Internacional| 03/11/2008 | Copyleft

BENJAMIN BARBER

O dano causado por décadas de erosão da confiança e da democracia

O famoso teórico norte-americano da democracia republicana radical, Benjamin Barber, argumenta neste artigo que as raízes da turbulência financeira também se encontram no déficit democrático. Restabelecer a confiança cívica é crucial para que a economia funcione numa sociedade democrática.

Os remédios econômicos da crise fiscal seguem frustrando a quem os respalda politicamente. Na segunda-feira fatídica em que o Congresso se negou a aprovar o plano de resgate de 700 bilhões de dólares, o mercado caiu 477 pontos. Alguns dias depois, quando o Congresso recuou e aprovou o plano de resgate dos 700 bilhões, o mercado caiu quase 800 pontos. Desde então tem dado voltas com fúria, levando os mercados da Grã Bretanha, Europa continental e Ásia à beira do abismo. O que acontece, uma crise do capital econômico ou de confiança fiscal?

Nem uma coisa nem outra, exatamente. Como a histeria global deixa claro, está em jogo a confiança, mas não a confiança puramente fiscal ou econômica. Desalavancar os bancos, assegurar os depósitos, penalizar executivos e socializar o risco não basta para o que faz falta, porque a confiança é, em última instância e mais concretamente, democrática.

A confiança é uma forma crucial de capital social, é um reconhecimento do terreno comum em que nos movemos como cidadãos. É o cimento que mantém unidos os produtores e os consumidores rivais e lhes permite fazer negócios que, do contrário, lhes destruiria, ao passo que toda a ênfase do mercado reside na competência, no egoísmo e no narcisismo como instrumentos de cálculo.

Contudo, o segredo obscuro é que o capitalismo de mercado só funciona quando pode se nutrir de maneira parasitária do capital social democrático ativo. Quando muitas hipotecas não são pagas e os bancos são pressionados e se vende muito papel de má qualidade e muitos hedge funds não se dão conta do que têm comprado e o crédito se congela e os valores cambaleiam, aparece o déficit de confiança. E nenhuma dose de ajuste fiscal, estímulo governamental, reforma bancária, desalavancagem resoluta ou retórica presidencial ou ministerial podem sanar esse déficit democrático.

Porque o segredo da mão invisível não é o capital econômico, mas o social. Adam Smith sabia que os sentimentos morais não são menos importantes para assegurar a riqueza das nações que os mercados de capital. A crise de liquidez é uma crise política; o déficit creditício é um déficit democrático. Porque a confiança é o capital social que permite a transação do capital privado, que se respeitem os contratos, que se mantenham as promessas, que se cumpram as expectativas. A democracia é o oceano comum no qual todos esses barcos se mantêm flutuando com a competência do mercado e de seus marinheiros fiscais briguões.

Assim, ainda que os empréstimos sejam ruins, e os banqueiros avaros, e que os gestores dos hedge funds sejam estúpidos, e os investidores ignorantes, são quatro décadas de desdemocratização o porquê deste desastre. Uma hemorragia de capital social de que ninguém se dava conta porque supunha que o governo era o problema e os mercados, a solução. O thatcherismo desbocado e o reaganismo exuberante lançaram suas invenctivas contra o governo até que os cidadãos fossem literalmente dissuadidos a respeito da democracia.

O governo era presumivelmente malvado, só que o governo não era mais que uma ferramenta da democracia, não muito eficiente e amiúde insuficientemente responsável, mas ferramenta da democracia, contudo. E o verdadeiro produto da democracia era a confiança. À medida que a guerra contra o governo se converteu em guerra contra a democracia, foi secando o poço de capital social e se erodindo a confiança, provocando a perda de fé dos cidadãos nos demais e em seu poder de governarem a si mesmos.

Por que os consumidores teriam, agora, de confiar nos bancos? Ou os banqueiros confiarem uns nos outros? Ou os investidores confiarem no mercado de valores? Ou fiar-se absolutamente em qualquer que seja o presidente dos EUA ou o Secretário do Tesouro ou membros do parlamento ou do Congresso, que não confiam na sua própria direção?

A confiança é ao mesmo tempo preciosa e precária, fundacional, mas frágil. Não há alavancagem sem confiança. Não há mercado de habitação sem fé. Não há mercado de valores sem fidelidade. Não há comércio internacional sem fiabilidade. Todas essas coisas são produtos do capital social, todos vítimas do “nexo do dinheiro” que Marx associava à essência do capitalismo. Porque o capitalismo tem suas raízes no egoísmo e no interesse próprio e se consagra necessariamente ao bem estar dos acionistas e não aos bens comuns; e assim é incapaz de gerar a confiança de que depende. A saída da crise exige algo mais que sustentar bancos e bombear bilhões para o mercado creditício congelado. Significa que os consumidores também devem ser cidadãos se vão respeitar contratos, promessas e hipotecas.

