Internacional| 16/01/2009 | Copyleft

Guerra e Paz: o capitalismo sem espírito

Na pulsão contra-humanista do capitalismo contemporâneo não se reconhece dívida simbólica com o passado de quem o tem. Na impossibilidade de fazer da história do Outro um bem comum compartilhado, opta-se por sua destruição. Os EUA reduziram a escombros o Museu Arqueológico de Bagdá. Israel bombardeou a Universidade de Gaza. No exercício da razão do mais forte revela-se a vontade de destruir a vida biológica e a vida do espírito. A análise é da filósofa Olgária Mattos, em seu artigo de estréia como colunista da Carta Maior.

A situação dos palestinos na Faixa de Gaza, sob o poder da tecnologia bélica do Estado de Israel e de seu militarismo expansionista, expressa, de maneira cabal, a condição de suas vítimas: o crime justificado pela lógica da “guerra justa” e da destruição em nome da segurança e da paz. Ao limbo jurídico no qual, hoje, Israel exerce a soberania, a Idade Média denominou “estado de exceção”. Se, historicamente, os Estados nacionais se fundaram em algum tipo de violência, também é verdade que só se mantiveram e prosperaram porque acederam à legitimidade. Na dificuldade em consegui-la, o Estado de Israel exerce o poder ab-solutus e o terror, acima do concerto das Nações.

A partir da Primeira Guerra Mundial - com o fim dos campos de batalha e o bombardeio de populações civis desarmadas - , o mundo inteiro tende a se converter em trincheira, cada indivíduo transformado em um puro objeto sem defesa, simples alvo em uma zona de tiro.

Na contramão da violência nua, os bens culturais materializam os esforços da humanidade para se humanizar. Assim, os lugares de memória, escolas, universidades e museus.

O Museu Arqueológico de Bagdá era o guardião da primeira história do homem, lá onde, segundo o relato bíblico, tudo começou. Entre o Tigre e o Eufrates, viveram Adão e Eva. Aí se gestaram a civilização e a vida. O museu não foi conquistado pelas forças militares norte-americanas, por um comando que, admirando seus bens, usurpava-os para si. Dele só restaram escombros.

Na pulsão anti-genealógica do capitalismo contemporâneo - anti-intelectual e contra-humanista - não se reconhece dívida simbólica com o passado de quem o tem. E na impossibilidade de fazer da história do Outro um bem comum compartilhado, houve ainda o bombardeio da Universidade Palestina da Faixa de Gaza e da Escola cuidada pela ONU.

Desde a Academia de Platão, do Liceu de Aristóteles e do Pórtico dos estóicos, Escola e Universidade constituíram um espaço de autonomia e liberdade a que demagogos do povo, polícia e exércitos não tinham acesso. Produzindo a vida do Espírito, sua função é a de desenvolver conhecimentos, aprimorar os costumes, elevar o indivíduo e sublimar o povo. Com a percepção aguda da brevidade da vida e da fragilidade das coisas humanas, escolas, universidades e museus são os guardiães que transmitem,ao longo das gerações, tudo o que é preciso lembrar e interrogar, e o que é digno de renome e fama.

No exercício da razão do mais forte revela-se, porém, a vontade dos poderosos em destruir, além da vida biológica, a vida do espírito; e o desejo do povo de viver em paz. A paz - estado de tranqüilidade moral - só acontecerá, como anotou Simone Weil, quando os homens deixarem de enaltecer a força, valorizar a violência e humilhar os vencidos. “Duvido que seja para já”.

(*) Olgária Mattos é filósofa, professora titular da Universidade de São Paulo.



 

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COMENTÁRIOS (23 Comentários)
       
Opinião Comentário Autor Data
Oi, professora, em 2002 eu ... Luciano 21/01/2009
Grata, jornalista que preza... teresa maria braga... 21/01/2009
O patrimônio imaterial é tã... Débora Diogo 21/01/2009
Brava Olga ! De fato, cont... Orlando 21/01/2009
Alijando as pessoas do conh... Eduardo Sallenave 21/01/2009
Esta ação destrutiva sobre ... João 21/01/2009
Parabéns Dra. Olgária. Part... Acir Moreira 19/01/2009
Prezado C. Vasconcellos, to... Euclides Oliveira 18/01/2009
a percepção espiritual esta... Rosangela Guedes 18/01/2009
Muito bom artigo. É sempr... Eduardo Gomes Marq... 18/01/2009
Concordo com a intolerância... Carlos Vasconcello... 18/01/2009
É impressionante perceber c... Ana Luzia 17/01/2009
Olgária, seu comentário é e... Regina Gomes 17/01/2009
Prezada Rita, os EUA nada f... Euclides Oliveira 17/01/2009
Sou contra totalmente a es... Rita Bastos 17/01/2009
Aqui do Alto Xingu, os índi... Índio Tupi 17/01/2009
Benvinda Olgária! A express... Flavio Wolf de Agu... 17/01/2009
gostaria de destacar essa f... altamiro 16/01/2009
Olgária, brilhante! Ao mes... Arau 16/01/2009
A arrogância, o gosto pela ... Euclides Oliveira 16/01/2009
totalmente a favor do comen... jose carolino tost... 16/01/2009
muito bem, Dra. olgaria. eu... antonio rodrigues 16/01/2009
Não vou comentar especifica... Fred 16/01/2009
 
