Economia| 06/10/2008 | Copyleft

CAPITALISMO EM CRISE

O pânico nos mercados após o Plano Paulson

Desde outubro de 2007, quando os índices da bolsa começaram a cair, já se sabia que estava iniciando uma situação financeira crítica. A pergunta que todos se faziam era: quão crítica é essa situação? A outra pergunta era se teria relação com a economia real ou não. Vinte bancos ficaram expostos aos riscos dos derivados creditícios relacionados a hipotecas. Dez deles já desapareceram.

O governo Bush jogou pesado para aprovar o pacote de resgate bancário de 700 bilhões de dólares, articulado por Hank Paulson, secretário do Tesouro e ex-presidente do Goldman Sachs. Dinheiro para socorrer o próprio Goldman Sachs, o Morgan Stanley e outros bancos em suas operações de crédito. Mas o mercado considerou o pacote insuficiente.

A reação ao anúncio da aprovação do pacote foi uma queda do mercado financeiro de Nova York. As notícias que se seguiram no sábado, dia 4 de outubro, davam conta que o Hypo Bank, da Alemanha, estava para quebrar, o que exigiu um resgate de 70 bilhões de dólares. No domingo, uma reunião entre os chefes de Estado da Alemanha, França, Itália e Inglaterra, decidiu não adotar um esquema análogo ao Plano Paulson. Essas duas notícias provocaram uma queda de 4,5% nas bolsas asiáticas, as primeiras a abrir na semana.

Outubro é o mês das grandes crises
Essa queda derrubou as bolsas européias que abriram em baixa e caíram cerca de 4,5% em meio a notícias alarmantes sobre a queda na demanda de automóveis. A mesma tendência verificou-se na abertura da bolsa de Nova York. Outubro é o mês das grandes crises financeiras. A de 1929 e a de 1987 ocorreram em outubro. Não é por acaso. A informação sobre a economia dos EUA é atualizada a cada três meses e a última informação antes do fechamento do ano é divulgada no final de setembro. Este ano, a notícia foi que a soma da perda de empregos no ano é de 800 mil postos de trabalho e que há uma queda de mais de dois dígitos na demanda automobilística. A taxa de crescimento foi menor do que a esperada e a de inflação, maior. Some-se a isso os problemas dos bancos e podemos dizer que outubro de 2008 já tem um lugar de destaque nos livros da história financeira.

Desde outubro de 2007, quando os índices da bolsa começaram a cair, já se sabia que estava iniciando uma situação financeira crítica. A pergunta que todos se faziam era: quão crítica é essa situação? A outra pergunta era se teria relação com a economia real ou não. Primeiro foram as hipotecas que não estavam sendo pagas no prazo: depois, descobriu-se que os fundos criados para cobrir os detentores de hipotecas em caso de inadimplência não estavam cobrindo as dívidas. Os valores segurados eram muito maiores do que aquilo que podia ser coberto de modo realista. No desenho desse modelo, não havia sido prevista uma interrupção massiva de pagamentos.

Depois, seguiu-se a quebra do banco IndyMac, na Califórnia, em julho 2008. Sete bancos colapsaram em 2007 e já são 12 em 2008. Desapareceu a venerada banca de investimentos levando consigo a Merrill Lynch, cujo edifício é a essência de Wall Street, o Lehman Brothers (o mais antigo de todos) e as divisões de investimento do Citibank e a UBS. Vinte bancos ficaram expostos aos riscos dos derivados creditícios relacionados a hipotecas. Dez deles já desapareceram.

Crise no crédito interbancário
Faltam outros dez, entre eles a UBS, da Suíça, o Deutsche Bank, da Alemanha, e o Barclays, da Inglaterra. O Citibank e o Bank of America, juntamente com o JP Morgan, estão nesta lista e devem fazer parte do plano de Paulson de resgatar bancos. Enquanto a crise se desenrola, a taxa de juros interbancária de Londres, Libor, atingiu um recorde histórico e o crédito interbancário secou, deixando praticamente paralisado o funcionamento do sistema.

Sem crédito, não há vendas no mundo moderno, e devolver créditos sem renová-los, descapitalizará as empresas. As que conseguirem sobreviver serão mais fortes no futuro e se regressará, então, a uma ordem econômica mais real. A etapa do auge maníaco descrito por Kindleberger terminou e passamos para a fase do pânico. “Manias, pânicos e cracks: história das crises financeiras” tornou-se leitura obrigatória.

