Economia| 08/10/2008 | Copyleft

MARIA DA CONCEIÇÃO TAVARES

"Entupiu o sistema circulatório do capitalismo. É preciso agir rápido, antes que ocorra a trombose"

Em entrevista à Carta Maior, a economista Maria da Conceição Tavares fala sobre a crise. “As autoridades monetárias de todo o mundo têm que intervir rápido, antes que se forme a pior das bolhas, a de pânico, que é essa que está em curso", adverte. Para ela, o Brasil tem algumas vantagens importantes para enfrentar a crise, entre elas a existência de três fortes bancos estatais e pelo menos três grandes empresas públicas de peso, salvas do ciclo de privatizações desfechado pelo governo anterior. Isso dá ao governo instrumentos para intervir fortemente no mercado.

Decana dos economistas brasileiros, uma espécie de banco de reflexão de última instância ao qual se socorrem economistas quando o horizonte do mercado exibe mais interrogações que cifrões, a professora Maria da Conceição Tavares, 78 anos, quase não dormiu na noite de terça para quarta-feira. E voltou a fumar, muito, o que não deveria, por orientação médica. Motivo: os abalos seguidos nos alicerces do sistema capitalista norte-americano e seus efeitos sísmicos no mundo, inclusive no Brasil.

Conhecida pela rara capacidade de equilibrar razão e paixão – não necessariamente nessa ordem - , costuradas em frases contundentes e metáforas esmagadoras sobre os desafios da economia e do desenvolvimento, Conceição falou à Carta Maior sobre a crise em curso no sistema capitalista. A voz rouca e o cansaço de uma noite insone não impedirem que reafirmasse a reputação construída a partir de uma lucidez corajosa, que mesmo os adversários respeitam - e temem.

A seguir trechos de sua conversa com a Carta Maior:

“A questão central é que o crédito está congelado: entupiu o sistema circulatório do capitalismo. Sem crédito uma economia capitalista não funciona. Agora é torcer para que o entupimento não se transforme em trombose”.

“O Martin Wolf foi lento (NR: editor do Financial Times, conhecido pelas convicções neoliberais que, em artigo transcrito hoje pelos jornais brasileiros, pede um resgate estatal urgente, e amplo, do sistema bancário). Assim como ele, as autoridades norte-americanas também foram lentas. Demasiado lentas. Vão dizer que não sabiam o tamanho do estrago? Ignoravam a gravidade da bolha especulativa feita de hipotecas podres e derivativos, cuja soma vai além de US$ 6 trilhões, sem falar do resto? Como não sabiam? Eles são gente de Wall Street. São escolhidos entre os “piranhões” do mercado. Não podem dizer que não sabiam. O problema não é esse. O problema é que eles acreditam no mercado. Essa é a tragédia. Esperaram até o limite da irresponsabilidade para intervir. Aí perderam o controle e estão diante do pânico: ninguém empresta a ninguém, entupiu o sistema circulatório do capitalismo”.

“Agora tem de fazer isso mesmo, estatizar parcelas abrangentes do sistema financeiro; implantar safenas. Não é isso que estão fazendo? O FED já começou a descontar commercial papers direto no mercado. Tem que intervir largamente, e rápido. Eles são o centro da crise mundial. Mas um pânico financeiro não respeita fronteiras”.

“O problema do Brasil não são os fundamentos, que no geral são bons. Mas aqui também foram feitas operações especulativas por grandes empresas exportadoras. Ou será que a Sadia e a Aracruz agiram solitariamente? Não agiram. Não foram exceções. Foram irresponsáveis. Não se contentaram em contratar hedge (seguro) contra a variação cambial. Quiseram apostar quantias fantásticas na variação futura do câmbio e apostaram errado. Jogaram na valorização do Real o que é insólito, diga-se. Como exportadores deveriam engrossar as vozes que pediam maior competitividade da moeda brasileira. Mas apostaram. erraram e isso abriu rombos que a Sadia, felizmente, já reconheceu no seu balanço. Digo felizmente porque não pode pairar dúvidas no mercado sobre o tamanho e a abrangência desses prejuízos ou isso gera incerteza e a desconfiança bate nas taxas do dólar.”

“O Banco Central tem o registro, sabe quem fez operações de hedge, mas não sabe quem derivou daí a segunda operação, especulativa. Se soubesse deveria intervir, sanar rapidamente o problema para evitar essa incerteza. Mas o BC, infelizmente, não tem os controles de operações que são totalmente desreguladas. O jeito então é intervir direto no mercado. Impedir a disparada do câmbio que dificulta a vida dos exportadores e importadores. A volatilidade impede o fechamento de contratos de exportação e importação; isso desequilibra a oferta de dólares e empurra ainda mais as cotações. O BC deve intervir direto vendendo dólares (NR: foi o que ocorreu depois que Conceição falou a CM). Não adianta mais fazer swaps (contratos futuros), precisa vencer moeda mesmo. Moeda das nossas reservas – fazer o quê? Note que não há fuga de capitais, não é como no passado. Se fosse fuga de capitais, a simples existência de reservas de US$ 207 bilhões controlaria. O diabo não é fuga, nem inflação, nem recessão... É irresponsabilidade, exportadores- especuladores”.

