Internacional| 06/01/2009 | Copyleft

"Quantos mortos ainda para vocês se sentirem cidadãos de Gaza?"

Quem é mais anti-semita, aqueles que viciaram Israel ano após ano durante sessenta anos, até desfigurá-lo ao ponto de fazê-lo o país mais perigoso do mundo para os judeus ou aqueles que os advertem de que o Muro marca um gueto de dois lados? É anti-semita reler Hannah Arendt hoje, em que nós, os palestinos, somos a escória da terra, é anti-semita voltar a iluminar essas páginas sobre o poder e a violência? O artigo é de Mustapha Barghouthi, secretário-geral da Iniciativa Nacional Palestina.

Ramallah, 27 de dezembro de 2008

E lerei amanhã, nos seus jornais, que acabou a trégua em Gaza. Não é portanto um bloqueio, mas uma forma de paz, esse campo de concentração devastado pela fome e pela sede. E de que depende a diferença entre a paz e a guerra? Da contabilidade dos mortos? E as crianças corroídas pela subnutrição, como as contabilizamos?

Morre de guerra ou de paz aquele que se vai porque falta eletricidade no bloco cirúrgico? Diz-se paz quando não há mísseis – mas como se diz quando falta todo o resto?

E eu lerei nos seus jornais, amanhã, que tudo isso não é senão um ataque preventivo, que é somente um direito legítimo, inviolável, de autodefesa. A quarta potência militar do mundo, seus músculos nucleares contra os mísseis de ferro fundido, de papel machê e de desespero. E naturalmente vão me precisar que não se trata de um ataque contra civis – e aliás como poderia sê-lo, se os três homens que conversam sobre a Palestina, aqui, no meio da rua, são para as leis isralenses um núcleo de resistência e portanto um grupo ilegal, uma força combatente? - se nos documentos oficiais somos marcados como uma entidade inimiga e sem o mínimo freio ético, o câncer de Israel?

Se o objetivo é erradicar o Hamas, tudo isso reforça o Hamas.

Vocês chegam em aviões de caça para exportar a retórica da democracia, a bordo de aviões de caça, em seguida, chegam a estrangular a democracia –mas qual é a outra opção que resta? Não a deixe explodir sobre você com frequência. Não é o fundamentalismo que se bombardeia neste momento, mas tudo o que se lhe opõe. Tudo o que não restitui gratuitamente a essa ferocidade indiscriminada uma raiva igual e contrária, mas uma palavra nua de diálogo, a lucidez de raciocinar, a coragem de desertar. Isso não é um ataque contra o terrorismo, mas contra a outra Palestina, terceira e diferente, à medida que se esquiva dos mísseis, acuada entre a cumplicidade do Fatah e a miopia do Hamas.

Estava se assassinando pela autodefesa, eu deveria assassiná-lo em autodefesa – um dia os sobreviventes assim contarão o que está se passando.

E amanhã lerei nos jornais de vocês que todo processo de paz é impossível, os israelenses, vejam só, não têm sequer uma pessoa com quem conversar. E, com efeito – como poderiam tê-lo, entrincheirados por trás de um Muro de betão de oito metros? E, sobretudo, por que deveria tê-lo, se o Mapa do Caminho não é outra coisa que uma arma inimiga de distração em massa para a opinião pública internacional? Quatro páginas onde se exige, por exemplo, que cessem os ataques terroristas e onde se diz que, em troca, Israel não vai empreender qualquer ação que possa minar a confiança entre as duas partes como – textualmente – os ataques contra civis. Assassinar civis não mina a confiança, mas o direito; é um crime de guerra, não se trata de uma questão de cortesia. E se Anápolis é um processo de paz, tanto como esperamos, aqui, a única carta que avança são as terras confiscadas, as oliveiras arrancadas, as casas demolidas, as colônias ampliadas – por que, então, a proposição saudita não é um processo de paz? O fim da ocupação em troca do reconhecimento por parte de todos os Estados árabes. Poderíamos ter ao menos um sinal de reação? Alguém aí, do outro lado do Muro, por acaso escuta?

