Internacional| 21/01/2009 | Copyleft

Sionismo, as armadilhas de origem

Na melhor das hipóteses, o que Israel aceitará como “solução palestina” será um gueto, um território sem soberania, definido pelas alegadas necessidades de segurança e seus imperativos nacionais. Como alternativa à desocupação de Gaza, um Estado virtual? Ainda está longe o dia da coexistência de dois Estados na Palestina. O artigo é de Carlos Eduardo A. Martins e Gilson Caroni Filho.

“Tem que olhar todos os pedaços. Tem que desmontar tudo. Aí você vai entender.”
Leon, personagem fictício, em Whisper vol. 2 no. 36, maio de 1990, autor: Steven Grant.

Dois artigos publicados há algum tempo pela Folha de S. Paulo, antagônicos e ambos falhos oferecem, em paralelo, bom ponto de partida para a discussão da ideologia do sionismo territorialista e suas implicações. O do jornalista inglês Daniel Finkelstein, reproduzido do The Times de Londres no suplemento Mais! de 11/01/2008, é uma defesa apaixonada do sionismo; o de Mateus Soares de Azevedo (em Tendências / Debates, de 14.01), uma condenação.

Azevedo falha duplamente. Primeiro, ao afirmar que o sionismo seria “uma ruptura com a tradição judaica”, o que não é de modo algum. Segundo, e mais importante, ao condená-lo por critérios morais, usando o termo “egoísmo coletivo”. Qualquer hobbesiano dirá, coberto de razão, tratar-se de uma tautologia, pois é o egoísmo o móvel fundamental das ações tanto de indivíduos quanto de grupos. O que Azevedo não percebe é que o sionismo só pode ser “condenado” a partir da análise de sua essência.

É essa “essência” que Finkelstein se propõe a defender. Após um longo “nariz de cera” (em que não se peja de apelar à figura emblemática de Anne Frank), passa a historiar o sionismo territorialista moderno, a partir de seu patrono, o jornalista húngaro Theodor Herzl, autor de Der Judenstaat (O Estado Judeu), de 1896.

A premissa de Herzl é que os judeus não podem se fiar na “opinião pública mundial” ou na “comunidade das nações”, que sempre assistiram impassíveis às incontáveis perseguições sofridas pelo povo judeu através dos séculos. Os judeus teriam que assegurar sua sobrevivência, como povo e como indivíduos, por seus próprios meios. O que só seria possível com o estabelecimento de seu Estado nacional soberano, para o que Herzl indica a Palestina (então sob domínio turco), local do último Reino de Israel.

Além do livro, considerado o marco inicial do moderno sionismo político, Herzl foi um ativo militante do ideal sionista, que pregou por toda a Europa, além de, como líder do movimento, conduzir negociações com a Turquia e o Egito.

A ideologia territoralista é excludente. Em momento algum Herzl advoga pública e explicitamente o extermínio ou a expulsão violenta dos palestinos não-judeus. Mas deixa claro, em seus diários, que eles deveriam ser “persuadidos a se retirarem”, por meios econômicos como o confisco de suas terras e outras propriedades e a recusa em lhes dar emprego. Ou seja, em instância final Israel deveria ser o lar exclusivamente dos judeus – e inclusiva e idealmente de todos os judeus do mundo, que só ali teriam assegurada sua sobrevivência.

Herzl tampouco define fronteiras específicas para o Estado judeu, referindo-se genericamente à “Palestina”. Mas da mesma forma antevê o caráter necessariamente expansionista de tal Estado, até mesmo para acomodar a desejada imigração em massa. É significativo que, nos documentos oficiais do governo Israelense, o território de Israel engloba hoje toda a Palestina, Gaza, Cisjordânia e Golan incluídas.

Embora Finkelstein compartilhe do equívoco de Azevedo ao afirmar que “a origem do Estado de Israel não está na religião”, é óbvio que as propostas de Herzl estão imbuídas da visão toráica de “povo escolhido” (à exclusão de todos os demais) e de “destino manifesto” – de resto não diferentes da professada pelos proponentes do PNAC, Plano para um Novo Século Americano, que norteou o “bushismo” nos Estados Unidos – a começar pela escolha da “Terra Prometida” para lar do Estado de Israel.

Mas o discurso herzliano é totalmente laico (o que foi desprezado pela “esquerda sionista”, que acedeu em criar Israel como um Estado confessional, vide a Estrela de David em sua bandeira). E seus objetivos, estritamente materiais: terra e poder.

