Internacional| 11/08/2008 | Copyleft

ANÁLISE DA NOTÍCIA

O Czar está de volta

O governo da Geórgia encalacrou-se ao desafiar o poder russo, confiando em que a União Européia, a OTAN e os Estados Unidos chegariam às vias de fato para protegê-la, já que é aliada e quer ser ponta-de-lança deles. O gesto vai lhe sair caro e trouxe de volta à cena o grande czar da era atual, Vladimir Putin.

A Primeira Guerra Mundial começou aparentemente quando um suposto anarquista (até hoje essa história não foi de todo contada) disparou contra o arquiduque Ferdinando José, do Império Austro-Húngaro, em Sarajevo, na Sérvia. A cadeia de alianças, algumas secretas, construída em torno da região do Mar Negro, logo levou ao conflito que destruiu impérios (entre eles o Austro-Húngaro) e que só ia parar com o fim da Segunda Guerra Mundial e o começo de outra Guerra Mundial, a Fria.

Esta última terminou, mas não terminou. O desmembramento da União Soviética levou a duas corridas armamentistas: a União Européia correu para ocupar, “manu economica”, o espaço do antigo Leste europeu, derramando nele quadros e mais quadros de formação para “preparar o capitalismo”, e quadros e mais quadros funcionais para administra-lo. E a OTAN correu para ocupar. “manu militari”, o mesmo espaço, ainda com o mesmo objetivo de cercar seu antigo inimigo moscovita, o que só não percebe quem não quer.

O primeiro avanço foi facilitado pela “sede capitalista” (sêde) que cresceu nas sociedades emergentes de um comunismo que não só não conseguiu, de um modo geral, criar o “homem novo”, mas conseguiu a proeza de criar burocracias dirigentes que se transformaram logo em “escolares entusiastas”, mas desorganizados, do capitalismo triunfante ou em máfias extremamente ambiciosas e violentas, mas organizadas, para arrancar e conceder favores na nova ordem.

O segundo avanço, o militar, foi facilitado pelo estraçalhamento da rede de apoio soviética e sua divisão entre as máfias e novos discípulos, que passaram a combater encarniçadamente os velhos discípulos que permanecessem, por razões táticas e estratégicas, mas de modo nenhum ideológicas, aliados da antiga presença da hegemonia russa, que era quem e o que mandava de fato, sob a fachada comunista. A Rússia, durante década e quase meia, viu-se debilitada econômica, política e militarmente, sem poder se contrapor ao avanço do inimigo sobre o que fora seus domínios.

Assim a OTAN bombardeou o ocupou parte dos Bálcãs, enquanto etnias, países e partidos políticos martirizavam suas populações em nome de religiões, de demarcação de territórios, e de um nacionalismo que não recende sequer a aspirações de grandeza, antes a um sórdido conquistar de posições para negocia-las, ou com a águia de duas cabeças do lado leste (o símbolo da antiga Rússia czarista, que renasceu das cinzas da foice e do martelo), ou com a ave de rapina multicor, e de muitas cabeças, do capitalismo triunfante que vinha do lado oeste.

O último capítulo dramático dessa continuação da Guerra Fria foi a “independência” da província separatista do Kosovo, na Sérvia. Na verdade essa “independência” foi uma ocupação da província por albaneses, arqui-inimigos dos sérvios, agora aliados do Ocidente. Houve atrocidades de parte a parte; como os albaneses são agora “aliados”, no Ocidente soube-se mais das atrocidades cometidas pelos soldados sérvios.

Desse episódio, saíram humilhadas a Sérvia e a Rússia. A garantia da independência do Kosovo, território logo ocupado por esquadrões de juízes, policiais, funcionários e administradores de mercado da União Européia, foi a presença das bases militares da OTAN, instaladas enquanto a Rússia ainda se recuperava das seqüelas provocadas pela hecatombe do sistema soviético.

Agora, parece que esse capítulo chegou ao fim e outro começou. Sob a política altamente centralizadora, autoritária na administração e condescendente com as “facilidades” do novo capitalismo, construída durante o primeiro czariato de Putin, a Rússia está em francas vias de recuperação econômica e militar. E parece que chegou a hora de mostrar os dentes.

