Política| 20/02/2009 | Copyleft

A esquerda enfrenta a dura carpintaria da história

Em meio às angústias que assombram trabalhadores e a classe média, emparedados entre a fatalidade de uma ordem que se liquefaz e um futuro que nada propõe exceto agonia, parte dos teóricos da esquerda agarra-se à discussão metafísica de modelos, desobrigando-se de assumir a dura carpintaria de construção da história nesse momento. A análise é de Saul Leblon.

A crise mundial desencadeou um salutar debate sobre o desenvolvimento contribuindo para desbloquear a memória e o imaginário social, entorpecidos por sonolentas décadas de monólogo conservador. Por quase 30 anos despejou-se sobre a sociedade uma peroração cotidiana que reafirmava a virtude dos mercados desregulados para promover o crescimento, a inovação, a modernidade, a eficiência, a liberdade, orgasmo e a cura para a calvice.

Jornalões, colunas e colunistas, em especial nas editorias de economia, funcionaram esse tempo todo como uma espécie corregedoria ideológica do fim da história. Dentro e fora das redações, cuidavam de vigiar, punir e desqualificar quem ousasse argüir o mainstream, bem como o perímetro por ele reservado à democracia.

A universidade deve à história um livro branco sobre o peso da mídia nessa dialética de propaganda e vigilância. Não uma caça às bruxas que mimetize o objeto. Mas uma análise substantiva sobre como, sob a roupagem do ‘especialista’, valendo-se de uma novilíngua afiada, a imprensa exerceu por tanto tempo um poder equivalente ao do Grande Irmão, conseguindo inculcar no cidadão médio preconceitos como “gastança pública” e “custo Brasil”. Foi assim que ela lapidou uma narrativa de mundo que viria demonizar como ineficiente o que era eficiente socialmente; como liberdade, o que restringia a democracia em benefício da livre circulação do dinheiro.

A derrocada de tudo aquilo que até há bem pouco atestava como inútil a busca de novas formas de viver e de produzir, assume assim a contundência de um pé-de-cabra que arromba as portas da história.

Abertas abruptamente, porém, senzalas materiais ou imateriais muitas vezes revelam a perplexidade dos libertos ao primeiro facho de luz. A vertigem, no caso, não parece ter poupado a própria esquerda.

Em meio às angústias que assombram trabalhadores e a classe média, emparedados entre a fatalidade de uma ordem que se liquefaz e um futuro que nada propõe exceto agonia, parte dos teóricos da esquerda agarra-se à discussão metafísica de modelos, desobrigando-se de assumir a dura carpintaria de construção da história nesse momento.

Uma das mais óbvias distinções entre o materialismo histórico e o idealismo é o reconhecimento de que a transformação da sociedade só é possível a partir de seus agentes de carne e osso, portadores de conflitos de pedra e cal.

Mas, perguntam teóricos da esquerda enquanto pau come solto nas vizinhanças, isto é, no mundo real: com ou sem regulação da economia pelo Estado nacional? Com ou sem estatização de bancos? Com ou sem indução de investimentos públicos? Com ou sem políticas públicas de garantia de emprego? Keynesianismo, mas como, na globalização? Socialismo, mas sem sujeito histórico proletário?

É interessante observar a desenvoltura eclética –para dizer o mínimo-- com que representantes do capital transitam por essas escolhas, ferramentas e campos conceituais postos na ordem do dia pela crise. Enquanto intelectuais de esquerda multiplicam as listas do que não é possível fazer –tudo, exceto o aprisco seguro de uma teoria da revolução mundial-- expoentes do establishment, desde um progressista Paul Krugman a um atilado analista como Nouriel Roubini; de Ângela Merkel a Gordon Brown, passando pelos insuspeitos Alan Greenspan e Nicolas Sarkozy, ninguém hesita em recorrer ao ferramental disponível, tenha ele o carimbo ideológico que tiver. A saber, da demissão em massa, à estatização de bancos; da emissão de moeda em quantidades industriais, a gastos fiscais pantagruélicos que cospem sem cerimônia no prato diet de alface e rabanete do Tratado de Maastricht.

