Internacional| 12/01/2009 | Copyleft

Réquiem por Israel?

Uma leitura atenta dos textos dos sionistas fundadores do Estado de Israel revela tudo aquilo que o Ocidente hipocritamente ainda hoje finge desconhecer: a criação de Israel é um ato de ocupação e como tal terá de enfrentar para sempre a resistência dos ocupados; não haverá nunca paz, qualquer apaziguamento será sempre aparente, uma armadilha a ser desarmada. O artigo é de Boaventura Sousa Santos.

Está ocorrendo na Palestina o mais recente e brutal massacre do povo palestino cometido pelas forças ocupantes de Israel com a cumplicidade do Ocidente, uma cumplicidade feita de silêncio, hipocrisia e manipulação grotesca da informação, que trivializa o horror e o sofrimento injusto e transforma ocupantes em ocupados, agressores em vítimas, provocação ofensiva em legítima defesa.

As razões próximas, apesar de omitidas pelos meios de comunicação ocidentais, são conhecidas. Em novembro passado a aviação israelense bombardeou a faixa de Gaza em violação das tréguas, o Hamas propôs a renegociação do controle dos acessos à faixa de Gaza, Israel recusou e tudo começou. Esta provocação premeditada teve objetivos de política interna e internacional bem definidos: recuperação eleitoral de uma coligação em risco; exército sedento de vingar a derrota do Líbano; vazio da transição política nos EUA e a necessidade de criar um facto consumado antes da investidura do presidente Obama. Tudo isto é óbvio mas não nos permite entender o ininteligível: o sacrifício de uma população civil inocente mediante a prática de crimes de guerra e de crimes contra a humanidade cometidos com a certeza da impunidade.

É preciso recuar no tempo. Não ao tempo longínquo da bíblia hebraica, o mais violento e sangrento livro alguma vez escrito. Basta recuar sessenta anos, à data da criação do Estado de Israel. Nas condições em que foi criado e depois apoiado pelo Ocidente, o Estado de Israel é o mais recente (certamente não o último) ato colonial da Europa. De um dia para o outro, 750.000 palestinos foram expulsos das suas terras ancestrais e condenados a uma ocupação sangrenta e racista para que a Europa expiasse o crime hediondo do Holocausto contra o povo judeu.

Uma leitura atenta dos textos dos sionistas fundadores do Estado de Israel revela tudo aquilo que o Ocidente hipocritamente ainda hoje finge desconhecer: a criação de Israel é um ato de ocupação e como tal terá de enfrentar para sempre a resistência dos ocupados; não haverá nunca paz, qualquer apaziguamento será sempre aparente, uma armadilha a ser desarmada (daí, que a seguir a cada tratado de paz se tenha de seguir um ato de violação que a desminta); para consolidar a ocupação, o povo judeu tem de se afirmar como um povo superior condenado a viver rodeado de povos racialmente inferiores, mesmo que isso contradiga a evidência de que árabes e judeus são todos povos semitas; com raças inferiores só é possível um relacionamento de tipo colonial, pelo que a solução dos dois Estados é impensável; em vez dela, a solução é a do apartheid, tanto na região, como no interior de Israel (daí, os colonatos e o tratamento dos árabes israelenses como cidadãos de segunda classe); a guerra é infinita e a solução final poderá implicar o extermínio de uma das partes, certamente a mais fraca.

O que se passou nos últimos sessenta anos confirma tudo isto mas vai muito para além disto. Nas duas últimas décadas, Israel procurou, com êxito, sequestrar a política norte-americana na região, servindo-se para isso do lobby judaico, dos neoconservadores e, como sempre, da corrupção dos líderes políticos árabes, reféns do petróleo e da ajuda financeira norte-americana. A guerra do Iraque foi uma antecipação de Gaza: a lógica é a mesma, as operações são as mesmas, a desproporção da violência é a mesma; até as imagens são as mesmas, sendo também de prever que o resultado seja o mesmo. E não se foi mais longe porque Bush, entretanto, se debilitou. Não pediram os israelenses autorização aos EUA para bombardear as instalações nucleares do Irã?