Quer seu criador estivesse consciente delas ou não, as implicações da ideologia sionista territorialista são inescapáveis. E Finkelstein as explicita: “Assim, quando se pede a Israel que respeite a opinião mundial e confie na comunidade internacional, não se está compreendendo o ponto fundamental. A própria idéia de Israel é uma rejeição dessa opção. Israel só existe porque os judeus não se sentem seguros como tutelados da opinião mundial.”

Daí se depreende inevitavelmente que quaisquer “negociações” ou “acordos” não têm valor para Israel, que os usará se conveniente assim como os ignorará se e quando, a seu exclusivo juízo, for necessário para sua segurança. Finkelstein continua sua explanação sem se dar conta de que explicita o que a propaganda sionista tenta ocultar: “Israel entregará suas armas quando os judeus estiverem em segurança, mas não o fará enquanto não estiverem.” E só a Israel compete dizer se a “segurança” foi alcançada ou não, bem como até onde o Grande Israel terá que se estender até então.

Mas o sionismo não recorreu à comunidade internacional, representada pela ONU, para formalizar a partilha da Palestina e a criação do Estado de Israel? Sim, mas por mero oportunismo, valendo-se da “consciência culpada” dos gentios face ao Holocausto e explorando as tensões geopolíticas entre as antigas potências coloniais européias, Inglaterra (já detentora do “mandato palestino”) e França à frente, Estados Unidos e União Soviética, além da divisão entre os países árabes. E só o fez por constatar que o caminho da violência e do terrorismo não levaria à consecução de seus objetivos.

Portanto, por sua própria origem e seu cerne ideológico, o Estado de Israel se definiu como uma nação que despreza a opinião mundial, não reconhece a comunidade internacional e ignora quaisquer decisões colegiadas que não lhe pareçam convenientes.

É por isso que Israel jamais concordará com a criação de um Estado Palestino, que o obrigue a ceder parte de “sua” terra (como na canção-tema do filme Exodus, “Esta terra é minha / Deus deu esta terra para mim”). Certamente é esse o motivo pelo qual Israel nunca hesitou, e nunca hesitará, em promover “limpezas étnicas” e guerras de extermínio, pelas armas ou pelo boicote, assim como não hesita em atacar instalações e veículos da ONU e da Cruz Vermelha Internacional, “intruso” na “minha terra".

Um Estado que nunca acatou uma resolução da ONU, que viola sistematicamente o Direito Internacional, só pode ser convencido por uma política de contenção de força. Dado o poder de veto dos Estados Unidos no Conselho de Segurança da Organização, essa é uma proposta impossível, mas o que é a história senão a concretização de impossibilidades? Um jogo vital que põe por terra as certezas positivistas

Em 2004, numa decisão histórica, a Corte Internacional das Nações Unidas, em Haia, decidiu que a parte da barreira de 685 quilômetros que Israel estava começando a construir nos territórios palestinos violava a lei internacional. O então ministro das Finanças, Benjamin Netanyahu, foi categórico: ”O que vai acontecer agora é o seguinte: o assunto vai para a Assembléia-Geral da ONU. Eles podem decidir qualquer coisa. Podem dizer que a Terra é chata. Isto não fará com que a decisão seja legal, verdadeira e justa".

Como se vê, na melhor das hipóteses, o que Israel aceitará como “solução palestina” será um gueto, um território sem soberania, definido pelas alegadas necessidades de segurança e seus imperativos nacionais. Como alternativa à desocupação de Gaza, um Estado virtual? É isso o que propõe o colossal aparato político-midiático sionista? Sujeitar a humanidade a seu planisfério?

Ainda está longe o dia da coexistência de dois Estados na Palestina. Atualmente há uma geração, em Gaza e na Cisjordânia, que conhece apenas a vida no gueto. Jovens que aprenderam, com a última ofensiva israelense, que a existência dos filhos de Ismael só é possível sob o refúgio incerto de uma barricada.

Carlos Eduardo Alcântara Martins é economista.e pesquisador. Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Observatório da Imprensa.



