Política| 04/07/2008 | Copyleft

ANÁLISE DA NOTÍCIA

Imprensa, um semestre de imposturas

Como esquecer a coluna de 9 de janeiro, de Eliane Catanhêde, colunista da Folha de São Paulo?: "Com sua licença, vou usar este espaço para fazer um apelo para você que mora no Brasil, não importa onde: vacine-se contra a febre amarela! Não deixe para amanhã, depois, semana que vem... Vacine-se logo!”. Gilson Caroni Filho analisa o primeiro semestre da imprensa brasileira.

Um balanço da imprensa nos primeiros seis meses de 2008 mostra que não foi por falta de empenho que a imagem do governo não sofreu considerável desgaste. Um acompanhamento, mês a mês, da cobertura noticiosa mostra que o jornalismo de mercado, usado como controle político das elites, terminou resvalando ladeira abaixo ao continuar acreditando que dispunha de uma ilimitada capacidade prestidigitação.

Quedas de tiragens e audiência decorreram do apego à desmesurada crença nos dispositivos que regulam a relação entre os responsáveis pela produção e difusão de informações. Em inúmeras vezes o fato concreto deu lugar à imaterialidade midiática.

Por mais fiel que seja o leitor, por mais intensa a cumplicidade com o veículo que sistematiza sua visão de mundo, um noticiário que não guarda qualquer relação com a realidade vivida termina por explicitar excessivamente os interesses a que serve. E ao fazê-lo, termina sendo disfuncional a esses mesmos interesses. Um discurso vazio, que cai no descrédito na medida em que mais complexa se torna a sociedade para a qual é elaborado.

Em entrevista a um Jornal Laboratório de conhecida faculdade de Comunicação do Rio de Janeiro, o diretor de redação de Veja, Eurípedes Alcântara, não mediu palavras ao defender o que julga ser a função missionária da revista paulista e, por extensão, de toda a imprensa: “Como no Congresso as oposições estavam- e ainda, de certa forma, estão- desarticuladas, Veja se viu nessa incômoda situação de ser a única oposição real ao governo Lula"

Se a publicação dos Civita adotou o panfletarismo neocon como padrão editorial, os demais veículos da grande mídia também não se furtaram ao papel de substituir os partidos conservadores, ora impondo a pauta a eles, ora sendo pautados por conhecidos parlamentares, como destacou recentemente, aqui mesmo, Bernardo Kucinski, em seu artigo Por que o governo Lula perdeu a batalha da comunicação.

A “invenção de realidades" só esbarrou em um problema. A sociedade brasileira aprendeu a ler sua mídia e dela se afastou. O resultado foi a saturação do fazer jornalístico como práxis ética.

Tendo noção da extensão do “prontuário”, destacaremos apenas os crimes de maior repercussão. Aqueles em que a verdade factual foi solenemente ignorada na escolha de pautas viciadas, em conhecidos direcionamento de títulos e de cobertura.

Em janeiro, a febre amarela voltava às cidades brasileiras, e com casos registrados no Centro-Oeste, retornávamos todos à primeira metade do século passado. De nada adiantou o desmentido das autoridades. A situação calamitosa da saúde pública revelava o descuido do governo. Assim decidiram, de forma igual e combinada, os editores e proprietários das grandes empresas de mídia.

Como esquecer a coluna de 09/01 de Eliane Catanhêde, colunista da Folha de São Paulo?: "Com sua licença, vou usar este espaço para fazer um apelo para você que mora no Brasil, não importa onde: vacine-se contra a febre amarela! Não deixe para amanhã, depois, semana que vem... Vacine-se logo!”.

A marcha da insensatez não esperou que o primeiro mês do ano completasse sua primeira quinzena. Dias depois, como fogo-fátuo, o assunto sumiu do noticiário. O amarelo da falsa epidemia revela a coloração de quem a fabricava.

Em fevereiro, a instalação da CPI dos Cartões Corporativos prometia revelar as entranhas de um "governo corrupto”. Tapiocas, mesas de sinuca e notas fiscais frias na prestação de contas de contas de aluguel de veículos que o Planalto teria feito com cartões, anunciavam, enfim, esquemas irregulares envolvendo agentes do governo.

Como convinha ao espetáculo, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso enviava e-mail ao senador Sérgio Guerra, no “qual garantia jamais ter usado dinheiro público para pagar gastos pessoais." Uma pantomima que iria perdurar até meados de maio, quando, vendo que daquele mato não sairia coelho, o jornalismo de Pindorama já teria transformado banco de dados em dossiê. Os préstimos de um conhecido senador foram de valor inestimável.

Abril seria o mês de uma “crise militar". A edição de 16/04 do Globo informava que “o general Augusto Heleno, comandante militar da Amazônia, voltou a classificar a transformação da faixa da fronteira norte do país em terras indígenas como ameaça à soberania nacional”. Em palestra sobre a defesa da Amazônia no Clube Militar, no Rio, o general não se mostrou preocupado em contrariar a posição do governo, que defende a homologação de terras indígenas mesmo em regiões de fronteira, e disse que o Exército "serve ao Estado brasileiro e não ao governo", e chamou a política indigenista do governo de "caótica".

