
Sangue em nossas mãos
As pessoas que jogam nossas bombas não ficam manchadas com sangue. Nosso sistema é simples: não há necessidade de evidência para um julgamento. Uma vez decidamos que alguém é alvo, jogamos uma bomba e ele se foi. Recentemente, o exército adquiriu permissão para matar civis que estejam próximos de um alvo. Isso foi publicado na imprensa, junto à foto de uma sorridente comandante do exército. O artigo é de Shulamit Aloni, ex-ministra da Educação de Israel.
Shulamit Aloni*
Os homens do Hamas e seus líderes pertencem ao lado do mal, e seu ódio por nós faz com que eles afastem para longe as inibições racionais de uma liderança consternada com o bem-estar de seus cidadãos. De fato, a conduta do Hamas desde o seu surgimento e de sua eleição vitoriosa subsequente não merece qualquer elogio. Contudo, os residentes da Faixa de Gaza cativos da liderança do Hamas – mulheres, idosos, crianças, estudantes, professores, hospitais, médicos e pacientes – não têm de ser punidos com destruição, morte e privações por causa dos atos desprezíveis de seus líderes.
É questionável se o método de punição adotado pelo Estado de Israel já há alguns anos, alvejando áreas populosas, jogando bombas de uma tonelada em bairros civis, e usando bombas de fragmentação tem algum efeito ou sabedoria.
O Ministro da Defesa declarou que o tempo de guerra chegou, com vistas a pôr um fim no tormento dos foguetes assassinos lançados por Gaza em nossas comunidades. Bem, o exército israelense embarcou na guerra com muito mais força, conhecimento e planejamento para disseminar medo e horror nos líderes e civis de Gaza. E para ele isso deu certo! Com isso o ministro da defesa já ganhou cinco assentos no Knesset, nas pesquisas eleitorais. O ministro da Defesa está feliz e o povo – orgulhoso de seu glorioso exército – já está recorrendo à paixão exagerada e declarando apoio à eleição do herói e de seu partido.
Já abandonaram Gilad Shalit (soldado israelense em poder do Hamas desde 2006)? Por que não aguardam sua libertação antes de embarcarem nessa operação militar? O Hamas exigiu a libertação de prisioneiros, e nós argumentamos que muitos deles têm sangue em suas mãos; nós somos muito mais capazes do que eles, mesmo que essa capacidade chegue a matar e leve a assassinatos. Nas primeiras 24 horas da operação matamos mais de 300 pessoas, inclusive duas meninas inocentes, para não mencionar as vítimas que matamos entre essa operação e outras anteriores.
Por que nosso tão bem organizado exército, com sua excelente capacidade de inteligência, recusou a libertação de prisioneiros palestinos, quando poderíamos mandá-los de volta para casa e mais tarde assassiná-los no calor da batalha? Afinal de contas, já estamos sendo usados para assassinatos por ar, mar, em abrigos ou em bairros populosos. Assassinato – isto é, matar e assassinar.
Além do mais, as pessoas que jogam nossas bombas não ficam manchadas com sangue. Nosso sistema é simples: não há necessidade de evidência para um julgamento. Uma vez decidamos que alguém é alvo, jogamos uma bomba e ele se foi. Recentemente, o exército adquiriu permissão para matar civis que estejam próximos de alguém escolhido como alvo; isso foi publicado na imprensa há umas duas semanas, próximo à foto de uma sorridente comandante do exército.
Não há dúvida de que se o ministro da Defesa tivesse antes assegurado a libertação de nosso soldado cativo ele teria ganhado mais do que cinco assentos no Knesset. Talvez ele viesse a ser coroado como o rei de Israel.
A capacidade do povo de ser levado por uma onda de zelo patriótico por causa da operação do exército isralense é espantosa. Eu lembro como, tendo embarcado na segunda guerra do Líbano em 2006, muitos dos meus sãos e esclarecidos amigos gritaram com alegria: “Finalmente, uma guerra justa”. Eu creio que todos nós lembramos como isso terminou.
Então, por que nós, durante o período de calmaria, não nos engajamos num diálogo direto ou indireto, a fim de estender a trégua ou de assegurar um acordo melhor?
*Shulamit Aloni é uma militante da esquerda isralense, fundadora do Ratz (Movimento pelos Direitos dos Cidadãos), foi líder do partido Meretz e ministra da Educação do Governo Itzhak Rabin, entre 1992-1993. Defensora da separação entre estado e religião, foi forçada a renunciar ao cargo, mas readmitida como Ministra das Comunicações e da Ciência e Cultura onde serviu até 1996, quando se retirou das atividades político-partidárias. É fundadora do Movimento Paz Agora.
Publicado originalmente em Israel News, em 5 de janeiro de 2009
Tradução: Katarina Peixoto
| COMENTÁRIOS (2 Comentários) | |||
| Opinião | Comentário | Autor | Data |
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Apesar do maniqueísmo dessa... | Carlos Henrique Si... | 06/01/2009 |
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ate uma ex-ministra do rabi... | altamiro | 06/01/2009 |
31/08/2010
• Uma análise do poder midiático na Argentina :
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