionamento para aviöes de pequeno porte, vale dizer, entre outros, pequenos jatos executivos.

O resultado e seus comentários na imprensa trouxeram algumas surpresas. Em primeiro lugar, na votação geral, a proposta de manutenção do aeroporto em funcionamento ganhou, por 60,2% contra 39,8% dos votos. Ganhou, mas não levou: para derrubar a decisão do fechamento, era necessário o comparecimento de pelo menos 25% dos eleitores registrados, e isso näo aconteceu. Assim, o fechamento tornou-se irreversível, e o prefeito da cidade, Klaus Wowereit (tido como à esquerda, no espectro político alemäo), deu uma declaração dizendo que agora é necessário tocar a discussão para diante, ou seja, discutir e decidir sobre o futuro daquele espaço.

Entretanto, o mais importante ficou por conta do desenho da cidade que a votação revelou.

Tempelhof é um marco histórico em Berlim, por várias razões. Foi construído ao tempo do nazismo, e sua arquitetura, monumental na afirmação da autoridade das paredes e das colunas hieráticas, revela essa origem. Por outro lado, foi o aeroporto que serviu para o abastecimento do lado ocidental da cidade, ao tempo da Guerra Fria, quando os soviéticos decidiram fechar o acesso por terra. Os norte-americanos organizaram uma ponte aérea a partir do ocidente que manteve a cidade abastecida durante a prolongada crise.

Além dos verdes e dos ecologistas de um modo geral, a esquerda se posicionou contra a manutenção do aeroporto, com o argumento de que ele serviria apenas aos mais ricos, a um custo ambiental desproporcional em relação às vantagens.

O mapa da votacäo mostrou que a proposta de manter o aeroporto ganhou na maioria dos bairros da antiga Berlim Ocidental. A de seu fechamento, venceu na maioria dos bairros da antiga Berlim Oriental. Nos bairros mais pobres, a alternativa do fechamento venceu. Nos mais ricos, ou de classe média alta, venceu a manutenção. Politicamente, no sentido estrito, o resultado ficou equilibrado. A direita (CDU) venceu a votação, mas não mobilizou nem mesmo seus efetivos tradicionais. A esquerda perdeu a votação, mas em compensação mostrou estar recuperando um terreno considerável. Logo depois da queda do muro, a partir de 1989, formou-se uma imagem da cidade que via o lado Oriental como base da direita.

Esquerda, se havia, era do lado Ocidental, e mais intelectualizada. Com os anos de crescimento do desemprego, e com a adesäo da maioria do SPD (o Partido Social Democrata) ao ideário neo-liberal, essa tendência teria se acentuado. Entretanto, fatos como a popularidade do prefeito Worwereit (que se reconhece publicamente como homossexual) e agora esta votação plebiscitária com a inclinação para do Leste para as bandeiras tidas como tradicionalmente de esquerda, mostram que o quadro é mais complexo do que aquela versão simplificadora.

Também se pode atribuir esse surpreendente desenho político que se manteve na cidade a fatores tais como: o tempo, no domingo, estava excepcionalmente primaveril, e a população que votaria pelo aeroporto preferiu ir aos parques e cervejarias ensolaradas do que ir votar; ou ainda, Tempelhof era um ícone de identidade para o lado Oeste da cidade, que esté perdendo símbolos, uma vez que o Centro da Berlim unificada está se deslocando para Leste, em direção ao portão de Brandemburgo, à nova estação central de trens (Hauptbanhof) e à Alexanderplatz, onde, aliás, fica a prefeitura. Assim o eleitorado do Oeste teria votado também em favor de um símbolo cultural de seu mundo.

É claro que, nessas circunstâncias, as causas e motivações são muitas, e é impossível atribuir tudo a uma única dentre elas. Mas o certo é que o desenho político da cidade não só ficou mais complexo, como mostrou também que as antigas clivagens estão mais vivas do que nunca. O mesmo acontece na Europa como um todo, onde, como mostrou o conjunto de posições em torno da independência da província do Kosovo em relação à Sérvia, a Guerra Fria prossegue viva, embora menos ideológica e mais pragmática. A OTAN continua querendo cercar a Rússia, e esta continua querendo manter sua ascendência sobre países e territórios que vê como de sua órbita.