 

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COMENTÁRIOS (12 Comentários)
       
Opinião Comentário Autor Data
Acredito que a evolução hum... Evano Silveira Bal... 31/01/2009
Os palestinos deveriam se m... Jorge Ernesto Cout... 30/01/2009
Sem rodeios, sem digressões... Carla Barros 25/01/2009
Augusto Mello, avisar Demet... Carlos Nogueira 24/01/2009
Há ainda muitas pessoas a c... Guilherme Coelho 23/01/2009
O grande mérito do artigo é... Maria Elisa Guimar... 22/01/2009
Os autores estáo corretíssi... luisa ferreira 22/01/2009
"Ainda está longe o dia da ... Fernanda Araujo 22/01/2009
"o que é a história senão a... Ana Helena Tavares 22/01/2009
Paulo Demeter, o artigo é s... Augusto Mello 22/01/2009
Um apanhado histórico de in... Rodrigo Almeida. 22/01/2009
Muito bem, mas qual seria o... Paulo Demeter 22/01/2009
 
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31/08/2010

Uma análise do poder midiático na Argentina : O discurso que Cristina Fernández de Kirchner fez em 24 de agosto foi mais além do que tinham ido todos os discursos dos presidentes argentinos até hoje. Ninguém – nem sequer o primeiro Perón ou Evita – fizeram tal desconstrução da estrutura do poder na Argentina. De quê ela estava falando? Do poder nas sombras, do poder detrás do trono, do verdadeiro poder. Qual é? É o poder midiático. A direita não tem pensadores, tem jornalistas audazes, agressivos. E a mentira ou a deformação pura e plena de toda notícia é sua metodologia. O artigo é de José Pablo Feinmann.

Os EUA, o Chá e o 11/09: modernidade e regressão : Embora o Partido do Chá não constitua um partido oficial, represente a maioria ou detenha uma face única, sua mobilização social atrai segmentos diversos. A sua atração reside na externalização de problemas ao outro, o governo, as instituições públicas ou o diferente, sintetizado em um discurso composto pelos “antis” e pelos “prós”: anti-Estado, anti-impostos, anti-minorias, anti-direitos civis e sociais, pró-armas, pró-vida, pró-religião. O espírito é conservador, o que gera posições paradoxais: critica-se a reforma da saúde e do sistema financeiro como intrusivas, mas, ao mesmo tempo silencia-se ou apóia-se o Ato Patriota que, mais do que estes ajustes, é contrário às liberdades individuais. O artigo é de Cristina Soreanu Pecequilo.

Un análisis del poder : El discurso que la presidenta CFK ofreció el 24 de agosto fue más allá de lo que han ido todos los discursos de los presidentes argentinos hasta la fecha. Nadie –ni siquiera el primer Perón o Evita– procedieron a una destotalización de la estructura del poder en la Argentina. Analíticamente, destotalizó, en primer término, la totalidad y luego la armó otra vez para exhibir su funcionamiento. ¿De qué estaba hablando la Presidenta? Del poder en las sombras, del poder detrás del trono, del verdadero poder. ¿Cuál es? Es el poder mediático.

30/08/2010

"Hay que persuadir a Obama de que evite la guera nuclear" : Durante alrededor de cinco horas que duró la charla-entrevista –incluido el almuerzo– con La Jornada, Fidel aborda los más diversos temas, aunque se obsesione con algunos en particular. Permite que se le pregunte de todo –aunque el que más interrogue sea él– y repasa por primera vez y con dolorosa franqueza algunos momentos de la crisis de salud que sufrió los pasados cuatro años. "No quiero estar ausente en estos días. El mundo está en la fase más interesante y peligrosa de su existencia y yo estoy bastante comprometido con lo que vaya a pasar. Tengo cosas que hacer todavía".

"Não tenho dúvida de que ocorrerão grandes mudanças no México" : Na segunda parte da entrevista à jornalista Carmem Lira Saade, do La Jornada, Fidel Castro comenta suas recentes declarações a respeito de uma fraude que teria ocorrido nas últimas eleições presidenciais mexicanas prejudicando o candidato Andrés Manuel López Obrador.

Fidel Castro: “Cheguei a estar morto, mas ressuscitei” : Em entrevista exclusiva ao jornal La Jornada (a primeira concedida a um veículo impresso desde que uma diverticulite obrigou seu afastamento da liderança do governo cubano), Fidel Castro fala sobre o que aconteceu, diz que esteve à beira da morte, mas ressuscitou. E fala de seus planos para o futuro: "Não quero estar ausente nestes dias. O mundo está na fase mais interessante e perigosa de sua existência e eu estou bastante comprometido com o que está acontecendo. Ainda tenho muitas coisas para fazer".

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