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31/08/2010

Uma análise do poder midiático na Argentina : O discurso que Cristina Fernández de Kirchner fez em 24 de agosto foi mais além do que tinham ido todos os discursos dos presidentes argentinos até hoje. Ninguém – nem sequer o primeiro Perón ou Evita – fizeram tal desconstrução da estrutura do poder na Argentina. De quê ela estava falando? Do poder nas sombras, do poder detrás do trono, do verdadeiro poder. Qual é? É o poder midiático. A direita não tem pensadores, tem jornalistas audazes, agressivos. E a mentira ou a deformação pura e plena de toda notícia é sua metodologia. O artigo é de José Pablo Feinmann.

Os EUA, o Chá e o 11/09: modernidade e regressão : Embora o Partido do Chá não constitua um partido oficial, represente a maioria ou detenha uma face única, sua mobilização social atrai segmentos diversos. A sua atração reside na externalização de problemas ao outro, o governo, as instituições públicas ou o diferente, sintetizado em um discurso composto pelos “antis” e pelos “prós”: anti-Estado, anti-impostos, anti-minorias, anti-direitos civis e sociais, pró-armas, pró-vida, pró-religião. O espírito é conservador, o que gera posições paradoxais: critica-se a reforma da saúde e do sistema financeiro como intrusivas, mas, ao mesmo tempo silencia-se ou apóia-se o Ato Patriota que, mais do que estes ajustes, é contrário às liberdades individuais. O artigo é de Cristina Soreanu Pecequilo.

Un análisis del poder : El discurso que la presidenta CFK ofreció el 24 de agosto fue más allá de lo que han ido todos los discursos de los presidentes argentinos hasta la fecha. Nadie –ni siquiera el primer Perón o Evita– procedieron a una destotalización de la estructura del poder en la Argentina. Analíticamente, destotalizó, en primer término, la totalidad y luego la armó otra vez para exhibir su funcionamiento. ¿De qué estaba hablando la Presidenta? Del poder en las sombras, del poder detrás del trono, del verdadero poder. ¿Cuál es? Es el poder mediático.

30/08/2010

"Hay que persuadir a Obama de que evite la guera nuclear" : Durante alrededor de cinco horas que duró la charla-entrevista –incluido el almuerzo– con La Jornada, Fidel aborda los más diversos temas, aunque se obsesione con algunos en particular. Permite que se le pregunte de todo –aunque el que más interrogue sea él– y repasa por primera vez y con dolorosa franqueza algunos momentos de la crisis de salud que sufrió los pasados cuatro años. "No quiero estar ausente en estos días. El mundo está en la fase más interesante y peligrosa de su existencia y yo estoy bastante comprometido con lo que vaya a pasar. Tengo cosas que hacer todavía".

"Não tenho dúvida de que ocorrerão grandes mudanças no México" : Na segunda parte da entrevista à jornalista Carmem Lira Saade, do La Jornada, Fidel Castro comenta suas recentes declarações a respeito de uma fraude que teria ocorrido nas últimas eleições presidenciais mexicanas prejudicando o candidato Andrés Manuel López Obrador.

Fidel Castro: “Cheguei a estar morto, mas ressuscitei” : Em entrevista exclusiva ao jornal La Jornada (a primeira concedida a um veículo impresso desde que uma diverticulite obrigou seu afastamento da liderança do governo cubano), Fidel Castro fala sobre o que aconteceu, diz que esteve à beira da morte, mas ressuscitou. E fala de seus planos para o futuro: "Não quero estar ausente nestes dias. O mundo está na fase mais interessante e perigosa de sua existência e eu estou bastante comprometido com o que está acontecendo. Ainda tenho muitas coisas para fazer".

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