Internacional| 11/11/2008 | Copyleft

A liderança moral reencontrada

Os EUA elegeram um presidente que reúne o resto do planeta, e por isso mesmo possui legitimidade renovada para retomar o diálogo com ele. Um presidente que pode, de modo inédito, guiar e inspirar. Porque, depois do pesadelo sob George W. Bush, ele encarna a América que estava ausente para o resto do mundo: a do sonho americano. Que país europeu elegeria um presidente negro?

Num certo sentido, é muito bonito. Pode-se quase perguntar se a eleição de Barack Obama para a presidência dos EUA não é obra de algum conselheiro genial de comunicação que tivesse chegado ao topo da América para restaurar sua imagem aos olhos do mundo.

Vamos então sonhar: depois de oito anos de presidência Bush, uma perda de credibilidade política e moral sem precedentes (salvo talvez a guerra do Vietnã, mas então havia a URSS), depois de Guantánamo, depois da tortura, depois do Iraque, depois da rejeição ativa a todo esforço voltado para solução do problema do aquecimento global, como se a América não partilhasse exatamente a condição comum aos homens sobre este planeta, eis que, numa só eleição, o país muda a ordem do dia e recupera sua liderança moral.

Porque ela muda a ordem do dia: não é na política externa que Barack Obama reivindica a marca dos Estados Unidos. Certamente ele mudará o rumo, mas não pode apagar oito anos de erros políticos de uma administração arrogante, nem revolucionar o curso diplomático. É por isso que é por aquilo que ela é, e não pelo que faz, que a América recupera sua posição de modelo, de líder – e de uma grande cabeça – dentre as democracias liberais -, no que concerne à questão da diversidade, da inclusão das minorias no tecido da nação.

Ora, como estamos na globalização, o tempo no qual vivemos é o da identidade. Não se anotou suficientemente que essa campanha norte-americana de 2008 tinha, assim como a campanha presidencial francesa de 2007, girado em torno da identidade nacional, mesmo que sob um modo mais implícito. O que é um francês de verdade? O que é um americano autêntico?

Se os ataques da campanha de John McCain contra Obama restaram, no conjunto, com alguma dignidade, toda a retórica dos republicanos sobre “a América real”, “a verdadeira América”, jogaram o papel de reflexos da exclusão sob o modo “ele não se assemelha a nós”. Na França, em 2007, a “crispação hexagonal” (Vincent Tiberj) (1) em torno da identidade e da imigração tinha contribuído para o resultado final, mais que as velhas clivagens sobre a questão econômica. A mesma coisa se passou na Itália, no ano seguinte.

A América, onde a questão racial (um século de escravidão, um século de segregação) é a ferida que mais sangra, acabou de eleger, contudo, um presidente negro. Quem, no mundo, pode dizer o mesmo? Os grandes responsáveis não foram os oriundos das minorias nomeados pelo príncipe, seja ele chamado Bill Clinton, George W. Bush ou Nicolas Sarkozy; esse é um bom começo.

Sonho Americano
Mas, para mostrar que os ideais da República não são abstratos, o valor do sufrágio do povo é suficiente. E, da Assembléia Nacional às prefeituras, a paisagem política francesa, depois de anos de agitação em torno da diversidade, ficou monocolor. Nesse aspecto, o entusiasmo dos europeus por Obama é ambíguo, à medida que os politólogos oriundos das minorias ainda são raros neste continente: “Obama, sim; Mamadou, não”, como o resume Vincent Geisser. (2)

No entretempo de uma redenção de seu passado racista, a América obtém um novo crédito, que não se limita a uma boa operação de comunicação. Ao longo do século XX, modelo interior e liderança externa agiram um sobre o outro. A guerra contra o nazismo acelerou a des-segregação e a luta pelos direitos civis (como condenar em Berlim o que se pratica em Atlanta?); a lei que abre as portas da imigração em 1965 se explica em parte pela guerra fria (o pais líder das nações livres deve dar o exemplo e permanecer aberto).

Com esta eleição de 2008, a América demonstra que possui um “savoir-faire” para conciliar a unidade e a diversidade, um modelo democrático viável de coexistência de grupos étnicos diversos. Sobretudo, elege um presidente que reúne o resto do planeta, e por isso mesmo possui legitimidade renovada para retomar o diálogo com ele. Um presidente que pode, de modo inédito, guiar e inspirar. Porque, depois do pesadelo sob George W. Bush, ele encarna a América que estava ausente para o resto do mundo: a do sonho americano.

(1) A “Crispação Hexagonal” - La Crispation Hexagonale - é o nome de um livro que se propõe a analisar, para além dos aspectos estritamente eleitorais, o estado das coisas na França atualmente, após o pleito de 2007, que conduziu Nicolas Sarcozy à presidência do país. O Autor, Vincent Tiberj, que é pesquisador no Centre de recherches politiques de Sciences Po e ensina no Institute d'étude politiques de Paris, defende a tese de que a questão da imigração subiu para o primeiro plano na disputa eleitoral na França, ao ponto de jogar um papel estruturante no que se decidiu. O autor analisa o que chamou de declíno do suposto consenso multicultural da França, a que chama de França “aberta”, em contraste com o ascenso de uma “França fechada”. Assim, a eleição de Sarkozy teria como causa o uso estratégico da percepção que o eleitorado francês passou a ter da imigração. (N.deT.)