“As autoridades monetárias de todo o mundo têm que intervir rápido, antes que se forme a pior das bolhas, a de pânico, que é essa que está em curso. É preciso entender, porém, que a crise atual não é semelhante a de 1929. Claro, há elementos comuns, como o derretimento das ações e a fuga de ativos podres. Mas o dramático que a distingue daquele episódio dos anos 30 é o congelamento do crédito, fruto da desconfiança generalizada sobre o que vale o quê numa economia papeleira. A aversão ao risco gera a fuga dos ativos, todos querem se desfazer deles ao mesmo tempo e os bancos não emprestam a ninguém. Entope o sistema circulatório capitalista. Na crise de 1929 o crédito também refluiu mas isso se deu na esteira da desaceleração da atividade econômica, que foi brutal, caiu mais de 25% nos EUA. A recessão então é que diminuiu a demanda por financiamento. Hoje não. A economia não está em recessão – exceto talvez no Japão e engatinha na Europa. Mas é justamente esse paradoxo que mata o sistema: não existe crédito para a atividade econômica em curso. Pára tudo –e de repente: daí o pânico”

“O Brasil tem algumas vantagens importantes em relação a outros emergentes. E o governo Lula deverá saber usá-las. Primeiro, nós não somos exportadores de petróleo e metais – nesse sentido a crise pega a Venezuela e o Chile de frente. Vão ter problemas sérios porque as cotações despencam. Nós vendemos comida e isso deve se manter em bom nível. Segundo: temos, graças a Deus, três fortes bancos estatais, o que dá ao governo instrumentos para intervir fortemente no mercado. Mais ainda, temos pelo menos três grandes empresas públicas de peso, um trunfo que conseguimos salvar do ciclo de privatizações desfechado pelo governo anterior”.

“O que é preciso, portanto, é agir com rapidez e contundência. Desentupir o sistema de crédito. Por exemplo? O Banco Central deve obrigar os bancos a repassarem de fato os recursos liberados do compulsório para irrigar a economia (NR: uma das medidas já tomadas foi a redução do percentual de recolhimento de depósitos à vista no BC) . Eles têm que emprestar a quem precisa. O governo fez a sua parte, deu a cenoura para os grandes bancos repassarem liquidez. Se eles insistirem em segurar recursos o governo deve impor uma penalização forte sobre o volume retido. Já demos a cenoura - se a mula empaca é hora do stick (o porrete)”.







 

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COMENTÁRIOS (45 Comentários)
       
Opinião Comentário Autor Data
Feliz o país que tem uma mu... Jose Humberto Alve... 31/12/2008
O pouco tempo de vida leva-... alfio 21/12/2008
Enquanto não se criar leis ... cidadao brasileiro 21/12/2008
Para os bancos liberar o cr... cidadao brasileiro 21/12/2008
Sr. Zenóbio: Quando o Sr. a... claudio martins ol... 23/11/2008
O governo intervem no merca... zenobio santos de ... 17/11/2008
Caro Fábio: Agradeço a sua ... claudio martins ol... 04/11/2008
Claudio Martins, apesar da ... Fábio 03/11/2008
Isento de preferências part... claudio martins ol... 30/10/2008
Grande comentário da nossa ... Regina Telhado 30/10/2008
Pietro Guerriero comete um ... Fábio 29/10/2008
Carta Maior deveria ter ent... Pietro Guerriero 27/10/2008
Excelente agora começo a en... Raymundo Júnior 17/10/2008
Excelente comentário e opi... Carlos Eduardo Cos... 17/10/2008
Linguagem simples. Explicaç... Haertel 16/10/2008
A Conceição sempre lúcida e... Márcio Barcelos 16/10/2008
Escrevo para dizer obrigada... maria backes 15/10/2008
Perigo a Vista: O grande me... Paulo Couto Teixei... 13/10/2008
Com todo respeito que tenho... claudio martins ol... 12/10/2008
É de se lamentar comentário... claudio martins ol... 12/10/2008
Excelente Artiga feito só u... Rogério Lima 12/10/2008
É LAMENTÁVEL ... >> O MUNDO... ANTÔNIO ALBERTO (P... 12/10/2008
copiando vantuk: Eu amo ... Arthur Schieck 11/10/2008
Poderia começar a distribui... Gilberto Martins 11/10/2008
Ai Maria da Conceição Tavar... cleydia 11/10/2008
Ricardo Pereira: Uma coisa ... claudio martins ol... 10/10/2008
Claudio Martins, capitalis... Ricardo Pereira 10/10/2008
A professora Maria da Conce... Adilson Mello 10/10/2008
- CLAUDIO, CHURCHIL ESQUECE... Carpenedo 10/10/2008
... Oba! Entupiu o sistema ... Araújo 09/10/2008
Aos contrários ao capitalis... claudio martins ol... 09/10/2008
Gostaria de aproveitar a de... Leomar 09/10/2008
Como sempre a mestre tem ra... eder fonseca 09/10/2008
A euforia tomou conta das e... Marcelo de Matos 09/10/2008
Ilmo. Sr. JORGE N. REBOLLA ... ANTÔNIO ALBERTO (P... 09/10/2008
Obrigada, Carta Maior, só v... Luiza 09/10/2008
Há muito tempo não coloco o... Jorge Nogueira Reb... 09/10/2008
clara e precisa. "Conceição... Henrique 08/10/2008
Se não me engano, esta econ... Enio Lima 08/10/2008
LUCRO , ROUBO OFICIALIZADO.... ANTÔNIO ALBERTO (P... 08/10/2008
Já que nestas eleições o FH... jose carlos lima 08/10/2008
Que bom que ainda vive a do... Jose Porfiro 08/10/2008
Sempre precisa. Gostaria de... Fernando 08/10/2008
eu amo essa mulher... vantuk 08/10/2008
Agir com rapidez e contuden... Francisco Antonio ... 08/10/2008
 
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