 

>> INSIRA SEU COMENTÁRIO >>

COMENTÁRIOS (5 Comentários)
       
Opinião Comentário Autor Data
Caro Walter, o muro dos EUA... carlos eduardo 07/05/2008
Prezado Xará: o muro caiu 2... Flávio Vieira 05/05/2008
caro raimundo, é difícil te... walter venturini 05/05/2008
Gisele, o muro caiu faz 20 ... Raimundo Valerio N... 02/05/2008
Eu sou contra a tentativa d... gisele brasil de m... 01/05/2008
 
Leia Mais

31/08/2010

Uma análise do poder midiático na Argentina : O discurso que Cristina Fernández de Kirchner fez em 24 de agosto foi mais além do que tinham ido todos os discursos dos presidentes argentinos até hoje. Ninguém – nem sequer o primeiro Perón ou Evita – fizeram tal desconstrução da estrutura do poder na Argentina. De quê ela estava falando? Do poder nas sombras, do poder detrás do trono, do verdadeiro poder. Qual é? É o poder midiático. A direita não tem pensadores, tem jornalistas audazes, agressivos. E a mentira ou a deformação pura e plena de toda notícia é sua metodologia. O artigo é de José Pablo Feinmann.

Os EUA, o Chá e o 11/09: modernidade e regressão : Embora o Partido do Chá não constitua um partido oficial, represente a maioria ou detenha uma face única, sua mobilização social atrai segmentos diversos. A sua atração reside na externalização de problemas ao outro, o governo, as instituições públicas ou o diferente, sintetizado em um discurso composto pelos “antis” e pelos “prós”: anti-Estado, anti-impostos, anti-minorias, anti-direitos civis e sociais, pró-armas, pró-vida, pró-religião. O espírito é conservador, o que gera posições paradoxais: critica-se a reforma da saúde e do sistema financeiro como intrusivas, mas, ao mesmo tempo silencia-se ou apóia-se o Ato Patriota que, mais do que estes ajustes, é contrário às liberdades individuais. O artigo é de Cristina Soreanu Pecequilo.

Un análisis del poder : El discurso que la presidenta CFK ofreció el 24 de agosto fue más allá de lo que han ido todos los discursos de los presidentes argentinos hasta la fecha. Nadie –ni siquiera el primer Perón o Evita– procedieron a una destotalización de la estructura del poder en la Argentina. Analíticamente, destotalizó, en primer término, la totalidad y luego la armó otra vez para exhibir su funcionamiento. ¿De qué estaba hablando la Presidenta? Del poder en las sombras, del poder detrás del trono, del verdadero poder. ¿Cuál es? Es el poder mediático.

30/08/2010

"Hay que persuadir a Obama de que evite la guera nuclear" : Durante alrededor de cinco horas que duró la charla-entrevista –incluido el almuerzo– con La Jornada, Fidel aborda los más diversos temas, aunque se obsesione con algunos en particular. Permite que se le pregunte de todo –aunque el que más interrogue sea él– y repasa por primera vez y con dolorosa franqueza algunos momentos de la crisis de salud que sufrió los pasados cuatro años. "No quiero estar ausente en estos días. El mundo está en la fase más interesante y peligrosa de su existencia y yo estoy bastante comprometido con lo que vaya a pasar. Tengo cosas que hacer todavía".

"Não tenho dúvida de que ocorrerão grandes mudanças no México" : Na segunda parte da entrevista à jornalista Carmem Lira Saade, do La Jornada, Fidel Castro comenta suas recentes declarações a respeito de uma fraude que teria ocorrido nas últimas eleições presidenciais mexicanas prejudicando o candidato Andrés Manuel López Obrador.

Fidel Castro: “Cheguei a estar morto, mas ressuscitei” : Em entrevista exclusiva ao jornal La Jornada (a primeira concedida a um veículo impresso desde que uma diverticulite obrigou seu afastamento da liderança do governo cubano), Fidel Castro fala sobre o que aconteceu, diz que esteve à beira da morte, mas ressuscitou. E fala de seus planos para o futuro: "Não quero estar ausente nestes dias. O mundo está na fase mais interessante e perigosa de sua existência e eu estou bastante comprometido com o que está acontecendo. Ainda tenho muitas coisas para fazer".

Busca:
  Cadastro: somos 64095
.

Boletim Carta Maior
.
.
.

.

.
Destaques
 
Parcerias
.
Principal | TV Carta Maior | Blog do Emir Sader | Colunistas | Análise & Opinião | Arte & Cultura | Direitos Humanos | Economia | Educação | Humor | Internacional | Meio Ambiente | Movimentos Sociais | Política | Radio Carta Maior | Cartas dos Leitores | Expediente | Quem Somos