É hoje evidente que o verdadeiro objetivo de Israel, a solução final, é o extermínio do povo palestino. Terão os israelenses a noção de que a shoah com que o seu vice-ministro da defesa ameaçou os palestinianos poderá vir a vitimá-los também? Não temerão que muitos dos que defenderam a criação do Estado de Israel hoje se perguntem se nestas condições - e repito, nestas condições - o Estado de Israel tem direito de existir?



 

>> INSIRA SEU COMENTÁRIO >>

COMENTÁRIOS (46 Comentários)
       
Opinião Comentário Autor Data
Trechos da Bíblia! Segue... Alexandre Giglio 25/08/2009
O holocausto,foi sem duvida... Fernando Diniz 05/05/2009
Fico pasmo com tanto anti-s... Joel 03/05/2009
Estados são baseados na for... Bruno 21/04/2009
Excelente análise, Boaventu... Leila Brito 06/03/2009
Somente quando sairem do Gu... Acauã Rodrigues 27/02/2009
O arranjo familiar de Abrah... marcos cesar gouve... 26/02/2009
Caro Professor, Concordo p... Maria Ivonte Soare... 24/01/2009
Posições corajosas e lúcida... Lauro Ibanhes 21/01/2009
André e Artur, o que lhes i... Arau 21/01/2009
Parabéns! Este artigo coloc... Laércio Nunes 21/01/2009
Israel pode terminar como a... João Aguiar 21/01/2009
Texto profundamente anti-se... Arthur 21/01/2009
Alguns comentarios tenta... graca 19/01/2009
E qual país não é um ato de... marcos cesar gouve... 19/01/2009
Gostaria de tecer um simple... Eduardo Bianchi 18/01/2009
Um artigo extremamente sens... André 18/01/2009
Leiam o artigo "Israel é ca... André 18/01/2009
Caro colega Prof. Boaventur... Chauke Stephan Fil... 17/01/2009
... Será que denunciar os m... Araújo 17/01/2009
Extremamente esclarecedor. ... Maria Jose Acedo d... 17/01/2009
"De vitória em vitória, Isr... Luis Carlos Campos 15/01/2009
Daniel: essa é outra estrat... Janes Rodriguez 15/01/2009
Valéria Campos: seu fanatis... Janes Rodriguez 15/01/2009
E a ONU, inquilina útil do ... ronan wittee 14/01/2009
SEMITAS são também os povos... Ralf Rickli 14/01/2009
Os verdadeiros "sionistas" ... Lucia 14/01/2009
Daniel, chega de se fazer d... Arau 14/01/2009
É com assombro que dia-a-... Dora Freitas 14/01/2009
Nossa, o comentário da senh... Adriano Fernandes 14/01/2009
Prezado Boaventura. Caber... Fani G. Figueira 14/01/2009
Que sutileza....Incrível an... Daniel 13/01/2009
Um texto brilhantemente esc... Evandro Rafael Sar... 13/01/2009
Por muito, muito menos, o g... Paulo José Esteia ... 13/01/2009
Gostaria de saber o que os ... Erival dos Santos ... 13/01/2009
Perfeito. Pedro de Alcântara 13/01/2009
Obrigado Boaventura por diz... Jair de Souza 13/01/2009
Caro Boaventura, É inte... Valéria Campos 13/01/2009
É vergonhosa a posição do g... Ederaldo Batista 13/01/2009
Ola! Voces ja pararam pra ... Aline 13/01/2009
Escrevem muito o que todos ... Paulo Serodio 13/01/2009
A "guerra" é de extermínio,... Eduardo Marinho 13/01/2009
Usurpadores,é o que eles sa... Marcinda 13/01/2009
A solucao dos problemas,ser... Marcinda 13/01/2009
Tens toda razão, professor,... Tulio de Souza Mun... 12/01/2009
Todas as questões levantada... Eugênia 12/01/2009
 
Leia Mais

31/08/2010

Uma análise do poder midiático na Argentina : O discurso que Cristina Fernández de Kirchner fez em 24 de agosto foi mais além do que tinham ido todos os discursos dos presidentes argentinos até hoje. Ninguém – nem sequer o primeiro Perón ou Evita – fizeram tal desconstrução da estrutura do poder na Argentina. De quê ela estava falando? Do poder nas sombras, do poder detrás do trono, do verdadeiro poder. Qual é? É o poder midiático. A direita não tem pensadores, tem jornalistas audazes, agressivos. E a mentira ou a deformação pura e plena de toda notícia é sua metodologia. O artigo é de José Pablo Feinmann.