A lição? O remédio hoje em dia não está simplesmente em desalavancar, mas em redemocratizar. Em seguida, recriar o capital social e a confiança. Então, e só então, os mercados acalmarão e as entidades de crédito voltarão a emprestar, os investidores investirão mais uma vez, os consumidores voltarão a adquirir casas e – com a economia privada uma vez mais subordinada ao bem público – a prosperidade será de novo possível, disciplinada pela confiança cívica e pela justiça democrática.

Benjamin Barber é escritor, autor de Strong Democracy (1984), Jihad vs McWorld (1985 - com uma edição pós 11/9, traduzido em 20 línguas) e Consumed: How Markets Corrupt Children, Infantilize Adults and Swallow Citizes Whole (2007). É presidente e diretor da Ong CivWorld (www.civworld.org). Site: www.benjaminbarber.com

Publicado em Sin Permiso, 2 de novembro de 2008.

Tradução: Katarina Peixoto



 

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COMENTÁRIOS (5 Comentários)
       
Opinião Comentário Autor Data
"A prosperidade será de nov... Edison Netto Lasma... 04/11/2008
Faço uma correção em meu te... antonio de pádua s... 04/11/2008
Bom esse argumento! Somado ... antonio de pádua s... 04/11/2008
Obrigada, Marroni. Já está ... Katarina Peixoto 03/11/2008
A palavra 'erosionando' não... Marroni 03/11/2008
 
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31/08/2010

Uma análise do poder midiático na Argentina : O discurso que Cristina Fernández de Kirchner fez em 24 de agosto foi mais além do que tinham ido todos os discursos dos presidentes argentinos até hoje. Ninguém – nem sequer o primeiro Perón ou Evita – fizeram tal desconstrução da estrutura do poder na Argentina. De quê ela estava falando? Do poder nas sombras, do poder detrás do trono, do verdadeiro poder. Qual é? É o poder midiático. A direita não tem pensadores, tem jornalistas audazes, agressivos. E a mentira ou a deformação pura e plena de toda notícia é sua metodologia. O artigo é de José Pablo Feinmann.

Os EUA, o Chá e o 11/09: modernidade e regressão : Embora o Partido do Chá não constitua um partido oficial, represente a maioria ou detenha uma face única, sua mobilização social atrai segmentos diversos. A sua atração reside na externalização de problemas ao outro, o governo, as instituições públicas ou o diferente, sintetizado em um discurso composto pelos “antis” e pelos “prós”: anti-Estado, anti-impostos, anti-minorias, anti-direitos civis e sociais, pró-armas, pró-vida, pró-religião. O espírito é conservador, o que gera posições paradoxais: critica-se a reforma da saúde e do sistema financeiro como intrusivas, mas, ao mesmo tempo silencia-se ou apóia-se o Ato Patriota que, mais do que estes ajustes, é contrário às liberdades individuais. O artigo é de Cristina Soreanu Pecequilo.

Un análisis del poder : El discurso que la presidenta CFK ofreció el 24 de agosto fue más allá de lo que han ido todos los discursos de los presidentes argentinos hasta la fecha. Nadie –ni siquiera el primer Perón o Evita– procedieron a una destotalización de la estructura del poder en la Argentina. Analíticamente, destotalizó, en primer término, la totalidad y luego la armó otra vez para exhibir su funcionamiento. ¿De qué estaba hablando la Presidenta? Del poder en las sombras, del poder detrás del trono, del verdadero poder. ¿Cuál es? Es el poder mediático.

30/08/2010

"Hay que persuadir a Obama de que evite la guera nuclear" : Durante alrededor de cinco horas que duró la charla-entrevista –incluido el almuerzo– con La Jornada, Fidel aborda los más diversos temas, aunque se obsesione con algunos en particular. Permite que se le pregunte de todo –aunque el que más interrogue sea él– y repasa por primera vez y con dolorosa franqueza algunos momentos de la crisis de salud que sufrió los pasados cuatro años. "No quiero estar ausente en estos días. El mundo está en la fase más interesante y peligrosa de su existencia y yo estoy bastante comprometido con lo que vaya a pasar. Tengo cosas que hacer todavía".

"Não tenho dúvida de que ocorrerão grandes mudanças no México" : Na segunda parte da entrevista à jornalista Carmem Lira Saade, do La Jornada, Fidel Castro comenta suas recentes declarações a respeito de uma fraude que teria ocorrido nas últimas eleições presidenciais mexicanas prejudicando o candidato Andrés Manuel López Obrador.

Fidel Castro: “Cheguei a estar morto, mas ressuscitei” : Em entrevista exclusiva ao jornal La Jornada (a primeira concedida a um veículo impresso desde que uma diverticulite obrigou seu afastamento da liderança do governo cubano), Fidel Castro fala sobre o que aconteceu, diz que esteve à beira da morte, mas ressuscitou. E fala de seus planos para o futuro: "Não quero estar ausente nestes dias. O mundo está na fase mais interessante e perigosa de sua existência e eu estou bastante comprometido com o que está acontecendo. Ainda tenho muitas coisas para fazer".

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