Mas cá estou a lhes falar do vento. Porque amanhã só lerei uma linha nos seus jornais e somente amanhã, em seguida não lerei outra coisa, ainda, que a indiferença. E é apenas isso o que sinto, enquanto os F16 sobrevoam minha solidão em direção de centenas de danos colaterais dos quais conheço cada nome, cada vida – somente um vestígio do abandono e do erro infinitos. Europeus, americanos e também árabes – porque se alcançou a soberania egípcia, na passagem de Rafah, a moral egípcia tem o selo de Rafah? -, nós simplesmente estamos sós. Vocês desfilam, aqui, uma delegação após outra – e, falando, diria Garcia Lorca, as palavras restam no ar, como bóias na água. Vocês oferecem ajuda humanitária mas nós não somos mendigos, queremos dignidade, liberdade, fronteiras abertas; não pedimos favores, nós reivindicamos direitos. E, ao contrário, vocês chegam, indignados e desejosos de participar e perguntam o que podem fazer por nós. Uma escola? Uma clínica, talvez? Bolsas de estudo? E tentamos a cada vez convencê-los – não, não a generosa solidariedade, ensinava Bobbio, somente a justiça severa – das sanções, das sanções contra Israel. Mas vocês respondem – neutros em cada vez e portanto partilhando do desequilíbrio, partidários dos vencedores – não, isso seria anti-semita. Mas quem é mais anti-semita, aqueles que viciaram Israel ano após ano durante sessenta anos, até desfigurá-lo ao ponto de fazê-lo o país mais perigoso do mundo para os judeus ou aqueles que os advertem de que o Muro marca um gueto de dois lados?

É talvez anti-semita reler Hannah Arendt hoje, em que nós, os palestinos, somos sua escória da terra, é anti-semita voltar a iluminar essas páginas sobre o poder e a violência, sobre a a última raça submetida ao colonialismo britânico, que teria sido, enfim, os próprios ingleses? Não, isso não é anti-semitismo, mas o exato contrário, defender os numerosos israelenses que tentam escapar de uma nakbah chamada sionismo. Porque não se trata de um ataque contra o terrorismo, mas contra o outro Israel, terceiro e diferente, à medida que se esquiva do pensamento único cerrado entre a cumplicidade da esquerda e a miopia da direita.

Eu sei o que lerei amanhã, nos seus jornais. Mas não autodefesa, não a exigência de segurança. Tudo isso não se chama outra coisa que Apartheid – e genocídio. Porque pouco importa se os políticos israelenses, tecnicamente, aderem ou não aos milímetros das definições delicadamente lavradas pelo direito internacional, seu formalismo aristocrático, sua pretensa objetividade não são senão inimigos colaterais, aqui, que auxiliam e multiplicam a força dos vencedores. A essência desses aviões é a sua neutralidade, é o seu silêncio, são as explosões.

Alguém se sinta berlinense, diante de um outro Muro. Quantos mortos restam, ainda, para vocês se sentirem cidadãos de Gaza?

Mustapha Barghouthi é médico, deputado no Conselho Legislativo Palestino e secretário geral da Iniciativa Nacional Palestina, um partido e movimento social engajado na assistência social laica e numa agenda política laicizante, bem como na defesa da independência e na democracia nos territórios palestinos ocupados. Foi candidato à presidência da Autoridade Palestina, em 2005, obtendo 19,7% dos votos. Amigo de Edward Said, que defendia a formação de um estado laico, democrático e binacional, Barghouthi advoga, contudo, a solução de dois estados, as fronteiras isralenses da linha verde, datadas de 1967, e trabalha nas emergências de hospitais na Palestina, militando contra o Muro de anexação da Cisjordânia.