Os EUA, o Chá e o 11/09: modernidade e regressão : Embora o Partido do Chá não constitua um partido oficial, represente a maioria ou detenha uma face única, sua mobilização social atrai segmentos diversos. A sua atração reside na externalização de problemas ao outro, o governo, as instituições públicas ou o diferente, sintetizado em um discurso composto pelos “antis” e pelos “prós”: anti-Estado, anti-impostos, anti-minorias, anti-direitos civis e sociais, pró-armas, pró-vida, pró-religião. O espírito é conservador, o que gera posições paradoxais: critica-se a reforma da saúde e do sistema financeiro como intrusivas, mas, ao mesmo tempo silencia-se ou apóia-se o Ato Patriota que, mais do que estes ajustes, é contrário às liberdades individuais. O artigo é de Cristina Soreanu Pecequilo.

Un análisis del poder : El discurso que la presidenta CFK ofreció el 24 de agosto fue más allá de lo que han ido todos los discursos de los presidentes argentinos hasta la fecha. Nadie –ni siquiera el primer Perón o Evita– procedieron a una destotalización de la estructura del poder en la Argentina. Analíticamente, destotalizó, en primer término, la totalidad y luego la armó otra vez para exhibir su funcionamiento. ¿De qué estaba hablando la Presidenta? Del poder en las sombras, del poder detrás del trono, del verdadero poder. ¿Cuál es? Es el poder mediático.

30/08/2010

"Hay que persuadir a Obama de que evite la guera nuclear" : Durante alrededor de cinco horas que duró la charla-entrevista –incluido el almuerzo– con La Jornada, Fidel aborda los más diversos temas, aunque se obsesione con algunos en particular. Permite que se le pregunte de todo –aunque el que más interrogue sea él– y repasa por primera vez y con dolorosa franqueza algunos momentos de la crisis de salud que sufrió los pasados cuatro años. "No quiero estar ausente en estos días. El mundo está en la fase más interesante y peligrosa de su existencia y yo estoy bastante comprometido con lo que vaya a pasar. Tengo cosas que hacer todavía".

"Não tenho dúvida de que ocorrerão grandes mudanças no México" : Na segunda parte da entrevista à jornalista Carmem Lira Saade, do La Jornada, Fidel Castro comenta suas recentes declarações a respeito de uma fraude que teria ocorrido nas últimas eleições presidenciais mexicanas prejudicando o candidato Andrés Manuel López Obrador.

Fidel Castro: “Cheguei a estar morto, mas ressuscitei” : Em entrevista exclusiva ao jornal La Jornada (a primeira concedida a um veículo impresso desde que uma diverticulite obrigou seu afastamento da liderança do governo cubano), Fidel Castro fala sobre o que aconteceu, diz que esteve à beira da morte, mas ressuscitou. E fala de seus planos para o futuro: "Não quero estar ausente nestes dias. O mundo está na fase mais interessante e perigosa de sua existência e eu estou bastante comprometido com o que está acontecendo. Ainda tenho muitas coisas para fazer".

Busca:
  Cadastro: somos 64096
.

Boletim Carta Maior
.
.
.

.

.
Destaques
 
Parcerias
.
Principal | TV Carta Maior | Blog do Emir Sader | Colunistas | Análise & Opinião | Arte & Cultura | Direitos Humanos | Economia | Educação | Humor | Internacional | Meio Ambiente | Movimentos Sociais | Política | Radio Carta Maior | Cartas dos Leitores | Expediente | Quem Somos