Ingredientes explosivos. Quebra de hierarquia e política pública pondo em risco a integridade do país. O procedimento editorial era condenar o comportamento do militar, dando total respaldo ao teor do seu discurso. Era um fato jornalístico com fortes ressonâncias no imaginário político nacional. Uma oportunidade de continuar o trabalho de assessoramento da "oposição desarticulada". Não durou uma semana. Era muito fardo para pouca farda.

Tráfico de influência na venda da Varig, ingerência indevida da Casa Civil no processo, pressões sobre a ex-diretora da Anac foram os destaques de junho. O depoimento de Denise Abreu na Comissão de Infra-Estrutura do Senado obedeceu ao roteiro folhetinesco conhecido por leitores e telespectadores. Mas o ”grande achado do mês" foi apresentar a elevação de preços que, em grande parte é explicada por fatores externos, como o fim da estabilidade monetária.

O terrorismo de jornais, revistas e emissoras de televisão criou um novo tipo de inflação, que não é de oferta ou de demanda, mas pode ser explicada a partir da formação de um estoque de descontextualização informativa: uma inflação de mídia. Novamente a imprensa tateou à procura de fatos reais que dessem sustentação à produção noticiosa. A distinção entre opinião e informação é algo inexistente quando a luta é contra um governo classificado pelo diretor de redação da Veja como “liberticida”

O primeiro dia de julho, no entanto, traria uma notícia desalentadora: "A inflação calculada pelo Índice de Preços ao Consumidor – Semanal (IPC-S) recuou pela terceira semana consecutiva na última medição de junho, registrando taxa de 0,77% - 0,12 ponto percentual menor que a da semana anterior (0,89%). A taxa também é a menor que a registrada no encerramento do mês anterior, quando ficou em 0,87%” (O Globo).

Supondo-se detentora de um mandato que lhe assegura total liberdade na tentativa de intermediar as relações entre Estado e sociedade civil, a imprensa brasileira zelou pelos interesses da oposição ao governo. A governadora Yeda Crusius e o alto comando do PSDB foram os principais beneficiários da cobertura padrão. O Detran gaúcho e o caso Alstom foram, até agora, blindados.

Mantida a inversão na relevância das informações é previsível o modus operandi predominante no segundo semestre. Porém, com a extradição de Cacciola, resta indagar com a poética de Drummond, em que gruta ou concha de página quedará abstrato o indesejável banqueiro?



 

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COMENTÁRIOS (47 Comentários)
       
Opinião Comentário Autor Data
Ditadura da imprensa.ditadu... MARIA GORETTI 13AM... 17/07/2008
Eliane (Catanhêde?) para en... Roberto Barboza 13/07/2008
Eu só gostaria de ler nesa ... wagner santos 11/07/2008
Que loucura! A nossa impren... Eliane 11/07/2008
li um artigo primoroso, à m... Laerte Carvalho 08/07/2008
E agora, com a prisão de Da... Omar Rösler 08/07/2008
É bom que alguém faça um re... Francisco Novais 08/07/2008
É preciso que artigos de fi... Rafael Salles 07/07/2008
Eu estou absolutamente enoj... Ruy Mauricio de Li... 07/07/2008
Essa ditadura da imprensa; ... Carlos Henrique Si... 07/07/2008
Magnífico. Sugiro um monito... Carol Mello 07/07/2008
Mais um artigo para ser lid... Gilberto Sé 07/07/2008
O dia 9 de janeiro é conhec... Ricardo B Oliveira 07/07/2008
A vergonhosa cobertura da m... donizeti costa 07/07/2008
Ótimo artigo. A epidemia d... Ricardo B Oliveira 07/07/2008
A imprensa vendida tem prin... Fernanda Souto 06/07/2008
Muito mais que um semestre ... Carlos Guimarães. 06/07/2008
Como seria a convivênvia co... Floriano Camelo de... 06/07/2008
Informação midiática serve,... Diego C. 06/07/2008
O bom nisso é que os jornai... Daniela Arruda 06/07/2008
Gilson, ao meu ver só e... Fernanda Tardin 06/07/2008
Não conheço pessoalmente o ... Daniel Oliveira 06/07/2008
Impressionante a quantidade... Antonio Gueiros 06/07/2008
Eu já me vacinei. Contra a ... luiz claudio pinhe... 06/07/2008
Gilson, tarefa intelectual... Márcio Moneta 05/07/2008
Meu caro Gilson. A leitura ... Camila Albuquerque 05/07/2008
Está próximo o dia do fim d... Raphael Dias 05/07/2008
Que bom quando alguém desfa... Ronaldo Bastos 05/07/2008
e ainda tem imbecil faland... Luix Pereira 05/07/2008
O chefe-de-gabinete do p... Marcelo de Matos 05/07/2008
Essa manipulação deliberada... neri 05/07/2008
Imprensa embusteira. Vamos ... Clarisse Lins 05/07/2008
belo texto, mas talvez seja... rogerio nascimento 05/07/2008
Em nenhum momento a globo p... leilal ima 05/07/2008
Até agora não entendi por q... canela 05/07/2008
É uma imprensa que vive de ... Fernando Motta 05/07/2008
Agora falta incriminar Lula... Vianna 05/07/2008
Cumpre lembra ainda que Eli... Paulo Ribeiro 05/07/2008
... O [presidente] Lula é e... Messias Franca de ... 05/07/2008
Não sobrou espaço para colo... alfio 05/07/2008
DEPOIS DA FEBRE AMARELA, OS... Messias Franca de ... 05/07/2008
Alguém com a poética de Dru... Ana Helena Ribeiro... 05/07/2008
A crônica da Catanhede, com... Francisco Antonio ... 05/07/2008
A matéria é excelente, muit... Sergiano Araújo 05/07/2008
Não sei se precisa, mas vou... moacyr pinto 05/07/2008
Um balanço perfeito. Quem n... Beatriz Cleto 05/07/2008
Ótima análise. Marcelo Figueiredo 04/07/2008
 