O governo da Geórgia, desejoso de tornar-se alvo dos avanços militar e econômico do Ocidente, precipitou uma guerra de posições que se dava em torno da sua ex-província da Ossétia do Sul. É mais do que provável que o governo esperasse que seus promissores aliados o socorressem com dinheiro, armas e até soldados. Nada disso aconteceu.

O poderio russo voltou a se afirmar. Quando a Geórgia invadiu a Ossétia, que se proclamara independente nos anos 90 do século passado, Putin, que estava em Pequim assistindo a abertura dos jogos olímpicos, reuniu-se mais do que depressa com Bush.

O que devem ter dito os dois? Quanto às palavras, é impossível saber. Mas certamente Putin fez Bush, agora um presidente sainte, saber que chegara a hora da Rússia beber água, e da Geórgia beber fogo, inclusive em nome do sangue que, aliás, pelos relatos que se têm, seu exército fez correr abundantemente na província invadida, despertando desejos de vingança na população ossétia. E Putin deve ter acrescentado que os Estados Unidos deveria se satisfazer com protestos verbais e deveria “recomendar” o mesmo a seus aliados europeus.

Os Estados Unidos são a maior potência naval e aérea que o mundo já conheceu. Mas em terra ainda não há quem possa com os tanques russos. A única coisa que poderia talvez detê-los seria um ataque aéreo da OTAN, semelhante ao que ela despejou sobre toda a antiga Iugoslávia e em particular sobre a Sérvia, ao fim do século passado, em nome de evitar um genocídio, mas de fato abrindo caminho para a ocupação com suas tropas de terra e bases militares.

Na Europa as reações de direita, na imprensa, seguem o padrão de que o governo georgiano “se excedeu”, e “se precipitou”, mas que a contra-reação russa foi “desproporcional”. A mesma turma, que não hesita em promover a presença ianque e européia nos Iraque e no Afeganistão, condena o bombardeio russo (agora) da Geórgia, e a ocupação militar de pelo menos parte do território desta, que deve se suceder.

As reações mais para a esquerda coincidem, em boa parte, com a desta análise: Putin está mostrando – sobre, inclusive, a presidência de Medvedev – que o verdadeiro e contínuo Czar é ele, seja como presidente (antes), seja como primeiro-ministro (agora). Putin fora um tanto ofuscado pela presença de Medvedev na conferência do G8 no Japão. Agora voltou à cena, com som e fúria. Saiu de Pequim quase diretamente para a Ossétia do Norte, província russa que limita com sua co-irmã “independente” do sul. E de lá comandou ou assistiu o “show” dos tanques russos ao sul de seu império.

Uma coisa é certa: a população da Ossétia do Sul está comendo o pão que a Geórgia, os Estados Unidos, a OTAN, a União Européia e a Rússia amassaram. Os relatos sobre o comportamento do exército georgiano na Ossétia são terríveis, e foram publicados no conspícuo The Guardian. Mas isto a imprensa do Ocidente, em sua maioria, deverá logo esquecer. E se seguirá a lamentação (também justa) sobre os pobres georgianos que foram vítimas dos bombardeios e dos tanques russos. Afinal, guerra é guerra.



 

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COMENTÁRIOS (15 Comentários)
       
Opinião Comentário Autor Data
Agradeço a correta lembranç... Flavio Wolf de Agu... 15/08/2008
Agora começa a reação, ok, ... Luis José Ariosto ... 15/08/2008
ESTAVA PROCURANDO INFORMAÇÕ... bentoxvi-o santo 15/08/2008
Muito bem. E o novo ataque ... walter morales ara... 14/08/2008
Correção! Notícia de frota ... walter morales ara... 14/08/2008
É o petróleo, meu caro! As ... Jose de Almeida Bi... 12/08/2008
hoje meu filho voltou do co... ERNESTO 12/08/2008
O nome do arqueduque é Fran... Romeu 12/08/2008
O MUndo é hipócrita. A inva... Jonas 12/08/2008
Acho que poderia ser aprofu... Ricardo Meier 12/08/2008
Essa ação foi premeditada. ... sergio 12/08/2008
Dificilmente a Geórgia lanç... Andre Vieira 12/08/2008
O imperialismo norteamerica... Francisco Antonio ... 12/08/2008
Análise muito bem acertada ... Assad Frangieh 12/08/2008
A culpa dessa escalada de v... Jefferson Milatias 11/08/2008
 