O recado é claro: há uma desordem em marcha e ela ameaça o poder político do capitalismo. Vale tudo para evitá-lo. O Estado, suas políticas e fundos públicos oferecem a necessária dose de centralização, escala e capacidade de comando para ocupar o vácuo aberto pela finança em decomposição. “Momentaneamente”, desculpam-se uns; “uma vez a cada cem anos”, delimita Alan Greenspan; mas o fato é que se recorre a ele quando a escolha é salvar os dedos ou perder toda a mão invisível legada por Adam Smith.

Tamanha versatilidade não ofusca a derrota ideológica dos aparatos conservadores no centro e na periferia do sistema. Mas deixa claro que o avanço das demandas populares não ocorrerá porque o City Bank escorrega na ladeira de uma estatização provisória; ou a GM –maior montadora mundial até 2001-- debulha-se em perdas numa rota de falência assistida pelo Estado. Há substitutos em marcha para os mortos canibalizados pelo darwinismo da crise. A voragem de fusões e compras amparadas em fundos públicos, empurra a onda submersa que busca desesperadamente recriar o novo devorando o DNA do velho.

O salto político da esquerda pressupõe alternativas concretas a essa transição. Respostas capazes, por exemplo, de transformar a coordenação provisória da riqueza financeira pelo Estado em ganho permanente da sociedade, subordinando de vez o poder dinheiro à democracia; como a estatização do crédito, por exemplo.

Em diferentes períodos da história, a luta pela transformação da sociedade incluiu interregnos de capitalismo de Estado, ora associados à ampliação do poder político das massas; ora vinculados a acontecimentos devastadores em que um poder de coerção superior foi posto integralmente a serviço da guerra e da demência autoritária. O caso clássico é a ascensão do nacional-socialismo na crise dos anos 30, quando se assistiu a uma recuperação fulminante da economia alemã, graças a políticas de capitalismo de Estado coordenadas pelo comando nazista.

Desde a NEP, de Lênin, porém, passando pela China atual até a revolução bolivariana de Chávez e Morales, a ampliação da influência popular sobre o Estado tem permitido, ao contrário, deslocar as prioridades do capital a favor das urgências da democracia e da justiça social. Se ainda não é a revolução, como de fato não é; se ainda se recorre a políticas keynesianas a contrapelo das restrições impostas pela globalização, como de fato se recorre - vide Bolívia e Venezuela - a verdade é que são esses interregnos que representam hoje o ponto mais avançado da luta de classes em todo o mundo. Portanto, da esperança de renovação da agenda socialista em nosso tempo.

A lição parece ser que a história avança a partir de imperfeições;não de modelos desprovidos de conteúdo histórico. Movimenta-a um entrelaçamento tenso entre forças novas e instrumentos velhos, muitas vezes renovados até o ponto de mutação. A esquerda terá papel relevante na dialética da crise mundial se conseguir enxergar-se como parte desse amálgama de restrições e possibilidades cercados de ruídos e imperfeições. Se renunciar à carpintaria da história para mergulhar na busca metafísica da solução pura, a salvo de contradições, será tratorada pela desenvoltura ecumênica da força-tarefa capitalista. Mais uma vez.



 

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COMENTÁRIOS (10 Comentários)
       
Opinião Comentário Autor Data
Prezado Saul, texto pertin... izaias almada 24/02/2009
Saul, estou até bebendo men... luiz pinheiro 23/02/2009
Grande Saul! Tua análise fa... César Rocha 22/02/2009
"Textaço!" do Saul Leblon (... Lula Miranda 22/02/2009
grande texto para refletirm... altamiro souza 20/02/2009
Culpa, medo e covardia acom... Vinícius Lima 20/02/2009
Em outro momento neste mesm... francisco 20/02/2009
Caro Saul: meus cumprimento... Flavio Wolf de Agu... 20/02/2009
Caro companheiro, reflexões... carlos saraiva e s... 20/02/2009
Caro Saul, apesar de concor... Joatan Freitas 20/02/2009
 
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