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02/09/2010

Novo escândalo atinge governo tucano no Rio Grande do Sul : Ação conjunta do Ministério Público Estadual do Rio Grande do Sul, do Ministério Público de Contas e da Polícia Federal aponta existência de uma quadrilha no interior do Banco do Estado do RS (Banrisul). A força tarefa constituída pelos três órgãos investiga a ação de uma suposta organização criminosa, integrada por um alto funcionário do banco, agências de publicidade e prestadores de serviços, que pode ter causado um prejuízo de mais de 10 milhões de reais nos últimos 18 meses. Três pessoas foram presas em flagrante por peculato e lavagem de dinheiro. A PF encontrou em suas residências e empresas cerca de R$ 2 milhões sem origem identificada (foto).

Banrisul foi vítima de uma quadrilha, diz delegado : Banco público gaúcho foi vítima de uma quadrilha formada por funcionários públicos e privados que retiravam dinheiro do banco para usar de maneira particular, diz superintendente da Polícia Federal do RS. A investigação iniciou por meio da denúncia feita ao MP Estadual por uma das pessoas subcontratadas neste esquema e que não recebeu o que deveria. A PF entrou na investigação, explicou o delegado, em função da suspeita de prática de crimes federais como evasão de divisas e lavagem de dinheiro.

01/09/2010

Jornal JÁ: como calar e intimidar a imprensa : Ação movida pela família do ex-governador Germano Rigotto, candidato ao Senado pelo PMDB gaúcho, está asfixiando financeiramente o jornalista Elmar Bones (foto), editor do Jornal JÁ, de Porto Alegre. Motivo de ação é uma premiada reportagem de Bones sobre aquela que seria uma das maiores fraudes da história gaúcha, ocorrida durante o governo de Pedro Simon: a licitação manipulada de 11 subestações da Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE), que teria causado um prejuízo de R$ 840 milhões aos cofres do Estado, segundo investigações realizadas na época. Em recente decisão judicial, contas pessoais de Bones e sócio foram bloqueadas online para pagar advogados. O artigo é de Luiz Claudio Cunha, do Observatório da Imprensa.

O sucateamento da saúde pública de São Paulo : Avaliação de 350 mil usuários do SUS de São Paulo, efetuada pela própria Secretaria de Estado da Saúde (SES) relata ausência de vacinas do calendário básico em diversas unidades de saúde da Secretaria, analgesia durante o parto realizada com “panos quentes” e a demora absurda na realização de diversos exames complementares. No município de São Paulo, o atual prefeito Gilberto Kassab pauperizou a tal ponto alguns dos hospitais sob tutela da Autarquia Municipal, que há vários meses, por exemplo, não existem colchões em hospitais da Zona Leste da cidade. O artigo é do médico João Paulo Cechinel Souza.

30/08/2010

O Globo se perde entre o céu e o inferno de São Conrado : O jornal da família Marinho superou-se em sua edição de 22 de agosto ao dedicar em uma mesma edição um caderno para enaltecer a ótima qualidade de vida no bairro nobre de São Conrado e outro caderno para denunciar a “guerra do tráfico” e a insegurança no mesmíssimo bairro. A matéria do jornal especial sobre São Conrado começa indagando “o que leva alguém a escolher o bairro para viver”. Publicada no mesmo, dia a matéria sobre a “guerra no Rio” deixa essa pergunta sem resposta.

Deputado propõe Conselho Parlamentar de Comunicação em SP : O projeto do deputado Antonio Mentor tem como base iniciativas semelhantes, em alguns outros estados brasileiros como Rio de Janeiro e Piauí, bem como as deliberações da 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom). O objetivo é contribuir no processo de democratização das comunicações no Estado de SP. Segundo o projeto, caberá ao Conselho, entre outras coisas, a fiscalização, avaliação e proposição de políticas estaduais de Comunicação e a promoção dos direitos humanos.

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