Do mesmo modo o capítulo 24 do terceiro volume de “O Capital”, de Marx, que recuperou vigência ao analisar o processo mediante o qual ocorrem estas crises. Uma das questões a entender é como se dá o processo de contágio nestas crises. Uma primeira evidência é que onde há bolsas de valores, os agentes internacionais retiram seus investimentos ao mesmo tempo em que o fazem as bolsas maiores. Desta forma, todas as bolsas caem simultaneamente. Esse é o elemento sistêmico da crise.

A isso se segue que, se se utilizam ações como garantias para empréstimos bancários, os bancos ficam superexpostos no que diz respeito ao tamanho das garantias. Então os bancos quebram. Aqui reside a importância de ter mecanismos de regulação financeira que impeçam o uso de ações como garantias para operações de crédito.

Em terceiro lugar, se o banco ingressou no mercado de fundos creditícios por este ser rentável, ele é arrastado quando ocorre um problema massivo como o das hipotecas. Em linhas gerais os bancos latino-americanos, asiáticos, africanos e do Oriente Médio não entraram neste mercado.

Em quarto lugar, quando a taxa de juros interbancária sobe em dólares, ela pressiona a todos os agentes bancários que operam nesta moeda. Na medida em que utilizam as linhas em euros ou em outras moedas há muito menos pressão ou mesmo não há pressão. Para os bancos que utilizam linhas de crédito em dólares, a taxa de juro pode subir, como ocorreu em 1998, levando então a uma crise bancária em todo o mundo ao se quebrar a cadeia de pagamentos pelo alto custo do dinheiro. Agora a cadeia de pagamentos se quebrou nos EUA repercutindo massivamente no resto do mundo.

O que repercutiu na Europa, sobretudo, foi a queda das hipotecas e dos derivados vinculados a elas. Isso está arrastando a bancos ingleses, espanhóis, alemães, islandeses e possivelmente suíços, que investiram nestes instrumentos. A crise parece global, mas é, fundamentalmente, dos Estados Unidos.

Em quinto lugar, os efeitos inflacionários dos aumentos desmedidos de liquidez na economia norte-americana levaram a uma alta nas taxas de juros. O Federal Reserve não pode fazer isso este ano porque precipitaria uma crise ainda mais profunda, mas não escapará de adotar essa medida em algum momento de 2009. Quando essa alta ocorrer, será acima da taxa de inflação, em dois ou três pontos, o que afetará a taxa de crescimento de todos na medida em que estamos todos enganchados no mercado creditício em dólares.

Para países como Equador, Panamá e El Salvador, este pode ser um momento para realizar a desdolarização, porque o dólar pode trazer-lhes ainda mais inflação e problemas bancários do que operar em sua própria moeda. Neste ambiente de pânico, o que está claro é que a melhor moeda, na América do Sul, é a própria de cada país, e que as economias mais inseridas na dos Estados Unidos vão sentir mais pesadamente o contágio da crise.

Finalmente, há uma corrida em favor do dólar, que já levou a uma valorização de até 1,35 dólares por euro, a maior desde seu pico de 1,60. O argumento dos analistas norte-americanos é que sua economia está sólida e tem a moeda mais sólida do mundo. Na verdade, o que está ocorrendo é que os agentes financeiros, desde os EUA, estão vendendo suas posições nas bolsas pelo mundo e colocando esse dinheiro em dólares, além da atuação do fundo de estabilização monetária criado em 1936 para esses casos. A economia dos EUA pode entrar em uma profunda recessão, acompanhada de uma inflação importante.

* Oscar Ugarteche, economista peruano, trabalha no Instituto de Investigações Econômicas da Universidade Autônoma do México, e integra a Rede Latinoamericana de Dívida, Desenvolvimento e Direitos (Latindadd). É presidente da ALAI e integrante do Observatório Econômico da América Latina (Obela).

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer





 

>> INSIRA SEU COMENTÁRIO >>

Busca:
  Cadastro: somos 59474
.
Faça parte de Carta Maior
Boletim Carta Maior
.
.
Destaques
 
Parcerias






.
Principal | TV Carta Maior | Blog do Emir | Colunistas | Análise & Opinião | Arte & Cultura | Direitos Humanos | Economia | Educação | Humor | Internacional | Meio Ambiente | Movimentos Sociais | Política | Radio Carta Maior | Cartas dos Leitores | Expediente | Quem Somos