(2) Vincent Geisser é um sociólogo e cientista político francês que também é comentarista em programas de televisão, de onde essa expressão foi retirada e cuja crônica pode ser assistida neste link:http://www.dailymotion.com/relevance/search/geisser/video/x74j46_obama-oui-mamadou-non-une-schizophr_news . É pesquisador no Institut de recherches et d'études sur le monde arabe et musulman (IREMAM/CNRS), professor no Institut d'étude politiques d' Aix-en-Provence e autor de vários ensaios. Trata a islamofobia como uma forma de racismo que promove a intolerância e a violência contra os muçulmanos e que reforça as raízes coloniais sobre os setores fragilizados da sociedade. No programa – linkado nesta nota – a que se refere Justin Vaïsse, Geisser critica, na sua crônica política televisionada, o que chama de hipocrisia da “obamania” francesa, à medida que a França, segundo ele, estaria muito longe de eleger um presidente negro. (N.deT.)


Justin Vaïsse é historiador especialista na história norte-americana e é pesquisador na Brookings Institution, em Washington. É membro do Observatório sobre os Estados Unidos da Chaire Raoul-Dandurand em estudos estratégicos e diplomáticos. É autor de “On s'est retrouvés là...” Pierre et Hélène de Chevigny: Souvenirs de guerre souvernirs de paix” (Éditions Privées, 2004); Washington et le monde: dilemmes d'une superpuissance, com Pierre Hassner (2003); La Politique Étrangere des Étas-Unis: fondements, acteurs, formulation, com Charles-Philippe David e Louis Balthazar (Presses de Scienses, 2003).

Artigo publicado originalmente no jornal Le Monde em 7 de novembro de 2008.

Tradução: Katarina Peixoto



 

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COMENTÁRIOS (5 Comentários)
       
Opinião Comentário Autor Data
Os EUA , que o autor chama ... Ronaldo maciel 13/11/2008
Além de "bobinho" ou ingênu... Luiz Augusto M. Fo... 12/11/2008
O velho racismo da Europa é... Hélio Rodrigues 12/11/2008
ingênuo jâo 12/11/2008
Gostei muito do artigo, poi... César S. 12/11/2008
 
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31/08/2010

Uma análise do poder midiático na Argentina : O discurso que Cristina Fernández de Kirchner fez em 24 de agosto foi mais além do que tinham ido todos os discursos dos presidentes argentinos até hoje. Ninguém – nem sequer o primeiro Perón ou Evita – fizeram tal desconstrução da estrutura do poder na Argentina. De quê ela estava falando? Do poder nas sombras, do poder detrás do trono, do verdadeiro poder. Qual é? É o poder midiático. A direita não tem pensadores, tem jornalistas audazes, agressivos. E a mentira ou a deformação pura e plena de toda notícia é sua metodologia. O artigo é de José Pablo Feinmann.

Os EUA, o Chá e o 11/09: modernidade e regressão : Embora o Partido do Chá não constitua um partido oficial, represente a maioria ou detenha uma face única, sua mobilização social atrai segmentos diversos. A sua atração reside na externalização de problemas ao outro, o governo, as instituições públicas ou o diferente, sintetizado em um discurso composto pelos “antis” e pelos “prós”: anti-Estado, anti-impostos, anti-minorias, anti-direitos civis e sociais, pró-armas, pró-vida, pró-religião. O espírito é conservador, o que gera posições paradoxais: critica-se a reforma da saúde e do sistema financeiro como intrusivas, mas, ao mesmo tempo silencia-se ou apóia-se o Ato Patriota que, mais do que estes ajustes, é contrário às liberdades individuais. O artigo é de Cristina Soreanu Pecequilo.

Un análisis del poder : El discurso que la presidenta CFK ofreció el 24 de agosto fue más allá de lo que han ido todos los discursos de los presidentes argentinos hasta la fecha. Nadie –ni siquiera el primer Perón o Evita– procedieron a una destotalización de la estructura del poder en la Argentina. Analíticamente, destotalizó, en primer término, la totalidad y luego la armó otra vez para exhibir su funcionamiento. ¿De qué estaba hablando la Presidenta? Del poder en las sombras, del poder detrás del trono, del verdadero poder. ¿Cuál es? Es el poder mediático.

30/08/2010

"Hay que persuadir a Obama de que evite la guera nuclear" : Durante alrededor de cinco horas que duró la charla-entrevista –incluido el almuerzo– con La Jornada, Fidel aborda los más diversos temas, aunque se obsesione con algunos en particular. Permite que se le pregunte de todo –aunque el que más interrogue sea él– y repasa por primera vez y con dolorosa franqueza algunos momentos de la crisis de salud que sufrió los pasados cuatro años. "No quiero estar ausente en estos días. El mundo está en la fase más interesante y peligrosa de su existencia y yo estoy bastante comprometido con lo que vaya a pasar. Tengo cosas que hacer todavía".

"Não tenho dúvida de que ocorrerão grandes mudanças no México" : Na segunda parte da entrevista à jornalista Carmem Lira Saade, do La Jornada, Fidel Castro comenta suas recentes declarações a respeito de uma fraude que teria ocorrido nas últimas eleições presidenciais mexicanas prejudicando o candidato Andrés Manuel López Obrador.

Fidel Castro: “Cheguei a estar morto, mas ressuscitei” : Em entrevista exclusiva ao jornal La Jornada (a primeira concedida a um veículo impresso desde que uma diverticulite obrigou seu afastamento da liderança do governo cubano), Fidel Castro fala sobre o que aconteceu, diz que esteve à beira da morte, mas ressuscitou. E fala de seus planos para o futuro: "Não quero estar ausente nestes dias. O mundo está na fase mais interessante e perigosa de sua existência e eu estou bastante comprometido com o que está acontecendo. Ainda tenho muitas coisas para fazer".

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