Tradução: Katarina Peixoto



 

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COMENTÁRIOS (10 Comentários)
       
Opinião Comentário Autor Data
Gilberto Martins, Israel, c... Elizabeth Andrade ... 24/01/2009
De certa maneira discordo d... Jair de Souza 14/01/2009
Não consigo entender, polit... Theodomiro Junior 07/01/2009
Destável e abominavel a pol... Elze Cordeiro 07/01/2009
Não é permitido a um povo r... Maria Rita Aderald... 07/01/2009
Bem poucas vezes um relato ... jose fernandes de ... 07/01/2009
A verdade é que as forças a... Euclides Oliveira 06/01/2009
Palavras de uma beleza que ... marcelo da silva d... 06/01/2009
Ataques de homens bombas, a... Gilberto Martins 06/01/2009
Qdo os assassinos covardes ... leonel santos 06/01/2009
 
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31/08/2010

Uma análise do poder midiático na Argentina : O discurso que Cristina Fernández de Kirchner fez em 24 de agosto foi mais além do que tinham ido todos os discursos dos presidentes argentinos até hoje. Ninguém – nem sequer o primeiro Perón ou Evita – fizeram tal desconstrução da estrutura do poder na Argentina. De quê ela estava falando? Do poder nas sombras, do poder detrás do trono, do verdadeiro poder. Qual é? É o poder midiático. A direita não tem pensadores, tem jornalistas audazes, agressivos. E a mentira ou a deformação pura e plena de toda notícia é sua metodologia. O artigo é de José Pablo Feinmann.

Os EUA, o Chá e o 11/09: modernidade e regressão : Embora o Partido do Chá não constitua um partido oficial, represente a maioria ou detenha uma face única, sua mobilização social atrai segmentos diversos. A sua atração reside na externalização de problemas ao outro, o governo, as instituições públicas ou o diferente, sintetizado em um discurso composto pelos “antis” e pelos “prós”: anti-Estado, anti-impostos, anti-minorias, anti-direitos civis e sociais, pró-armas, pró-vida, pró-religião. O espírito é conservador, o que gera posições paradoxais: critica-se a reforma da saúde e do sistema financeiro como intrusivas, mas, ao mesmo tempo silencia-se ou apóia-se o Ato Patriota que, mais do que estes ajustes, é contrário às liberdades individuais. O artigo é de Cristina Soreanu Pecequilo.

Un análisis del poder : El discurso que la presidenta CFK ofreció el 24 de agosto fue más allá de lo que han ido todos los discursos de los presidentes argentinos hasta la fecha. Nadie –ni siquiera el primer Perón o Evita– procedieron a una destotalización de la estructura del poder en la Argentina. Analíticamente, destotalizó, en primer término, la totalidad y luego la armó otra vez para exhibir su funcionamiento. ¿De qué estaba hablando la Presidenta? Del poder en las sombras, del poder detrás del trono, del verdadero poder. ¿Cuál es? Es el poder mediático.

30/08/2010

"Hay que persuadir a Obama de que evite la guera nuclear" : Durante alrededor de cinco horas que duró la charla-entrevista –incluido el almuerzo– con La Jornada, Fidel aborda los más diversos temas, aunque se obsesione con algunos en particular. Permite que se le pregunte de todo –aunque el que más interrogue sea él– y repasa por primera vez y con dolorosa franqueza algunos momentos de la crisis de salud que sufrió los pasados cuatro años. "No quiero estar ausente en estos días. El mundo está en la fase más interesante y peligrosa de su existencia y yo estoy bastante comprometido con lo que vaya a pasar. Tengo cosas que hacer todavía".

"Não tenho dúvida de que ocorrerão grandes mudanças no México" : Na segunda parte da entrevista à jornalista Carmem Lira Saade, do La Jornada, Fidel Castro comenta suas recentes declarações a respeito de uma fraude que teria ocorrido nas últimas eleições presidenciais mexicanas prejudicando o candidato Andrés Manuel López Obrador.

Fidel Castro: “Cheguei a estar morto, mas ressuscitei” : Em entrevista exclusiva ao jornal La Jornada (a primeira concedida a um veículo impresso desde que uma diverticulite obrigou seu afastamento da liderança do governo cubano), Fidel Castro fala sobre o que aconteceu, diz que esteve à beira da morte, mas ressuscitou. E fala de seus planos para o futuro: "Não quero estar ausente nestes dias. O mundo está na fase mais interessante e perigosa de sua existência e eu estou bastante comprometido com o que está acontecendo. Ainda tenho muitas coisas para fazer".

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