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31/08/2010

Uma análise do poder midiático na Argentina : O discurso que Cristina Fernández de Kirchner fez em 24 de agosto foi mais além do que tinham ido todos os discursos dos presidentes argentinos até hoje. Ninguém – nem sequer o primeiro Perón ou Evita – fizeram tal desconstrução da estrutura do poder na Argentina. De quê ela estava falando? Do poder nas sombras, do poder detrás do trono, do verdadeiro poder. Qual é? É o poder midiático. A direita não tem pensadores, tem jornalistas audazes, agressivos. E a mentira ou a deformação pura e plena de toda notícia é sua metodologia. O artigo é de José Pablo Feinmann.

Os EUA, o Chá e o 11/09: modernidade e regressão : Embora o Partido do Chá não constitua um partido oficial, represente a maioria ou detenha uma face única, sua mobilização social atrai segmentos diversos. A sua atração reside na externalização de problemas ao outro, o governo, as instituições públicas ou o diferente, sintetizado em um discurso composto pelos “antis” e pelos “prós”: anti-Estado, anti-impostos, anti-minorias, anti-direitos civis e sociais, pró-armas, pró-vida, pró-religião. O espírito é conservador, o que gera posições paradoxais: critica-se a reforma da saúde e do sistema financeiro como intrusivas, mas, ao mesmo tempo silencia-se ou apóia-se o Ato Patriota que, mais do que estes ajustes, é contrário às liberdades individuais. O artigo é de Cristina Soreanu Pecequilo.

Un análisis del poder : El discurso que la presidenta CFK ofreció el 24 de agosto fue más allá de lo que han ido todos los discursos de los presidentes argentinos hasta la fecha. Nadie –ni siquiera el primer Perón o Evita– procedieron a una destotalización de la estructura del poder en la Argentina. Analíticamente, destotalizó, en primer término, la totalidad y luego la armó otra vez para exhibir su funcionamiento. ¿De qué estaba hablando la Presidenta? Del poder en las sombras, del poder detrás del trono, del verdadero poder. ¿Cuál es? Es el poder mediático.

30/08/2010

"Hay que persuadir a Obama de que evite la guera nuclear" : Durante alrededor de cinco horas que duró la charla-entrevista –incluido el almuerzo– con La Jornada, Fidel aborda los más diversos temas, aunque se obsesione con algunos en particular. Permite que se le pregunte de todo –aunque el que más interrogue sea él– y repasa por primera vez y con dolorosa franqueza algunos momentos de la crisis de salud que sufrió los pasados cuatro años. "No quiero estar ausente en estos días. El mundo está en la fase más interesante y peligrosa de su existencia y yo estoy bastante comprometido con lo que vaya a pasar. Tengo cosas que hacer todavía".

"Não tenho dúvida de que ocorrerão grandes mudanças no México" : Na segunda parte da entrevista à jornalista Carmem Lira Saade, do La Jornada, Fidel Castro comenta suas recentes declarações a respeito de uma fraude que teria ocorrido nas últimas eleições presidenciais mexicanas prejudicando o candidato Andrés Manuel López Obrador.

Fidel Castro: “Cheguei a estar morto, mas ressuscitei” : Em entrevista exclusiva ao jornal La Jornada (a primeira concedida a um veículo impresso desde que uma diverticulite obrigou seu afastamento da liderança do governo cubano), Fidel Castro fala sobre o que aconteceu, diz que esteve à beira da morte, mas ressuscitou. E fala de seus planos para o futuro: "Não quero estar ausente nestes dias. O mundo está na fase mais interessante e perigosa de sua existência e eu estou bastante comprometido com o que está acontecendo. Ainda tenho muitas coisas para fazer".

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