Arte & Cultura| 22/05/2008 | Copyleft

A pérola de Olivier Assayas perdida em Cannes

São coisas que só acontecem em Cannes: enquanto a multidão se desdobra para assistir aos quase 60 filmes das mostras oficiais, os quase mil filmes restantes, trazidos ao festival por diretores e produtores, passam desapercebidos nas pequenas salas do Palácio do Festival e da própria cidade.
Foi o que ocorreu com o novo filme de Olivier Assayas, “L’Heure d’Été”, cuja exibição na última quarta-feira, no pequeno cinema Arcades, foi prestigiada por pouco mais de 20 pessoas.
O filme teve origem em projeto do Musée D’Orsay de 2006, no qual quatro cineastas (Olivier Assayas, Raoul Ruiz, Hou Hsiao-hsien e Jim Jarmusch) foram convidados a realizar curtas-metragens por ocasião da comemoração dos 20 anos do museu.
O projeto nunca foi concluído, mas as pesquisas dos diretores para desenvolvimento dos curtas serviram, no caso de Hsiao-hsien e Assayas, como impulso inicial para a realização de dois belos longas metragens sobre arte: “Le Voyage du Ballon Rouge” (A Viagem do Balão Vermelho) e “L’Heure d’Été”, respectivamente.
Em sua obra, Assayas situa o espectador no seio de uma família bastante acostumada com o meio artístico: a matriarca (vivida por Edith Scob), que completa 75 anos, passou a vida dedicando-se à gestão da obra de seu tio, grande pintor do século 20. Com a aproximação do final da vida, ela começa a preparar sua sucessão e a transferência desse legado aos filhos, interpretados por Charles Bering, Juliette Binoche e Jérémie Renier.
A partir desse enredo, são abordadas questões como a significação das obras de arte e a relação das pessoas com esses objetos _que, como declara um dos personagens, seriam reminiscências de algo muito maior e significativo (a experiência, a vida, as memórias).
Mas o diretor não pára aí. Como já de praxe em seus filmes, são acrescentadas diversas camadas sobre o argumento inicial e Assayas acaba por lidar com diversas variantes temáticas ao redor desse núcleo familiar. “L’Été” é um filme também sobre a dinâmica de uma família, numa leitura cuidadosa e imparcial do diretor, sem maniqueísmos e filiações a um ou outro ponto de vista, sem que isto signifique distanciamento mas sim um olhar carregado de cumplicidade por aqueles personagens.
Fala-se também sobre as dificuldades de lidar com a ausência daqueles que se vão e o papel que os objetos desempenham no sentido de resguardar e simbolizar algo que está sendo perdido.
O filme não deixa de ser uma espécie de retorno do diretor à França de sua origens, depois de filmes como “Clean” (2004) e “Boarding Gate” (2007), em que havia uma espécie de transferência da trama para a América, no primeiro caso, e para a Ásia no segundo.
Nesse caso, estamos em pleno seio da cultura francesa, inclusive no que se refere à arte, mas Assayas consegue trazer ao longa esses universos que lhe são tão caros por meio dos dois filhos mais novos, que vivem como expatriados nos referidos continentes.
Mais uma vez, Assayas mostra sua habilidade em transitar livremente por ambientes clássicos e outros de pura jovialidade. Com isso, ele consegue a proeza de posicionar o “fim” (da vida, dos objetos, das histórias) numa espécie de recomeço ou continuação, mostrando que existe alguma coisa que continua e que certas reminiscências podem (e devem) ser carregadas sem ajuda de objetos.



 

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